A vaticanista Valentina Alazraki fala tudo sobre a entrevista com o papa Francisco

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28 Junho 2019

Ela é uma veterana correspondente do Vaticano, que começou trabalhando como uma jornalista nos anos 1970, cobriu cinco pontificados e tomou parte em 154 visitas papais. Valentina Alazraki, a correspondente do Vaticano para o Noticieros Televisa, do México, também entrevistou o papa Francisco duas vezes, a mais recente no último mês.

Expôs uma explosiva entrevista na qual o papa fala abertamente sobre muitos assuntos: do caso Viganò as acusações de heresia contra ele. Katholiek Nieuwsblad falou com Alazraki sobre sua entrevista e sua relação com o papa Francisco.

A entrevista é de Marta Petrosillo, publicada por Katholiek Nieuwsblad, 26-06-2019. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

Como fez a mais recente entrevista?

Todo Natal eu escrevo uma carta para o Papa pela ocasião do seu aniversário (que é em 17 de dezembro). Eu uso essa oportunidade para falar sobre minhas dúvidas e questões que surgem no meu trabalho diário. Em 2017, escrevi para ele que havia alguns tópicos que eu gostaria de discutir com ele. Em sua resposta, ele me disse que já havia prometido fazer várias entrevistas por ocasião de seu quinto aniversário como papa. Então, com alguma ironia, eu disse que poderia entrevistá-lo para o sexto aniversário. Então, em fevereiro, durante a Cúpula de Abusos, logo antes do meu discurso, o papa me disse que poderíamos fazer a entrevista.

Você já enviou cartas antes de ele se tornar pontífice? Você o conhecia antes desse tempo?

Absolutamente não. Eu não o conhecia, mas durante sua primeira viagem ao Brasil em 2013 fui apresentada ao papa pelo [então chefe da assessoria] padre Federico Lombardi como correspondente veterana do Vaticano, já que eu era a única jornalista ativa quando João Paulo II fez sua primeira viagem.

Desde aquele dia e especialmente depois da primeira entrevista que tive com ele durante o segundo ano de seu pontificado, criamos uma espécie de vínculo, também pelo fato de eu participar de todas as viagens papais e de falarmos em espanhol. Ele é sempre muito legal comigo. Durante uma das viagens fiz 60 anos e ele me trouxe um bolo. Ele fez o mesmo durante o meu 150º vôo no avião papal.

A atmosfera durante a entrevista aparentou ser tranquila, apesar de algumas questões espinhosas, como uma sobre o caso Viganò.

De fato, embora eu tenha total liberdade para pergunta-lo todas as questões que eu quiser. Eu acredito que a atmosfera foi tão tranquila devido a nossa boa relação. Algumas vezes o Papa até ri alto.

Ele até lhe chama de “minha filha”.

Verdade, ele me chama de hija. Eu fiquei muito surpresa. Eu pensei que ele estava usando uma forma coloquial, não sei. Mas ele era afetuoso.

O que você pensa que foram os tópicos mais importantes da entrevista?

As questões mais delicadas eram certamente aquelas relacionadas à Igreja e aos escândalos de abuso sexual. Algumas questões estavam relacionadas à consternação entre certos católicos que se sentem de algum modo afastados, em comparação a outras pessoas que estão mais distantes da Igreja. Alguns estão confusos porque a espontaneidade do Papa o expõe ao perigo de ser mal interpretado. Mas é um risco que ele está preparado a enfrentar. Ele prefere assim, em vez de perder a liberdade de conhecer pessoas.

Durante a entrevista, quis dar a ele a oportunidade de explicar um pouco de seu comportamento que fez com que alguns crentes católicos duvidassem dele. Eu queria resolver essas dúvidas. O Papa me explicou que nada havia mudado na doutrina.

Você segue o Vaticano desde os tempos do papa Paulo VI. Como o trabalho de correspondente do Vaticano mudou ao passar dos anos?

Quando eu cheguei não existia internet, computador ou celulares. Hoje parece mesmo outro mundo. Eu acompanhei Paulo VI como uma mera interna. Minha relação com a comunicação do Vaticano realmente decolou durante os dois conclaves de 1978.

Eu vi como a comunicação foi transformada por João Paulo II. A partir do momento em que ele apareceu na varanda, percebemos que ele era um papa absolutamente bom para as mídias.

Em um nível informativo, ele mudou tudo porque não era apenas um líder religioso, mas também político e diplomático. Ele era um homem que estava mudando o mundo e nós que estávamos com ele realmente tivemos a impressão de ser testemunhas da história sendo feita. As informações sobre a Santa Sé não terminavam mais em alguma coluna nas páginas internas dos jornais, mas na primeira página. Eu comecei meu trabalho nesta nova era.

Mas acredito que no tempo presente, das mídias sociais, muito mais responsabilidade e senso ético é necessário. Antes havia muito mais tempo para aprofundar as notícias e confirmá-las. Hoje tudo corre tão rápido que existe o risco de compartilhar notícias que você não teve tempo de verificar corretamente.

E sobre os papas Bento e Francisco?

Infelizmente, o papa Bento XVI foi vítima de muitos preconceitos criados pela mídia contra ele. Fazia-se manchetes apenas quando havia um problema, apenas de forma negativa. Declarações polêmicas sobre preservativos, ou após o incidente de Regensburg. E depois o escândalo de abuso sexual que explodiu durante o seu pontificado. Aqueles foram anos muito desagradáveis do meu ponto de vista.

Com Francisco, voltamos a um papa de primeira página, especialmente nos primeiros anos, a mídia sempre relata sobre ele de uma forma positiva.

Mesmo assim, como você nota na entrevista, a lua de mel com a mídia parece estar acabando.

Sim, mesmo que ele pensasse que eu queria dizer que sua lua de mel com a mídia tinha acabado, e não o contrário, como era a minha pergunta real. De fato, ele disse que considera a mídia útil porque também o faz refletir, ou faz com que ele perceba que cometeu erros, como aconteceu por exemplo durante sua viagem ao Chile.

Você foi convidada para falar na cúpula dos abusos, no Vaticano, em fevereiro. Como você se preparou para essa importante tarefa?

Devo confessar que perdi um pouco de sono por causa disso. Eu sabia o que queria dizer, mas não é todo dia que você tem a chance de se dirigir ao papa e aos presidentes de todas as conferências episcopais! Eu me preparei completamente. Eu acho que minha intenção era falar como mãe. As vítimas de alguma forma se sentiram representadas, porque eu estava falando sobre focar nas vítimas. O que eu nunca tinha imaginado... eu estava realmente com medo da reação deles.

Também tentei explicar que a mídia não é inimiga da Igreja. Nós podemos ser aliados. Os inimigos são os abusadores.

Como palestrante e como jornalista, está satisfeita com os passos dados após a cúpula?

Os documentos são importantes, e as orientações são indispensáveis, mas acredito que, acima de tudo, precisamos de uma mudança de mentalidade. A mentalidade de manter tudo sob as cobertas deve ser superada. Há também uma necessidade de maior conscientização. Temos visto muitos bispos que no primeiro dia da cúpula declararam que não havia tais problemas em suas dioceses. Então eles perceberam que o problema está em todo lugar e pertence a todos.

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