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26 Março 2019

Os seguintes trechos foram extraídos do livro "The Election of Pope Francis: An Inside Account of the Conclave That Changed History" [A eleição do Papa Francisco: um relato interno do conclave que mudou a história] (Ed. Orbis Books, 2019), de Gerard O’Connell, correspondente vaticano da revista America.

Acompanhamos aqui a história de O’Connell sobre o dia 13 de março, após a renúncia do Papa Bento XVI em 28 de fevereiro de 2013, e a convocação de um conclave para eleger seu sucessor. Os 115 cardeais elegíveis para votar em um conclave papal se reuniram em Roma e foram trancados sob forte segurança na Capela Sistina, no Vaticano, onde realizariam as votações secretas em intervalos regulares até que um novo papa fosse eleito com dois terços dos votos.

O relato foi publicado em America, 22-03-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

O que ocorreu, em seguida, dentro da Capela Sistina ficou escondido do mundo exterior. O cardeal Giovanni Battista Re explicou, em primeiro lugar, o processo de votação e, então, perguntou aos cardeais se estavam prontos para votar. Eles estavam! Todos estavam ansiosos para fazê-lo, pois isso revelaria para onde o Espírito Santo os estava guiando. A primeira fase do processo começou com a distribuição das cédulas de voto aos eleitores. Antes do início da votação, e de acordo com a constituição apostólica Universi Dominici Gregis, o cardeal eleitor mais jovem extraiu, então, aleatoriamente, os nomes de três “escrutinadores”, três “infirmarii” e três “revisores” para supervisionar a primeira sessão de votação.

A segunda fase foi a votação secreta. Cada cardeal tinha em sua frente um formulário de votação, de formato retangular, no qual estavam impressas em latim as palavras “Eligo in Summum Pontificem” (“Eu elejo como Sumo Pontífice”), e embaixo havia um espaço para o nome da pessoa a quem ele gostaria de dar o seu voto. Esperava-se que os eleitores escrevessem de tal modo que não pudessem ser facilmente reconhecidos pela sua caligrafia. Assim que o cardeal completasse seu formulário de votação, ele devia dobrá-lo longitudinalmente, de modo que o nome da pessoa em quem ele votou não pudesse ser visto.

Assim que todos os eleitores tinham escrito o nome do seu candidato escolhido e dobrado as cédulas de votação, cada cardeal, então, levava sua cédula entre o polegar e o indicador e, segurando a cédula no alto para que pudesse ser vista, levava-a até o altar, no qual estavam os escrutinadores e onde havia uma urna, feita de prata e bronze dourado pelo escultor italiano Cecco Bonanotte, com uma imagem do Bom Pastor gravada nela. A urna estava coberta por um prato dourado para receber as cédulas de votação.

Ao chegar ao altar, o cardeal eleitor ficava sob a impressionante pintura do “Juízo Final” de Michelangelo e pronunciava o seguinte juramento com uma voz clara e audível: “Eu chamo como minha testemunha a Cristo, o Senhor, que um dia será meu Juiz, de que meu voto é dado àquele que, diante de Deus, acredito que deve ser eleito”. Ele então colocava sua cédula no prato e inclinava o prato de tal modo que a cédula caísse na urna. Por fim, inclinava-se reverentemente diante da cruz e voltava para o seu lugar, e o próximo eleitor, então, dirigia-se ao altar.

Depois que todos os 115 eleitores haviam votado, os três escrutinadores começavam a contá-los. Era um momento de alta tensão. Todos assistiam ao ritual com muita atenção. O primeiro escrutinador sacudia as cédulas da urna, que haviam sido usadas pela primeira vez no último conclave, para misturá-las. Então, outro escrutinador começava a contá-las, pegando cada formulário de votação separadamente da primeira urna e transferindo-a para uma segunda urna, exatamente como a primeira, que estava vazia. A Constituição decreta que, se o número de cédulas não corresponder exatamente ao número de eleitores presentes, então essa rodada de votação é declarada nula e sem efeito.

Quando o número de cédulas corresponde exatamente ao número de eleitores, o processo continua com a abertura das cédulas. Os três escrutinadores sentam-se à mesa em frente ao altar. O primeiro abre a cédula, lê o nome silenciosamente e passa para o segundo escrutinador. O segundo faz o mesmo e depois passa para o terceiro, que lê o nome escrito na folha e, em seguida, em voz alta, anuncia-o a toda a assembleia e, depois, registra-o em um papel preparado para esse fim.

As janelas da Capela Sistina tinham sido tapadas. Mas isso foi considerado totalmente inadequado, dado o estado avançado das modernas tecnologias de comunicação e o risco de interceptação eletrônica, de modo que, assim como em 2005, os organizadores do conclave tomaram medidas de alta segurança para evitar a possibilidade de transmissão por smartphone a partir de dentro e de interceptação eletrônica a partir de fora por parte de agências ou indivíduos. Eles instalaram sistemas de interferência de última geração, incluindo uma gaiola de Faraday. O chão da capela havia sido elevado em cerca de um metro e coberto com tábuas de madeira para a instalação do sistema.

Desta vez, no entanto, os organizadores foram ainda mais longe do que no último conclave para evitar a possibilidade de interceptação; eles tomaram a extraordinária decisão de não usar o sistema de amplificação de som dentro da Capela Sistina. A razão para isso parece remontar ao conclave de 2005, quando o guarda suíço de pé do lado de fora da capela às vezes ouvia o que estava sendo dito dentro, especialmente quando as contagens dos votos eram anunciadas pelo sistema de som.

Consequentemente, antes da primeira votação, o cardeal Re pediu que o cardeal Juan Sandoval Íñiguez, o arcebispo emérito de Guadalajara, de 79 anos, que era conhecido por ter uma voz poderosa, ficasse em pé no meio da capela e proclamasse em voz alta os nomes lidos pelo terceiro escrutinador.

Enquanto o terceiro escrutinador lia um nome em uma cédula de votação, o cardeal Sandoval repetia-o para que todos pudessem ouvir. Havia um clima de grande suspense dentro da Capela Sistina quando os resultados eram anunciados. Pela primeira vez, os eleitores revelavam suas escolhas; eles estavam pondo suas cartas sobre a mesa.

Depois de ler o nome em cada cédula individual, o terceiro escrutinador perfurava a folha no meio da palavra “Eligo” com uma agulha e linha; isso era feito para juntar e preservar as cédulas. Quando os nomes em todas as cédulas haviam sido lidos, um nó era feito em cada extremidade do fio, e as cédulas unidas eram postas de lado.

Isso foi seguido até a terceira e última fase do processo de votação, que começou com a soma dos votos recebidos por cada indivíduo. Os resultados trouxeram várias grandes surpresas.

Antes do conclave, vários cardeais previram que haveria uma ampla dispersão na primeira votação, mas poucos haviam imaginado o quão ampla era seria: 23 prelados receberam pelo menos um voto na primeira votação; isso significava que um em cada cinco cardeais presentes havia recebido pelo menos um voto, sendo que quatro cardeais haviam recebido 10 ou mais votos. Os cinco primeiros colocados na primeira rodada foram os seguintes:

Angelo Scola chegou em primeiro com 30 votos, mas não recebeu tantos votos quanto o previsto por alguns cardeais e pela mídia italiana.

A grande surpresa foi Jorge Bergoglio, que ficou em segundo lugar, logo atrás de Scola, com 26 votos. Seu total, de fato, teria sido 27, se um eleitor não tivesse escrito errado o seu nome, escrevendo “Broglio”, em vez de Bergoglio, na folha de votação. Foi um começo muito promissor para o arcebispo de Buenos Aires.

Marc Ouellet também marcou bem, melhor do que o esperado, e chegou em terceiro lugar, obtendo 22 votos. Ele parecia um forte candidato.

Seán O’Malley também foi uma surpresa; com 10 votos, ele se tornou o primeiro estadunidense da história a pontuar tão alto em qualquer eleição papal.

Por outro lado, Odilo Pedro Scherer, o brasileiro muito indicado, teve uma pontuação surpreendentemente baixa; ele recebeu meros quatro votos.

Além desses primeiros colocados, cinco cardeais receberam dois votos cada na primeira votação: Christoph Schönborn, Peter Turkson, George Pell, Laurent Monswengo Pasinya e Timothy Dolan.

Outros 13 cardeais receberam um voto cada: Audris Backis, Óscar Rodríguez Maradiaga, Ernesto Antonelli, Carlo Caffarra, André Vingt-Trois, Oswald Gracias, Thomas Collins, Luis Antonio Tagle, Leonardo Sandri, Robert Sarah, Mauro Piacenza, Gianfranco Ravasi e “Broglio” (que parecia um óbvio erro de ortografia de Bergoglio).

O processo de votação terminava com a queima das cédulas. Depois de uma checagem final das folhas do relatório nas quais os escrutinadores haviam registrado os votos, as cédulas e os relatórios eram levados para um dos dois fornos especialmente instalados no lado esquerdo da parte de trás da Capela Sistina, olhando para o altar.

Os dois fornos se unem em uma chaminé que está conectada à chaminé erguida do lado de fora da capela, uma chaminé que agora era o centro das atenções da mídia mundial. A origem do forno remonta ao século XVIII, quando o mestre de cerimônias teve a brilhante ideia de comunicar ao mundo se um novo papa havia sido eleito ou não, jogando fumaça branca ou preta pela chaminé da capela, enquanto as cédulas e os relatórios eram queimados.

Seguindo as normas para o processo eleitoral, as cédulas da primeira votação desse conclave foram queimadas no forno mais antigo, que tem sido usado em todos os conclaves desde 1939. Isso foi feito por um dos escrutinadores, com a assistência do secretário do conclave, o arcebispo Lorenzo Baldisseri, que havia sido readmitido depois que os votos foram contados. Quando começaram a queima, eles ativaram um dispositivo eletrônico de produção de fumaça no forno mais novo, usado pela primeira vez no conclave de 2005, que continha um cartucho contendo cinco tipos de misturas químicas que podem produzir fumaça preta ou branca, conforme necessário. De acordo com o livro de regras, a operação de queima e de sinal de fumaça tinha que ser completada antes de os cardeais deixarem a Capela Sistina.

Como nenhum candidato obtivera a maioria de dois terços na primeira votação, as cédulas de votação foram queimadas, o dispositivo eletrônico de produção de fumaça foi ativado e, às 19h41 (hora de Roma), a fumaça preta subiu pela fina chaminé cor de ferrugem da Capela Sistina, anunciando ao mundo que nenhum papa havia sido eleito.

A visão da fumaça negra provocou um audível “Nooooo” entre os milhares de fiéis e turistas amontoados no frio debaixo de guarda-chuvas multicoloridos na Praça de São Pedro e usando capas de chuva, ponchos de plástico ou outros equipamentos impermeáveis para se proteger da chuva incessante. Eles ficaram ali, constantemente movendo o olhar entre a pequena chaminé e os telões na Praça de São Pedro, que mostravam ao vivo a chaminé iluminada por um refletor, enquanto as unidades de televisão e as redes de rádio de muitos países que estavam localizados fora da praça anunciavam a notícia para uma audiência global...

Para um forasteiro, aquela primeira votação dispersa poderia dar a impressão de uma grande incerteza, mas os eleitores viam-na de um modo muito diferente. O cardeal Oswald Gracias, por exemplo, me disse que ele a leu assim: “O Espírito Santo já estava nos indicando, o Espírito Santo estava nos conduzindo em uma direção particular. Deus estava lá diretamente”. Vários outros cardeais me disseram que haviam interpretado a primeira votação de maneira semelhante a Gracias.

A votação revelou várias coisas. Mostrou que Scola era o único candidato europeu forte na linha de sucessão a Bento XVI, e, embora esse pastor e eminente teólogo tivesse apoio, ele estava na extremidade inferior daquilo que se esperava na véspera do conclave, quando os cardeais e grande parte da imprensa italiana previram que ele estaria na frente com cerca de 40 votos. Naturalmente, isso foi uma decepção para seus apoiadores.

Mais importante, a votação confirmou o que muitos já sabiam ou suspeitavam: os 28 eleitores italianos estavam profundamente divididos em relação a Scola. De fato, como mostrou a história dos dois últimos conclaves (outubro de 1978 e abril de 2005), quando os italianos estão divididos, um italiano não será eleito. A história estava prestes a se repetir? Aquela primeira votação parecia indicar a muitos eleitores que o próximo papa não seria europeu; ele viria das Américas. Ela também deixava pouca dúvida de que Scherer estava fora da disputa; ele era visto como o candidato do status quo em um conclave que buscava mudanças radicais. Além de Scola, o resultado deixava outros três candidatos na disputa: Bergoglio, Ouellet e O’Malley, nessa ordem.

O arcebispo de Boston tinha muito a seu favor: ele é um pastor bem quisto, com um estilo de vida simples; fala espanhol fluentemente e tem um excelente histórico no enfrentamento de casos de abuso sexual de menores por parte do clero. No entanto, embora antes do conclave muitos cardeais afirmassem publicamente que a nacionalidade não era um problema, a verdade é que poucos queriam um papa da principal superpotência do mundo. Eleger um estadunidense, mesmo que fosse um frade franciscano, não teria caído bem no hemisfério Sul ou nas Igrejas do mundo em desenvolvimento. O’Malley, amigo e admirador de Bergoglio, compartilhava essa visão.

O cardeal Ouellet marcou muito melhor do que o esperado na primeira votação e estava em uma posição forte. Enquanto os cardeais discutiam sua candidatura em pequenos grupos e em conversas individuais na noite de terça-feira, 12 de março, eles reconheceram vários fatores positivos em favor desse canadense poliglota. Ele tinha experiência pastoral como padre na Colômbia e como bispo em Quebec. Também era importante o fato de que ele conhecia o Vaticano por dentro, tendo trabalhado primeiro no Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos e, desde 2010, na poderosa Congregação para os Bispos. Apesar desse lado muito positivo, vários cardeais disseram que o achavam “pouco inspirado” e “comum” e sentiam que seu histórico na Cúria Romana dava origem a sérias questões sobre sua capacidade de governar sob pressão. Essas questões, agora transformadas em sérias reservas, vieram à tona em conversas naquela primeira noite na Casa Santa Marta e levaram muitos eleitores indecisos a concluírem que, se ele não podia governar bem na Cúria Romana, ele poderia não ser capaz de governar da Igreja Católica.

Ao mesmo tempo, porém, Ouellet tinha alguns apoiadores altamente influentes além dos norte-americanos. Entre eles, estava o cardeal Joachim Meissner, arcebispo de Colônia, Alemanha, desde 1989 e durante nove anos antes arcebispo de Berlim. Amplamente considerado como o principal “conservador” na Igreja alemã, ele era conhecido por ser muito próximo de João Paulo II e um amigo de longa data de Joseph Ratzinger. Ele queria garantir que o próximo papa seguiria fielmente a linha e a visão de seus dois antecessores. E, assim, naquela noite de terça-feira em Santa Marta, ele foi visto do lado de fora do seu quarto pedindo aos seus colegas eleitores: “Votem em Ouellet! Bergoglio é muito velho!”.

Quanto a Bergoglio, a primeira votação revelou que ele era de fato um candidato forte, mais forte do que muitos imaginavam. Havia muitos fatores a favor de Bergoglio. Ele era conhecido por ser um homem muito santo, um pastor humilde, inteligente e inspirador, desprovido de ambição, que evitava os holofotes, vivia uma vida simples e tinha um amor apaixonado pelos pobres. Ele nunca tinha vivido ou estudado em Roma e não tinha uma aparência romana. Ele governara a Arquidiocese de Buenos Aires durante 15 anos de um modo verdadeiramente pastoral, com determinação, prudência e criatividade; tinha talento para o governo. Desde o Sínodo de 2001, sua estatura crescera internacionalmente e, na reunião do Celam em Aparecida, Brasil, em maio de 2007, ele veio à tona como líder indiscutível da Igreja dessa região, onde vivem quase 50% dos católicos do mundo. Acima de tudo, ele era um homem de coragem com uma visão missionária, capaz de abrir novos horizontes para a Igreja, um homem comprometido com o diálogo – com os judeus, com os muçulmanos, com outros cristãos e com aqueles que não professavam a fé. Acima de tudo, ele era um pastor. Sua curta intervenção na Congregação Geral, assim como sua interação com muitos cardeais durante esses dias, revelaram isso claramente.

À medida que os eleitores indecisos pensavam sobre em quem votar na manhã seguinte, três fatores inclinavam-se fortemente em favor de Bergoglio: primeiro, a grande maioria dos cardeais latino-americanos o apoiava, sem que nenhum deles falasse mal dele; segundo, ele havia revelado sua capacidade de se comunicar e inspirar quando proferiu sua breve mas refrescante intervenção na Congregação Geral; e, terceiro, ele tinha o apoio de asiáticos e africanos, assim como de europeus. Além disso, 68 eleitores que participaram do conclave de 2005 o conheciam como segundo colocado, e vários outros – como Maradiaga, Monswengo, Walter Kasper, Jean-Louis Tauran, Turkson, Gracias e outros – também não disfarçavam seu apoio ativo a ele.

Os indecisos tinham essa noite para se decidirem; na manhã de amanhã, eles teriam que votar novamente...

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