''Modelo Francisco de Assis'' para a reforma da Igreja pode ajudar na crise dos abusos

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08 Março 2019

“A reconstrução da Igreja só pode ocorrer quando cada parte constitutiva seja reparada e a estrutura seja refeita inteiramente. E o modo pelo qual se faz essa reconstrução é importante: como penitentes, com humildade e em espírito de oração, exatamente como São Francisco fez há oito séculos.”

A opinião é do frade dominicano estadunidense Daniel P. Horan, professor de Teologia Sistemática e Espiritualidade na Catholic Theological Union, em Chicago, EUA, em artigo publicado por National Catholic Reporter, 06-03-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Existe uma famosa história de São Francisco de Assis que ocorre no início de sua experiência de contínua conversão a uma vida cristã mais comprometida. De acordo com aqueles freis que conheceram São Francisco durante sua vida e documentaram suas histórias em um antigo texto franciscano conhecido como “A Lenda dos Três Companheiros”, um dia ele estava caminhando nos arredores igreja campestre de São Damião e sentiu-se guiado pelo Santo Espírito para entrar e rezar diante do crucifixo pendurado ali. Enquanto rezava, o crucifixo “falou-lhe com uma voz terna e gentil: ‘Francisco, não vês que minha casa está sendo destruída? Vai, então, e reconstrói-a para mim’”.

No início, São Francisco interpretou essa revelação como uma instrução para ele reconstruir fisicamente a pequena igreja em ruínas, o que ele fez ansiosamente durante algum tempo: tijolo por tijolo. Mas, com o passar do tempo, ele começou a se dar conta das implicações mais amplas da exortação de Cristo para ele da cruz. Pareceria que, em última análise, Deus estava menos preocupado com as estruturas físicas deste ou daquele lugar de culto em particular e mais interessado na renovação espiritual e moral, em uma reconstrução da Igreja que é o Corpo de Cristo.

Todo o estilo de vida de São Francisco se concentrou em renovar a experiência diária e encarnada da vida cristã, priorizando os fundamentos dos valores do Evangelho a serviço dos pobres, dos esquecidos, dos sem voz e dos abandonados em seu próprio tempo e contexto.

Eu pensei nessa importante narrativa franciscana recentemente, considerando a recente cúpula sobre os abusos no Vaticano, convocada pelo Papa Francisco e encerrada no dia 24 de fevereiro, e as amplas respostas que surgiram diante daquilo que foi dito e feito e daquilo que a cúpula não conseguiu fazer.

Algumas pessoas, particularmente os sobreviventes de abusos do clero, expressaram frustração e desapontamento com a falta de ações claras e concretas identificadas no fim da cúpula. Outros, como o próprio Michael Sean Winters do NCR, sugeriram que, apesar da ausência do tipo de ação imediata que alguns comentaristas pediram, a histórica cúpula fez, sim, alguns progressos notáveis no esforço de enfrentar a história do abuso sexual do clero e do seu encobrimento pelos bispos.

Por exemplo, a cúpula elevou o perfil dessa crise a um nível global na Igreja, segundo o qual os bispos de todo o mundo não podem mais alegar ignorância ou exceção. O fato de nomear diretamente os problemas relacionados na cultura eclesiástica, como o clericalismo e a prioridade da bella figura, e a determinação demonstrada pelas lideranças da Igreja que se pronunciaram na cúpula – por exemplo, os cardeais Blase Cupich, de Chicago, e Reinhard Marx, de Munique e Freising, assim como a Ir. Veronica Openibo, da Sociedade do Menino Jesus, que claramente foi o destaque do encontro –, sugerem que esse encontro de presidentes das Conferências Episcopais não será a última palavra sobre o assunto.

Isso me leva de volta à cruz de São Damião. Eu estava pensando nessa história franciscana em parte por causa da clara exortação de Cristo a “reparar” ou “reconstruir” a Igreja, que é precisamente o que eu acredito que Deus nos pede hoje. Mas também me ocorreu que, por mais icônica que essa cena na vida de São Francisco tenha se tornado, talvez muitos franciscanos e outros a tenham interpretado incorretamente.

Normalmente, a história é entendida como um exemplo de que o santo de Assis entendeu tudo errado, pelo menos em princípio. A conclusão geral é de que São Francisco foi literal, concreto e míope demais no início, em suas tentativas de dar sentido à instrução de Deus para ele. Ele se concentrou na decadência física da estrutura diante dele, em vez da questão maior da reforma espiritual e eclesial. Ele só chegou ao verdadeiro significado mais tarde.

Mas e se a sequência entre compreensão e ação por parte de São Francisco for precisamente a questão? E se nós formos aqueles que erraram a interpretação e se aquilo que São Francisco fez foi exatamente o que Deus queria? E se você não puder começar a enfrentar as questões sociais, espirituais e teológicas mais amplas enquanto não consertar as coisas quebradas que estão bem na sua frente?

Por um lado, isso parece senso comum. E, no entanto, como a leitura popular da resposta de São Francisco a Cristo na cruz, tende a haver uma abordagem eclesiástica diferente aos desafios sistêmicos na Igreja. Por exemplo, eu penso no retiro de janeiro dos bispos dos Estados Unidos realizado em Chicago, um momento de oração e reflexão solicitado pelo próprio Papa Francisco. Obviamente, oração e reflexão, penitência e conversão devem estar no cerne da vida espiritual e do ministério pastoral de qualquer bispo. No entanto, fiquei impressionado com o resumo de um relato da agenda do retiro [disponível aqui, em inglês], particularmente sua última frase.

“A estrutura do retiro enfatizava a reflexão silenciosa, incluindo os horários de silêncio durante as refeições, a missa diária, um tempo para a oração pessoal e comunitária antes da Eucaristia, as Vésperas e uma oportunidade de confissão. Nenhuma reunião de trabalho foi realizada.”

À luz da releitura da resposta imediata de São Francisco ao mandato de Cristo de reconstruir a Igreja, eu aprecio ainda mais a sensação de desapontamento e até de raiva compartilhada por alguns dos fiéis que, compreensivelmente, podem estão se perguntando se a resposta à crise dos abusos do clero e ao encobrimento não tem sido inadequada.

O Papa Francisco abriu a cúpula vaticana no mês passado afirmando que a assembleia de bispos globalmente representativa foi reunida para “escutar o grito dos pequenos que pedem justiça” e considerar “medidas concretas e eficazes” em resposta. Mas, quatro dias depois, as observações conclusivas do papa no fim da cúpula receberam respostas compreensivelmente mistas, já que, às vezes, ele pareceu ampliar sua reflexão para além do histórico específico de abuso na Igreja e da necessidade urgente de enfrentá-lo, focando também a realidade de abuso em outros contextos, como nas famílias ou em outras partes da sociedade. Embora seja verdade que a maioria dos abusos infantis acontece em contextos familiares, esse fato é irrelevante para o modo de lidar da própria Igreja em relação aos abusos cometidos pelo clero e seu encobrimento por parte de bispos.

Embora, após o encerramento do encontro, o padre jesuíta Federico Lombardi, moderador da cúpula vaticana, tenha anunciado a intenção do Papa Francisco de emitir novas leis e diretrizes, incluindo a publicação de um manual para os bispos, não foram publicados detalhes ou instruções imediatas para os bispos ao retornarem às suas respectivas Igrejas.

Parece-me que o xará do Papa Francisco em Assis oferece às lideranças da Igreja uma hermenêutica útil para interpretar a exortação de Cristo a nós hoje: consertem a Igreja, pois, como vocês podem ver, ela está desmoronando! A prioridade deve ser dada àquilo que está certo diante de nós, às mulheres e homens destroçados pelo abuso e silenciados por lideranças nas quais se confiou e que compõem a Igreja, que é o Corpo de Cristo. Essas pessoas devem ser ouvidas, as suas histórias devem ser reconhecidas e honradas, e ações concretas devem ser tomadas. A reconstrução da Igreja só pode ocorrer quando cada parte constitutiva seja reparada e a estrutura seja refeita inteiramente. E o modo pelo qual se faz essa reconstrução é importante: como penitentes, com humildade e em espírito de oração, exatamente como São Francisco fez há oito séculos.

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