''Francisco não é contra os gays''. Entrevista com Michael Sean Winters

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13 Junho 2013

"A mensagem mais importante contida nas palavras do papa sobre o lobby gay refere-se à sua determinação a reformar a Cúria e a Igreja. Ele não queria criticar os homossexuais, mas sim todos aqueles que se organizam em grupos ou correntes para influenciar a vida e as escolhas do Vaticano".

A reportagem é de Paolo Mastrolilli, publicada no sítio Vatican Insider, 12-06- 2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Michael Sean Winters, jornalista e escritor do National Catholic Reporter, acompanha esses eventos com os olhos dos Estados Unidos, talvez o país mais afetado pelos escândalos de fundo sexual que, nos últimos anos, abalaram a Igreja.

Eis a entrevista.

Que impressão você teve das palavras de Francisco no encontro com a Confederação Latino-Americana e Caribenha de Religiosos?

A primeira coisa que me chamou a atenção foi o lugar e o modo em que ele falou. Uma verdadeira conversa, em círculo, em que ele se colocou no mesmo plano dos interlocutores para escutá-los. É uma confirmação de como ele é acessível e está determinado a ouvir o parecer de todos para levar adiante a reforma.

Ele queria responder ao escândalo dos abusos sexuais nos Estados Unidos?

Não acredito, ao menos não diretamente. Eu não acho que ele faça uma associação entre homossexualidade e abusos. As pessoas que cometem abusos, na Igreja e fora dela, são adultos de várias tendências sexuais, que não deveriam ter acesso às crianças. O problema não é exclusivamente dos gays.

O papa, no entanto, teria falado especificamente de lobby gay.

Certamente, porque é um problema que existe dentro do Vaticano. Sabemos que ele existe, porque estava presente no famoso relatório dos três cardeais. No entanto, não existe uma distinção ideológica dentro da Igreja entre heterossexuais e gays. Ao contrário, no mínimo o oposto é verdadeiro: os prelados homossexuais muitas vezes são os mais conservadores e tradicionalistas, decididamente contrários a qualquer abertura com relação a temas como o casamento gay ou a igualdade de direitos. O problema é que, às vezes, eles se unem em grupos para defender seus próprios interesses, e isso é inaceitável para o Papa. Francisco quer reformar a Cúria, para libertá-la de todos os lobbies e as correntes que a impedem de funcionar como deveria. Portanto, ele critica o grupo dos gays assim como criticaria qualquer outra formação interna que vise a condicionar o trabalho do Vaticano.

Como serão recebidas essas suas declarações nos Estados Unidos?

Muito bem, eu acho, porque nos Estados Unidos existe a clara percepção de que a Igreja precisa fazer limpeza. Esse sentimento nasceu com os abusos sexuais, mas não apenas, e agora se ampliou para o funcionamento e para a missão geral do Vaticano. É um problema que diz respeito à reforma da Cúria, mas também aos processos internos para a gestão da Igreja.

A que você se refere?

Eis um exemplo prático. Nós temos um bispo em Kansas City, Robert Finn, condenado por ter encoberto padres pedófilos. Ele mesmo admite que, nas suas condições atuais, não poderia se apresentar nem para ensinar o catecismo aos domingos, porque lhe seriam pedidas informações básicas sobre os antecedentes penais que o excluiriam desse trabalho. No entanto, ele ainda é bispo e permanece no seu posto. A razão? Porque não existe um processo claro e padrões com os quais se possa enfrentar e resolver essas situações de conflito. Portanto, o que vale são as conexões, as relações, os apoios que uma pessoa pode obter. Finn é apoiado na Cúria pelos cardeais Rigali e Burke, e por isso ainda está no cargo. No entanto, se a Igreja não consegue remover nem mesmo os bispos que demonstraram que não podem mais desempenhar a sua função, toda a credibilidade e a eficácia da instituição sofre com isso. Eu acredito que o papa está determinado a enfrentar esses problemas e a reformar a Cúria. Por isso ele falou assim do lobby gay ou de qualquer outra corrente, e por isso ele é estimado pelos fiéis.

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