''Abram portas'': Francisco e os religiosos e religiosas da América Latina e Caribe

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12 Junho 2013

Foi um encontro histórico, sem precedentes. Por aquilo que se disse e pela forma como se disse. Durante uma hora, Francisco dialogou com franqueza com a diretoria da Conferencia Latino-Americana e Caribenha de Religiosas e Religiosos (CLAR).

A reportagem é do sítio Reflexión y Liberación, 10-06-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Conversaram sentados em círculo, entre iguais, como nas primeiras comunidades fundadas por Jesus... E o Papa foi sincero: falou da corrupção na Cúria Romana, onde "há pessoas santas, mas também há uma corrente de corrupção, também existe, é verdade... Fala-se do 'lobby gay', e é verdade, está aí".

Por sua vez, clamou pela liberdade da vida religiosa – "Expliquem o que tenham que explicar, mas sigam em frente" –, mostrou preocupação com "certos grupos restauracionistas" e reivindicou o espírito da 5ª Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, realizada em Aparecida,São Paulo: "Aparecida não terminou. Aparecida não é só um documento. Foi um acontecimento".

Oferecemos aqui este breve resumo desse histórico encontro celebrado na Santa Sé.

Eis o texto, com intertítulos da IHU On-Line.

Abram portas... Abram portas!

Vocês vão se equivocar, vão fazer bobagem, isso acontece! Talvez até vão receber uma carta da Congregação para a Doutrina [da Fé] dizendo que vocês disseram tal e tal coisa... Mas não se preocupem. Expliquem o que tenham que explicar, mas sigam em frente... Abram portas, façam algo aí onde a vida clama. Prefiro uma Igreja que se equivoca por fazer algo do que uma que adoece por ficar fechada...

Sobre a sua eleição

Eu não perdi a paz em nenhum momento, sabem? E isso não é meu, eu sou mais de me preocupar, de ficar nervoso... Mas não perdi a paz em nenhum momento. Isso me confirma que isso é de Deus...

Sobre a esperança que seus gestos trouxeram, como o fato de ter ficado em Santa Marta

Esses gestos... não vieram de mim. Não fui eu que os inventei. Eu não trouxe um plano, nem fiz um plano quando me elegeram. Eu faço isso porque senti que era o que o Senhor queria. Mas esses gestos não são meus, há Outro aqui... isso me dá confiança...

Eu trazia a roupa estritamente necessária, a lavava de noite, e de repente isso... Eu não tinha nenhuma chance! Nas apostas de Londres, eu estava em 44º lugar, vejam vocês! Quem apostou em mim ganhou muito, claro...! Isso não vem de mim...

Sobre a profecia da vida religiosa

É preciso inverter a moeda. Não é notícia que, em Ottaviano [rua e estação de metrô no Vaticano], um idoso morra de frio durante a noite, ou que haja tantas crianças sem educação, ou com fome – eu penso na Argentina... Ao invés, as principais bolsas do mundo sobem ou descem três pontos e isso é um acontecimento mundial. É preciso inverter! Não pode ser. Os computadores não são feitos à imagem e semelhança de Deus, são um instrumento, sim, mas não mais do que isso. O dinheiro não é imagem e semelhança de Deus. Só a pessoa é imagem e semelhança de Deus. É preciso inverter. Esse é o evangelho.

É preciso ir às causas, às raízes. O aborto é ruim, mas isso está claro. Mas o que há por trás do fato de aprovar essa lei, que interesses estão por trás...? Às vezes, são as condições postas pelos grandes grupos para apoiar com dinheiro, sabem? É preciso ir às causas, não podemos ficar apenas nos sintomas. Não tenham medo de denunciar... Vocês vão se dar mal, vão ter problemas, mas não tenham medo de denunciar. Essa é a profecia da vida religiosa...

Sobre as correntes da Igreja

Compartilho com vocês duas preocupações. Uma delas é uma corrente pelagiana que existe na Igreja neste momento. Há certos grupos restauracionistas. Eu conheço alguns, eu tive que recebê-los em Buenos Aires. E sentimos que é como voltar 60 anos atrás! Antes do Concílio... Sentimo-nos em 1940... Uma anedota, só para ilustrar, não para rir – eu a tomei com respeito, mas me preocupa: quando me elegeram, eu recebi uma carta de um desses grupos, e me diziam: "Santidade, oferecemos-lhe este tesouro espiritual: 3.525 rosários". Por que não dizem 'rezamos pelo senhor, pedimos'... mas isso de fazer contas... E esses grupos voltam a práticas e disciplinas que eu vivi – vocês, não, porque nenhum de vocês é velho –, a disciplinas, a coisas que se viviam nesse momento, mas não agora.

A segunda é uma corrente gnóstica. Esses panteísmos... As duas são correntes de elite, mas esta é de uma elite mais formada... Eu soube de uma superiora geral que incentivava as irmãs da sua congregação a não rezar pela manhã, mas sim a tomarem um banho espiritual no cosmos, coisas assim... Isso me preocupa porque pulam a encarnação! E o Filho de Deus se fez nossa carne, o Verbo se fez carne, e na América Latina temos carne aos montes! O que acontece com os pobres, as dores, essa é nossa carne...

O evangelho não é a regra antiga, nem esse panteísmo. Se você olhar para as periferias, os indigentes, os drogados, o tráfico de pessoas... Esse é o evangelho. Os pobres são o evangelho...

Sobre a Cúria Romana e a comissão de cardeais

E, sim... é difícil. Na Cúria, há pessoas santas, de verdade, há pessoas santas. Mas também há uma corrente de corrupção, também existe, é verdade... Fala-se do "lobby gay", e é verdade, está aí... É preciso ver o que podemos fazer...

A reforma da Cúria Romana é algo que quase todos nós, cardeais, pedimos nas congregações prévias ao conclave. Eu também pedi. Eu não posso fazer a reforma, esses temas de gestão... Eu sou muito desorganizado, nunca fui bom nisso. Mas os cardeais da comissão vão levá-la adiante. Aí está Rodríguez Maradiaga, que é latino-americano, que leva a batuta, está Errázuriz, eles são muito ordenados. O [cardeal] de Munique também é muito ordenado. Eles vão levá-la adiante.

Rezem por mim para que eu me equivoque o menos possível...

Sobre Aparecida

Aparecida não terminou. Aparecida não é só um documento. Foi um acontecimento. Aparecida foi algo diferente. Para começar, porque não teve documento de trabalho. Teve contribuições, mas não um documento. E, ao terminar, também não tinha um documento – no dia anterior tínhamos 2,300 "modos"... Aparecida enviou à missão continental. Aí termina Aparecida, no impulso da missão.

O que Aparecida teve de especial é que não foi celebrada nem em um hotel, nem em uma casa de retiros... Foi celebrada em um santuário mariano. Durante a semana, celebrávamos a Eucaristia e havia umas 250 pessoas, porque era um dia normal de trabalho. Mas o fim de semana ele estava cheio...! O povo de Deus acompanhava os bispos, pedindo o Espírito Santo...

Eu via – cito-o porque eu o vejo mais expansivo, ele é bom, mas é assim – o prefeito, João [Braz de Aviz, prefeito da Congregação para os Religiosos], que saía com a sua mitra, e as pessoas se aproximavam, e as crianças se aproximavam dele, e ele cumprimentava e as abraçava... Esse mesmo bispo depois votava. Ele não pode ter votado como se tivesse estado em um hotel!

Tínhamos as salas de reuniões debaixo do Santuário. Assim, a música de fundo eram os cantos, as celebrações no Santuário... Isso deu algo muito especial.

Sobre as congregações religiosas

Há algo que me preocupa, embora eu não saiba como lê-lo. Há congregações religiosas, grupos muito, muito pequenos, algumas poucas pessoas, pessoas muito velhas... Não têm vocações, sei lá... O Espírito Santo não quer que continuem, talvez já cumpriram a sua missão na Igreja, não sei... Mas aí estão, aferradas aos seus edifícios, aferradas ao dinheiro... Eu não sei por que isso acontece, eu não sei como lê-lo. Mas peço-lhes que se preocupem com esses grupos... A gestão do dinheiro é algo que precisa ser refletido.

Sobre a Congregação para a Vida Consagrada

Aproveitem este momento que vivemos na Congregação para a Vida Consagrada... É um momento de sol... Aproveitem. O prefeito é bom. E o secretário [José Rodríguez Carballo], que foi "lobiado" por vocês! Não, na realidade, sendo o presidente da USG [União dos Superiores Gerais], o lógico era que fosse ele! Quem melhor...

Ponham todo o seu empenho no diálogo com os bispos. Com o Celam [Conselho Episcopal Latino-Americano], com as Conferências nacionais... Eu sei que há alguns que têm outra ideia da comunhão, mas... Falem, conversem com eles, digam-lhes...

Nota da IHU On-Line:

Segundo informa Andrea Tornielli, vaticanista do jornal La Stampa, 11-06-2013, "o diretor da Sala de Imprensa do Vaticano, o padre Federico Lombardi, disse que não tem "nenhuma declaração a fazer sobre o conteudo da conversa" com a direção da CLAR, já que se tratou de um "encontro de caráter privado" e, por isso, não há nenhuma gravação nem transcrições oficiais.

Segundo o portal do jornal La Repubblica, 11-06-2013, "a presidência do Conselho Latino-Americano dos Religiosos -CLAR - numa nota, "lamenta profundamente a publicação de um texto com referência à conversação mantida com o Santo Padre Francisco". Os dirigentes da CLAR não desmentem a publicação do sitio chileno Reflexion y Liberación, mas recordam que "a conversação se desenvolveu a partir de perguntas feitas ao Papa pelos presentes". "Nesta circunstância - precisa a nota - não foi feita nenhuma gravação da conversa, mas pouco depois foi elaborada uma síntese da mesma tendo como base a memória dos participantes". Segundo os dirigentes da CLAR, "esta síntese, que não inclui as perguntas feitas ao Santo Padre, era destinada à memória pessoal dos participantes e nunca para ser publicada. Nunca foi pedida nenhuma autorização para esta síntese ser publicada". "É claro que em base a isto - se lê na nota - não se podem atribuir ao Santo Padre, com certeza, as expressões singulares contidas no texto, mas somente o seu sentido geral". A presidência da CLAR, portanto, lamente profundamente o acontecido e a confusão que provocou". A nota é assinada pela irma Mercedes Leticia Casas Sanchez, presidente da CLAR, e pelo padre Gabriel Naranjo, secretário geral do mesmo organismo."

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