Financista italiano no centro de escândalo vaticano apela a tribunal do Reino Unido

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01 Julho 2020

De acordo com uma recente reportagem do Corriere della Sera, o principal jornal da Itália, um financista italiano agora residente em Londres chamado Raffaele Mincione entrou com dois processos civis contra a Secretaria de Estado do Vaticano perante a Suprema Corte de Justiça do Reino Unido, ambos relacionados a um agora infame acordo imobiliário no bairro de Chelsea, em Londres, que ele intermediou em 2013.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada por Crux, 30-06-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Esse acordo de 225 milhões de dólares, que a Secretaria de Estado originalmente financiou em parte com os recursos da coleta anual do Óbolo de São Pedro, era para comprar metade de um ex-armazém da Harrods, originalmente previsto para a conversão em apartamentos de luxo.

Após cinco anos, depois que a Secretaria de Estado azedou sua relação com Mincione, ela trouxe outro financista italiano chamado Gianluigi Torzi para ajudá-la a comprar o restante da propriedade, gastando cerca de 170 milhões de dólares.

Nos últimos meses, acusações de fraude, corrupção e extorsão cercaram o caso de Londres. Até este momento, pelo menos sete autoridades vaticanas renunciaram ou foram demitidas, e, até agora, tanto Mincione quanto Torzi, junto com duas ex-autoridades da Secretaria de Estado, o leigo italiano Fabrizio Tirabassi e o Mons. Alberto Perlasca, estão enfrentando possíveis acusações criminais de um tribunal vaticano.

Desde o início, Mincione insistiu que não fizera nada de errado e que a propriedade representa um bom investimento. Para confirmar o que disse, os advogados de Mincione teriam entrado em contato com o Vaticano no mês passado para negociar a compra do imóvel de volta por um valor aproximado ao que foi gasto com ele, mas, segundo esses relatos, os promotores de Justiça do Vaticano impediram a proposta.

As duas ações civis equivalem a ações de difamação, buscando que a Suprema Corte declare que a conduta de Mincione foi normal, e, portanto, que o Vaticano prejudicou injustamente a sua reputação, apresentando-o publicamente como suspeito.

Resta saber se a Suprema Corte concordará em ouvir os casos e, em caso afirmativo, como isso poderá terminar. Enquanto isso, vale a pena destacar três aspectos da situação.

Primeiro, se a Suprema Corte aceitar as alegações de Mincione, o cenário poderá ter o mesmo conjunto de fatos julgados por dois tribunais diferentes, um no Vaticano e outro no Reino Unido. Esse cenário convidaria a uma interessante dinâmica de comparação e contraste no fim.

Podemos nos perguntar se a perspectiva de revisão por um tribunal independente e secular no Reino Unido pode alterar o modo como os promotores e juízes vaticanos pensam sobre o próprio tratamento dado às acusações. Podemos imaginar que eles gostariam de ter uma certeza especial dos fatos e da lei, já que seria embaraçoso ter outra decisão judicial que, com efeito, estabeleça Mincione como um bode expiatório.

Se Mincione realmente se considera inocente, essa pode ser uma estratégia inteligente, talvez uma das poucas formas pelas quais um leigo externo ao Vaticano pode obter um pouco de influência em suas deliberações internas.

Segundo, Mincione e Torzi são os últimos de uma longa lista de banqueiros, empresários e financistas italianos cujos nomes parecem vir à tona no papel do vilão sempre que há uma confusão financeira no Vaticano. Quando os escândalos do banco do vaticano eclodiram nos anos 1970 e 1980, foram Michele Sindona e Roberto Calvi. Mais recentemente, quando eclodiu um escândalo envolvendo um desvio de fundos do hospital pediátrico Bambino Gesù, patrocinado pelo papa, para pagar a reforma do apartamento do cardeal italiano Tarcisio Bertone, ex-secretário de Estado do Papa Bento XVI, foi Giuseppe Profiti, presidente da fundação que supervisionava o hospital e um veterano administrador de saúde.

Em cada caso, a sugestão é de que foram esses leigos que foram os mentores dos casos – que, convenientemente ou não, têm o efeito de afastar a culpabilidade dos altos clérigos vaticanos que assinaram tais contratos.

(A propósito, o destino pelo menos aparentemente foi mais gentil com estes personagens. Calvi foi encontrado enforcado debaixo da ponte Blackfriars de Londres em 1982, e Sindona morreu na prisão sob circunstâncias obscuras em 1986, enquanto hoje Profiti está alegremente lecionando Direito Administrativo na Universidade de Gênova.)

Vendo o que pode vir pela frente, Mincione pode ter decidido que não vai esperar o desenrolar do roteiro dessa vez.

A imagem do vigarista italiano inescrupuloso está tão gravada na consciência popular – pense-se em “O Poderoso Chefão” – que é sempre sedutora, mas a reação de Mincione poderia significar que desta vez ela está sujeita a um maior exame crítico. Por si só, essa pode ser uma contribuição salutar para a reforma vaticana, sugerindo àqueles que têm olhos para ver que, um dia, talvez não haja mais forasteiros a serem apontados quando as coisas derem errado.

Finalmente, se as ações de Mincione prosseguirem, é provável que pelo menos esses casos ainda estejam no cronograma da Suprema Corte no dia 4 de outubro, independentemente do calendário legal do Vaticano. Essa é a data em que a coleta do Óbolo de São Pedro está agendada, depois de ter sido adiada da sua data habitual de 29 de junho, festa de São Pedro e São Paulo, devido ao coronavírus.

Como ainda haveria um processo legal ativo, é mais provável que as memórias do escândalo londrina não terão se apagado quando os católicos de todo o mundo forem convidados a doar mais uma vez, e será interessante ver o que lhes será dito quando o momento chegar.

Quando o escândalo sobre o acordo eclodiu, muitos católicos manifestaram indignação pelo fato de que o dinheiro que eles pensavam que seria para as instituições de caridade do papa estava sendo usado para comprar imóveis de alto padrão. Em resposta, as autoridades vaticanas insistiram que os estatutos da coleta do Óbolo de São Pedro especificam que os recursos são usados para apoiar as atividades papais, não apenas as ações de caridade, e, de qualquer forma, a renda desses investimentos também significa mais dinheiro para a caridade.

No entanto, muitas vezes não é isso que os católicos ouvem nas igrejas quando as cestas de coleta circulam, levando a impressões de falsas declarações.

Eu posso testemunhar que, quando minha esposa e eu fomos à missa aqui em Roma no domingo passado, o pároco, ao explicar como a coleta seria realizada este ano, disse mais uma vez que era para apoiar “a caridade do papa”.

Se o Vaticano quiser evitar mais dores de cabeça no fim do ano, conviria dar algumas orientações aos párocos sobre como eles devem apresentar a coleta e como eles podem responder às perguntas críticas que algumas pessoas podem fazer.

Nesse front, é possível que eles recebam uma assistência não solicitada de um tribunal inglês.

 

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