“É coisa de pagão pensar que Deus manda flagelos.” Entrevista com Mario Delpini, cardeal arcebispo de Milão

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17 Março 2020

A sua imagem no terraço da catedral, sozinho, debaixo dos pináculos góticos, com uma folha de papel na mão e os olhos apontados para a “Madunina” para rezar por Milão e a Itália atormentadas pelo coronavírus, deu a volta ao mundo. E comoveu também o papa, que lembrou dele durante o Ângelus desse domingo, elogiando-o como um “arcebispo próximo do povo e próximo de Deus”.

A entrevista é de Salvatore Cernuzio, publicada por La Stampa, 16-03-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Mario Delpini, pastor de Milão, um dos centros mais afetados pela Covid-19, no entanto, se defende: “Tento ir ao encontro das pessoas como eu posso. É uma proximidade mortificada, certamente não aquela a que estou acostumado”.

Ao telefone com o Vatican Insider, o arcebispo comenta a situação surreal que a Itália vive nestes tempos de fechamentos e de medos do presente e do futuro. Antes de responder a cada pergunta, ele faz uma pausa, quase sopesando cada palavra. Só em um momento ele responde rapidamente: é coisa de “pagão”, diz ele, pensar em um Deus enraivecido que manda castigos, a ser acalmado com a oração.

Eis a entrevista.

Excelência, no dia 11 de março, o senhor subiu à cúpula da catedral para rezar a Nossa Senhora. Nesse domingo, o papa saiu pelas ruas de Roma para ir ao encontro de um crucifixo que libertou a cidade da peste. Por que esses gestos fortes? É preciso suplicar a Deus, porque, como dizem alguns pregadores, foi Ele quem mandou o flagelo do vírus?

Essas são teorias sobre Deus que eu não sei de onde vêm e que eu não compartilho. A oração não serve para pedir a Deus que retire um castigo que Ele mesmo mandou, não temos um Deus enraivecido que deve ser acalmado. Essa me parece ser uma imagem muito pagã. Nós rezamos ao Deus de Jesus Cristo, que enviou seu Filho para salvar, não para punir. Rezamos a Ele para lhe pedir o dom do Espírito, para que nos dê força, inteligência, solidariedade para atravessar esse momento e tentar vencer o mal com o bem.

O que o levou a subir no terraço da catedral?

Normalmente, prefiro rezar quando não há câmeras, mas eu quis fazer um gesto de ressonância pública para que possa ser um encorajamento para rezar neste tempo, para que ninguém se sinta sozinho. Fui ao terraço, aonde os turistas costumam ir, porque, lá de cima, a cidade assume outro aspecto. Lá de cima, veem-se muitas épocas se cruzando, arranha-céus moderníssimos e edifícios antigos. E pensamos na história de Milão e em tudo o que esta cidade viveu: a peste, a guerra, as graves crises econômicas. A Madonnina sempre permaneceu lá, no topo do pináculo mais alto, protegendo a cidade e os seus habitantes. Pensei que, assim como foram superadas épocas dramáticas, situações de dificuldade muito grande, Ela também nos ajudará a superar este tempo.

Nesse domingo, o papa lembrou-se do senhor durante o Ângelus...

Agradeço ao papa pela sua citação. É uma palavra que deu consolação a mim e a toda a Igreja da Lombardia, que é a região mais provada por esta pandemia.

Francisco elogiou a sua proximidade com o povo. Como o senhor faz, neste tempo de quarentena, fechado no arcebispado, para expressar essa proximidade?

Tento ir ao encontro das pessoas como eu posso, porque, nestes tempos, tudo está suspenso: as atividades, os encontros, as convocações. Desagrada-me muitíssimo, por exemplo, não poder ir visitar os padres doentes. Estou experimentando uma proximidade que não é aquela a que estou acostumado. Realizo-a com a oração e a solicitude, com os telefonemas, os e-mails, as mensagens enviadas pelos canais de televisão. Certamente, é uma proximidade um pouco mortificada.

As igrejas de Milão continuam abertas. O senhor já pensou em fechá-las, como ocorreu dias atrás, por 17 horas, em Roma?

Não vejo a necessidade de fechar as igrejas. Suspendemos as celebrações e tudo o que podia facilitar o contato entre as pessoas, mas sempre dissemos que as igrejas estão abertas para que qualquer pessoa possa entrar e ter a possibilidade de rezar, respeitando naturalmente as medidas de segurança, sem difundir ou receber contágio. Não sei bem o que levou o Vicariato de Roma a optar – mesmo que por pouco tempo – por essa decisão, mas, quanto à Lombardia, sempre dissemos que as missas, sim, estão suspensas, mas as igrejas permanecerão sempre abertas. E os nossos sacerdotes estão lá, para confortar qualquer pessoa que precisar.

Qual é a situação em Milão? Há uma semana, vimos o êxodo de muitos universitários. As notícias que chegam são de hospitais ocupados por centenas de contagiados. As pessoas perdem seus empregos, e a Bolsa está em queda livre.

A situação certamente é difícil. Os milaneses sofrem, e eu sofro com eles. Não sou capaz de descrever em detalhes as estatísticas de doentes, curados, hospitalizados, desempregados e assim por diante. Posso dizer que me impacta ver uma cidade que até ontem era o centro do mundo se tornar um deserto. Ver como toda a vida está suspensa, como não é possível sequer fazer uma reunião para trocar ideias e pensar sobre o que acontecerá depois.

O que mais o impressiona neste período?

A apreensão de quem tem familiares doentes, a grande dedicação das nossas equipes de saúde que cuidam deles. Certamente, são coisas que eu só posso imaginar, não sou uma testemunha direta delas. Nesse domingo, também celebrei a missa no Policlínico, mas não pude visitar as enfermarias que estão corretamente fechadas. Sei que há muito sofrimento, preocupação, medo, o desejo de que tudo termine logo.

E o senhor tem medo?

Bem, o medo é uma reação emotiva. Eu não sou tão emotivo, então não sinto medo. Certamente, estou preocupado, também com o depois. Nenhum de nós sabe o que vai acontecer, pois é uma situação nova. Tento não pensar demais nisso, até porque, ao não ter dados em mãos, corremos o risco de fazer um exercício de fantasia, enquanto, ao contrário, é preciso agir sobre a realidade.

A esse respeito, o senhor acha que o governo está lidando bem com a emergência?

Vejo que se fez tudo o que se pôde. Não tenho uma visão nem abrangente nem competente do que foi feito, do que poderia ter sido feito ou do que ainda poderia ser feito. Mas confio nas autoridades e naqueles que administram a saúde pública.

Há uma mensagem que o senhor, como pastor da maior arquidiocese da Europa, gostaria de enviar aos católicos de Milão, da Itália, dos outros países que estão começando a lidar com essa emergência?

Posso dizer que o que mais me ajuda pessoalmente é meditar os versículos da Carta de São Paulo aos Romanos: “Tudo concorre para o bem daqueles que amam a Deus”. É uma frase que me impressiona. Eu me pergunto como essa situação determinada pelo vírus pode concorrer para o bem. Acredito que cada um de nós deve se perguntar isso e entender como ajudar os outros a viver isso.

 

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