O Sínodo Amazônico: desafios e apelos à igreja universal. Artigo de Mauricio López

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21 Fevereiro 2020

“Diante de grandes esperanças, o resultado mais preocupante e doloroso desse sínodo, como podemos perceber em alguns meios de comunicação, e por parte de católicos fora do território amazônico, é a presença predominante de um medo a respeito do que, na realidade, deveria ser fonte de vida para o crescimento do mistério de Deus no mundo, ou seja, o medo e a rejeição ao diferente, à riqueza que provém da diversidade cultural”, escreve Mauricio López, secretário-executivo da REPAM, em artigo publicado por America Magazine. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

No sínodo amazônico e na exortação apostólica pós-sinodal “Querida Amazônia”, testemunhamos uma série de novidades sem precedentes que tiveram um impacto inesperado em nossa tradição católica nos níveis local, regional e universal. Também vimos o efeito do sínodo na opinião pública em todo o mundo. Temos firmes esperanças de que esses elementos darão lugar a uma mudança contínua para toda a igreja e ao mundo em nossa busca por construir o Reino de justiça e de paz.

O Sínodo da Amazônia, na minha opinião, produziu três mudanças muito significativas em nossa forma de proceder.

Em primeiro lugar, vimos como as periferias, consideradas durante tanto tempo irrelevantes ou secundárias, passaram ao centro das atenções da igreja. Este é um convite a estarmos abertos ao Espírito Santo que vem dos lugares mais inesperados, para além de nossas próprias limitações, estruturas existentes e lugares seguros. E como aconteceu no itinerário do próprio Jesus (algo que frequentemente é muito evidente nos Evangelhos), as margens provavelmente se tornam o lugar mais significativo onde ocorrem os mais profundos apelos de Deus à conversão.

Em segundo lugar, assistimos o surgimento de um novo paradigma eclesiológico, o de um enfoque territorial. Com esse novo enfoque em torno de regiões específicas, as estruturas tradicionais da igreja se ampliam, e são confrontadas, como resultado da necessidade de responder aos clamores concretos das pessoas, em um espaço definido para além do que já conhecemos.

A complexidade das culturas da região amazônica exige um enfoque interdimensional que produza um diálogo entre as perspectivas pastoral, teológica, social, ecológica, econômica e, inclusive, política. Isso é ao mesmo tempo um desafio e uma fonte de ansiedade, já que nos distancia de nossas formas de pensamento tradicional.

A região amazônica é tão complexa e vulnerável, e sua continuidade como espaço de vida é tão importante para todo o planeta, que deve ser considerada como uma unidade orgânica, um bioma. Em “Querida Amazônia”, o Papa Francisco inclusive chama a Amazônia de “mistério sagrado” (n. 5) e de “lugar teológico” (n. 57).

Em terceiro lugar, muitos de nós reconhecemos uma necessidade urgente da igreja em se abrir à diversidade, cumprindo assim uma parte central de sua identidade para ser cada vez mais universal. A igreja precisa abraçar genuinamente outras culturas com suas próprias histórias, espiritualidades e trajetórias, reconhecendo a parte da revelação de Deus que existe nelas, e a presença das sementes do Verbo encarnado em seu interior.

O Sínodo Amazônico pede um enfoque verdadeiramente intercultural, em que a presença luminosa e irredutível do mistério de Deus em toda a criação não seja eliminada, subjugada, colonizada. Ao contrário, a igreja deve ajudar as culturas desta região a florescer, reconhecendo nela o mistério da revelação. A exortação do Papa afirma:

Não nos apressemos em qualificar como superstição ou paganismo algumas expressões religiosas que surgem espontaneamente da vida dos povos. Ao contrário, é necessário saber reconhecer o trigo que cresce entre o joio, porque “na piedade popular é possível perceber o modo como a fé recebida se encarnou em uma cultura e continua sendo transmitida”. (QA No. 78).

Tive o privilégio de participar da missão e da presença direta da Igreja na região amazônica e de ter sido um membro ativo na preparação do Sínodo, em seu discernimento e sua assembleia. Durante esse processo, entendi que o elemento mais importante do Sínodo, embora não fosse expresso abertamente, era a tensão criativa e potencialmente vivificante entre os ensinamentos da Igreja Católica (doutrina) - centro - e o sensus fidei (sentido da fé) dos fiéis e membros da Igreja no território (periferia).

Nenhum dos dois deve se submeter ao outro porque ambos expressam o depósito da fé (o corpo da verdade revelada nas Escrituras, na tradição e no povo de Deus) para os católicos, e é importante que encontremos uma maneira de identificar o potencial criativo e transformador que surge dessa tensão, se formos capazes de fazer um honesto discernimento à luz disso.

Nos trabalhos do sínodo amazônico, muitos de nós experimentamos a sensação de certa rejeição por parte daqueles que tradicionalmente estavam no centro da igreja em relação à experiência do Espírito do povo de Deus, do “sentido de fé” que vinha das periferias e dos inéditos diálogos e processos de escuta que definiram, em grande medida, os temas do Sínodo. Também experimentamos o desejo de alguns em subordinar esse sensus fidei à doutrina da igreja existente, como se ela tivesse um valor prioritário. Isto, além de errôneo, eliminaria qualquer possibilidade de que o sínodo atingisse um de seus principais objetivos: encontrar novos caminhos para a igreja e para uma ecologia integral. Não há possibilidade de discernimento sem um coração aberto para ouvir o novo no chamado de Deus.

Como também se demonstrou em nosso discernimento sinodal, tanto a doutrina existente como o sensus fidei podem se enriquecer mutuamente. Sua interação proporciona um dos fundamentos de nossa fé. Precisamos criar espaço para ambos, para não ficarmos presos em uma vivência fundamentalista de nossa fé.

Por um lado, sob o enfoque onde predomina a visão doutrinária, nós nos converteríamos em uma instituição legalista, sem espaço para a revelação, que estaria completamente fechada a qualquer mudança necessária, mesmo diante dos apelos urgentes de Deus nos sinais dos tempos e nos gritos concretos de Cristo crucificado em meio à realidade. Por outro lado, permanecendo unicamente no enfoque do “sentido da fé” do povo, poderíamos perder de vista o caminho que nossa igreja fez, e onde há evidentes sinais de Deus, e com isso ficarmos tentados a mudar tudo de acordo com a opinião predominante no momento.

Diante de grandes esperanças, o resultado mais preocupante e doloroso desse sínodo, como podemos perceber em alguns meios de comunicação, e por parte de católicos fora do território amazônico, é a presença predominante de um medo a respeito do que, na realidade, deveria ser fonte de vida para o crescimento do mistério de Deus no mundo, ou seja, o medo e a rejeição ao diferente, à riqueza que provém da diversidade cultural.

Tememos uma bela fonte de vida na diversidade cultural dos povos amazônicos, e neles a presença das sementes do sagrado mistério habita dentro de suas espiritualidades, sabedoria e tradições. Ao temer isso, o resultado é muitas vezes uma resposta que afirma uma visão monocromática de um centro que rejeita a periferia, que impede que se viva plenamente a verdadeira catolicidade da igreja, conforme se apresentou no Concílio Vaticano II (ver “Lumen Gentium”, n. 16-17).

E, ao contrário, parece que continuamos sem temer a inegável crise climática sem precedentes, que é resultado de nosso estilo de vida e modelo de sociedade, como se o planeta não tivesse limites e como se não houvesse um amanhã ou gerações futuras. Estamos vivendo uma “cultura do descarte”, usar e jogar, colocando em risco a continuidade da revelação de Deus em toda a criação. Esta crise socioambiental é uma real ameaça à realização do Reino que Jesus prometeu, já que estamos chegando a um ponto de não retorno. Com isso, também negamos nossa própria doutrina social na encíclica “Laudato Si’”.

Pedro Arrupe, S.J., servo de Deus, disse uma vez: “Não tenho medo do novo mundo que surge. Temo, ao contrário, que tenhamos pouco ou nada para oferecer a este mundo, pouco a dizer ou a fazer, que justifique nossa existência. Não pretendemos defender nossos erros, mas também não queremos cometer o maior deles: esperar com os braços cruzados e não fazer nada por medo de errarmos”.

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