O "caso" cardeal Pell é totalmente inédito e singular com repercussões de longo prazo. Entrevista com Massimo Faggioli

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02 Março 2019

O cardeal George Pell, arcebispo de Sydney e assessor próximo ao Papa, foi condenado por um tribunal australiano por abusos sexuais de menores. Apesar de ter entrado com recurso, ele está preso desde quarta-feira, 27 de fevereiro. Uma situação “inédita”, segundo Massimo Faggioli, professor de Teologia e de História Religiosa na Universidade Villanova, da Filadélfia (Estados Unidos).

A entrevista é de Sophie Lebrun, publicada por La Vie, 28-02-2019. A tradução é de André Langer.

Eis a entrevista.

O cardeal Pell, após ser julgado culpado por agressões sexuais contra menores por um júri australiano, permanecerá preso até 13 de março, quando o tribunal anunciará sua sentença. Este é um caso inédito?

Estamos, de fato, diante de uma situação simplesmente inédita. Devemos voltar à era comunista na Europa Oriental e, antes disso, ao século XIX, para encontrar bispos presos... e até papas. Entre 1809 e 1814, Napoleão mandou prender o Papa Pio VII e o manteve prisioneiro. Também temos os casos dos bispos de Colônia e de Trier, que foram colocados na prisão em 1837. Depois, durante e após a Segunda Guerra Mundial, o primaz da Hungria, cardeal Mindszenty, foi preso várias vezes. Mas eles foram encarcerados por razões políticas. Isso é muito diferente de um cardeal reconhecido culpado pela justiça de um país por um crime cometido contra crianças.

Existem precedentes de cardeais ou de bispos reconhecidos culpados por abusos de menores?

O mais recente é, naturalmente, o cardeal McCarrick, mas, também neste caso, há uma grande diferença: ele foi condenado por um tribunal eclesiástico, algo similar ao que aconteceu com outros bispos. Aqueles que foram previamente condenados por tribunais civis foram condenados por acobertar padres pedófilos, como o bispo Robert Finn, em 2012, nos Estados Unidos.

Você ficou surpreso ao saber que medidas conservadoras – proibição do ministério público e nenhum contato com crianças e adolescentes – tinham sido tomadas contra o cardeal Pell pelo Vaticano?

Não, não acho isso surpreendente; é normal ser prudente nesse tipo de situação. Eu também entendo a necessidade por parte do Vaticano de torná-los públicos somente após o veredito [as medidas foram tomadas em dezembro passado, quando o veredito foi pronunciado pelo tribunal australiano, mas tornadas públicas em 25 de fevereiro passado, quando a justiça australiana permitiu que a mídia divulgasse seu julgamento, N. da R.].

O que é mais surpreendente é que a maneira de comunicar do Vaticano está mudando. Com a nova equipe de comunicação, que assumiu no final de 2018, uma estratégia de mídia parece ter sido implementada. Abandonamos o esquema em que o Vaticano espera que a imprensa apresente pautas para então reagir; ele começa a ser proativo, para informar rapidamente sobre o que está acontecendo. Isso foi bom esta semana.

Em que o caso do cardeal Pell é singular?

Ele é singular do ponto de vista judicial, certamente, mas “o caso Pell” também faz parte de um contexto singular: o de uma Austrália em que o escândalo dos abusos sexuais de menores é muito grande. A história está sendo escrita, com a vontade de toda uma sociedade de lançar luz sobre os crimes cometidos em seu seio, e mantidos em silêncio por décadas. A Comissão Real de Inquérito, publicou um relatório que investiga instituições que acolhem crianças (particularmente a Igreja Católica), etc. Há um intenso debate nacional.

E neste país, George Pell não é um qualquer: nomeado arcebispo de Melbourne em 1996 e de Sydney em 2001, foi ele quem reestruturou a Igreja Católica Australiana de maneira muito particular. Antes mesmo de chegar ao Vaticano, em 2013, para fazer parte do conselho dos nove cardeais encarregados de assistir o Papa Francisco e antes de assumir o comando da Secretaria de Economia sob seu Pontificado, ele tinha a estatura de um homem da Igreja importante, poderoso. Tanto na Austrália como em Roma, ele personifica o símbolo de uma certa cultura católica conservadora.

Esta é a grande diferença entre o julgamento de um padre por abuso sexual de menores e o julgamento de um bispo ou de um cardeal: estes últimos também são símbolos da política da Igreja, bem como de uma política politiqueira. Isso é importante, não para procurar limpar o nome dos principais responsáveis católicos ou para protegê-los, mas porque faz parte do quadro geral da situação. No período de escândalos pelos quais a Igreja está passando e para entender o que está acontecendo, esse simbolismo é radicalmente novo.

Qual é o impacto dessa decisão judicial sobre o Vaticano?

Nós ainda não sabemos! Por causa de seu ineditismo, o que está acontecendo hoje terá que ser analisado no longo prazo. As decisões das próximas semanas podem lançar as bases para um procedimento único em relação a cardeais condenados por abuso sexual de menores. Mas deve tomá-las? Deve o Vaticano decidir demitir todos os bispos e cardeais condenados em julgamentos civis em primeira instância, sem esperar pelo resultado dos recursos?

Nos últimos anos, desde as instruções de Bento XVI em 2013, o Vaticano reconhece a jurisdição dos tribunais civis e, portanto, seus vereditos, e age de acordo. Mas a Igreja Católica está presente em quase todos os países do mundo, cada qual com seu próprio sistema legal. Na maioria dos países, a justiça é justa... mas não em todos. Já aconteceu que, em países com circunstâncias internas incertas ou em que os bispos assumiram posições fortes na sociedade, o poder político usou a justiça para amordaçar a Igreja.

Muitas perguntas, no entanto, surgem. O Papa – e só ele – tem o poder de pedir de volta a púrpura ao cardeal Pell. Pode um cardeal continuar a ser cardeal se estiver na prisão? Se ele é condenado – mesmo recorrendo – por abuso sexual de menores? Deveria o Papa aguardar não apenas o fim do processo civil, mas também a conclusão de um tribunal eclesiástico? Sem mencionar que a decisão de Francisco não apenas deve ser “justa” canonicamente, mas também ser entendida pelos católicos e pela opinião pública. Há limites para isso: mesmo que pense que o cardeal George Pell é inocente e vítima de um erro judicial, pode Francisco dizê-lo oficialmente? É muito complicado.

Você acha possível que o cardeal Pell possa ser a “vítima involuntária de um país ferido em busca de um bode expiatório”, como escreveu no jornal católico britânico The Tablet o jesuíta Frank Brennan, que participou de várias audiências do julgamento?

Isso cabe à justiça julgar. Não tenho nada a pensar sobre o valor da sentença: eu a respeito. Mas eu reconheço que, pessoalmente, fiquei muito surpreso com o julgamento do tribunal. Há alguns meses eu não teria pensado que isso seria possível.

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