“A crise nos mostra quanta miséria o capitalismo carrega em si”. Entrevista com Silvia Federici

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22 Julho 2020

A teórica e feminista marxista Silvia Federici compartilhou suas ideias sobre o momento atual em um seminário virtual correspondente a um projeto de pesquisa sobre sociedades pós-crescimento, subscrito ao Centro de Pesquisa sobre Inovações e Transformações Sociais, da Escola de Inovação Social Elisabeth-Bruyere, da Universidade Saint Paul, em Ottawa (Canadá).

Colombia Informa publica a segunda parte [a primeira parte, em português, pode ser lida aqui] da tradução em espanhol editada deste seminário que explorou formas de construir uma sociedade para além do crescimento, do capitalismo, do colonialismo e do patriarcado, além de analisar as diferentes consequências sociais do sistema dominante que evidenciou a atual pandemia de Covid-19.

A entrevista é publicada por Colombia Informa, 20-07-2020. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

De acordo com sua proposta teórica de “os comuns”, quais seriam seus aspectos mais importantes? Qual é a diferença entre “comum radical”, “comum reformista” e “comum conservador”? Quais são as maneiras pelas quais o Estado pode coagir estes comuns?

Devemos entender os problemas dos comuns de uma maneira muito crítica. Hoje em dia, tornou-se a palavra da moda e existe a tentação de dizer: ‘bom, vou esquecer essa palavra e não vou usá-la’. Eu resisto a fazer isto. Sei que na história do capitalismo e de nossa sociedade até o presente, toda vez que temos um conceito importante, eles nos arrebatam. Pensem na palavra "democracia" e na palavra "feminismo".

Há um processo permanente de retirada: criamos um conceito, roubam de nós e recuamos. Não se trata de obter uma nova palavra ou um novo conceito. A linguagem e a semântica são um campo de batalha, um lugar onde a luta acontece. Trata-se de entender as condições para que o conceito “os comuns” não se volte contra nós.

Quem são os que conformam esses comuns? São os que tomam decisões sobre a terra, sobre a produção de alimentos e sobre a maneira como está organizada a sociedade coletiva. Pensar em comuns não é sinônimo de total desordem e que a terra se encontra disponível para quem queira tomá-la. Não é assim que se maneja os comuns. A intenção é cuidar e reproduzir os recursos e as riquezas do mundo, a fim de alcançar uma versão próxima à versão indígena.

Trata-se de buscar um equilíbrio que nos permita ver como vamos utilizar a terra. Mas, ao mesmo tempo, o que vamos fazer para que essa terra continue se reproduzindo, a longo prazo, e que o ecossistema tenha capacidade de se reproduzir apesar da nossa presença. Em outras palavras, nossa presença em um território não pode ser destrutiva. Isso supõe muito trabalho, porque a terra é o comum fundamental. Quando digo terra, quero dizer a maneira como a entendem os camponeses e camponesas latino-americanos: são os animais, é a água, são as árvores, é toda a vida. É o ecossistema completo que vive sobre esta terra.

Podemos começar a criar esses comuns a partir de uma horta comunitária, por exemplo. Como os zapatistas, como o movimento dos sem-terra no Brasil. São exemplos gigantes que existem mundialmente de comuns. São a base fundamental para todo o resto.

A reconstrução do conhecimento coletivo se perdeu junto com a produção de novos conhecimentos. A produção de conhecimento hoje está absolutamente comercializada. Nos Estados Unidos, fala-se em "universidade" como se fosse uma empresa. É preciso descomercializar a produção de conhecimento e de saber.

Acontece o mesmo com os comuns da saúde. Como podemos definir o que significa estar em boa saúde? Quais são as condições? Isso deve ser definido coletivamente pela própria comunidade.

Na América Latina, tem havido muito trabalho de recuperação da memória coletiva. Reconstruíram a história desde a base. Essa perspectiva histórica é a recriação de uma memória coletiva, que é a construção de um sujeito coletivo e de um interesse coletivo. E essa trajetória histórica é o que nos dá esse sujeito coletivo. Dá sentido a qualquer luta. A memória coletiva nos faz entender o presente e nos projetar para o futuro com um interesse comum. Se não há terra, não há nada. Não há conhecimento. Não se pode desenvolver toda a questão da própria saúde. Isso é o que queremos dizer por b.

Se queremos coletivizar as tarefas domésticas, como encontrar um equilíbrio entre essa socialização que nos leva a pensar que o trabalho doméstico é um assunto íntimo? Como podemos organizar uma sociedade pós-capitalista? Como as tarefas de reprodução são organizadas nos comuns? Como se pode organizar democraticamente a distribuição e a divisão do trabalho nos comuns? Essa divisão de tarefas se baseia em uma teoria de valor sobre uma divisão ou especialização do trabalho?

Isso pode ser respondido pensando no que é possível hoje. É muito difícil conceber até onde podemos ir. Mas se temos que trabalhar dentro do possível, temos que analisar, já que há muitas coisas possíveis. As pessoas perguntavam a Marx: O que é comunismo? Ele dizia: “Não é a imagem de uma sociedade futura, é o trabalho diário que transforma o status quo”. Isso é que está transformando os poderes sociais que temos. E isso transforma as possibilidades que temos para continuar avançando em nossa visão. Em outras palavras, é no passo a passo que podemos construir esse futuro.

Neste momento, nossa imaginação está como que congelada. Está muito limitada. Porque internalizamos essa ideia de que não temos alternativa, de que não há possibilidade. Estamos no capitalismo há 500 anos e isso se tornou natural. Temos que revolucionar nossa existência em muitos níveis, apenas para poder pensar além. Temos que ser um pouco mais humildes e concretos nos passos que é preciso dar. Redescobrir os possíveis.

É construindo que iremos desafiar as possibilidades e as dificuldades concretas. Temos que nos afastar da ideia de que existe apenas um modelo, mas precisamos ser muito firmes com o que não é aceitável. O que queremos? O que se deseja? Isso é algo que deve ser construído de maneira permanente.

Existe muito trabalho que se fez na socialização de temas como o trabalho doméstico. Avançou-se muitíssimo nos últimos anos. As pessoas tiveram que responder a uma situação permanente de crise, nos últimos 30-40 anos. O neoliberalismo é um processo de recolonização global que afetou muitas áreas do mundo e empobreceu massas gigantes de pessoas.

Diante das emergências, surgiram novas estruturas que responderam a esta situação. Não há exemplo melhor do que a América Latina. Mas vimos algo muito semelhante na África, por exemplo, sobre o assunto da agricultura urbana. Iniciou-se no final dos anos 1980, naquele continente, como uma resposta ao deslocamento forçado de pessoas de suas terras. Quem chegou aos gigantes centros urbanos teve que transformá-los em hortas comunitárias. Precisavam de qualquer pedaço de terra para produzir alimentos. As mulheres deslocadas, em muitos casos, tomaram essas terras para plantar. Existem milhares de mulheres que sabem que precisam plantar algo.

Agora algo semelhante está acontecendo em Nova York. Penso que quando o verão chegar em Ottawa também farão o mesmo. Sei que é difícil porque você tem um verão muito curto, mas precisa inventar maneiras de produzir alimentos. Muitas pessoas pensam que não têm terra porque moram em um apartamento. Mas há quem não tenha terra, nem apartamento.

Não podemos abandonar a ideia de que é necessário, ainda que seja um pedacinho de terra. Não podemos depender do mercado para comer e para as reproduções básicas. Temos que sair do mercado para as necessidades básicas da reprodução. Em um apartamento, você pode começar a plantar tomates. Também existem as hortas comunitárias. Todos esses são grandes passos iniciais que demonstram que a produção e o abastecimento de alimentos podem ser um projeto coletivo que não isola as pessoas.

Nesse processo, também devemos nos perguntar como podemos desfeminizar a reprodução. Dividir o trabalho é importante. Mas é preocupante quando esse se torna o único problema. A questão fundamental é a nossa relação com o capital. A questão da divisão do trabalho está ligada ao capital. Se apenas compartilhamos a pobreza, se apenas desfeminizamos o trabalho, mas deixamos condições em que o reprodutivo não tem recursos, não fazemos muito.

Dividir as tarefas com seu esposo em casa é muito importante, mas se seguem isolados e não é coletivo, não é suficiente. Claro, quando temos um parceiro, temos que dividir o trabalho doméstico. Hoje, muitas mulheres vivem sozinhas. De qualquer forma, é um aspecto muito pequeno da solução. A solução vai muito além.

As divisões do trabalho baseadas em gênero, orientação sexual e etnia devem ser superadas em todas as etapas da luta. Essas desigualdades, essas hierarquias, são os obstáculos centrais que nos impedem de avançar. A homofobia, o sexismo e o racismo são os principais obstáculos que nos impedem de nos unir e realizar nosso poder coletivo. A cada passo, é preciso combater o racismo, o sexismo e a homofobia. É uma necessidade para dar o próximo passo.

Como vamos trabalhar e como iremos utilizar o que vamos produzir? Temos que tomar decisões coletivas sobre isso. A maneira como nos relacionamos com o mundo e com nossos corpos também se transforma.

Devemos planejar essa mudança global ou devemos nos concentrar nessas coisas para confiar em uma mudança?

Não, é preciso fazer a mudança. Estão acontecendo coisas, mas temos que continuar pensando em como vamos projetar essa luta. É um processo que não está em seus primeiros passos, já existe.

Caso se revise a situação na Amazônia, Chile ou Equador, é possível constatar que, nos últimos 15 a 20 anos, existem redes de mulheres camponesas e indígenas, movimentos feministas, movimentos ambientais, movimentos sem-terra que foram reunidos com muita liderança de mulheres. É importante dizer isso. Mulheres que se declaram feministas e que estão ligadas aos movimentos feministas em todo o mundo.

Os movimentos indígenas e campesinos estão se unindo a movimentos urbanos. Pensem nas mulheres sem-terra do Brasil. Elas têm um montão de trabalho em território coletivo, mas também estão abrindo lojas nas cidades. Lá vendem o que produzem. E também conectam suas lutas. Isso já está acontecendo. É nessa circulação e conexão de diferentes lutas que devemos colocar nossa energia.

Nos Estados Unidos e Nova York (onde eu moro), nota-se muitos movimentos ambientais. Muitos movimentos que foram inspirados pelo princípio dos comuns. Estão envolvidos na ajuda mútua e é muito impressionante. As pessoas pegam suas bicicletas e pegam comida para levar para outro lugar. As pessoas estão se perguntando como podem ir além do imediato. Estão procurando novas maneiras de produzir. Estão criando novas formas de produção e novos tipos de relacionamentos. Estes são os primeiros passos na construção. É o desafio de hoje.

Comecei dizendo que devemos trabalhar em dois níveis: no imediato e no longo prazo. Há pessoas que não têm nada. Crianças famintas por toda parte. Comunidades afro e latinas que estão sendo afetadas pela saúde. Nesse processo de resposta imediata, também temos que construir outra maneira de organizar a produção. Assim, criamos outras maneiras de fazer. A cada passo que damos, nossa imaginação se expande.

Quando você está na rua com 100.000 pessoas, imagina as coisas de maneira diferente do que quando está apenas pensando em um novo mundo sentado no seu quarto. Não tem a mesma perspectiva sobre as possibilidades. Por exemplo, eu não teria conseguido escrever Re-enchanting the World, se não conhecesse o movimento de mulheres que me levantou e me tirou das tentações do pessimismo. Afastaram-me da tentação de dizer que é tarde demais. Se é tarde demais hoje, amanhã existe outro dia. Isso é muito importante.

O conceito dos bens comuns é problemático se não estiver relacionado com o exercício da lógica colonial. É importante revisar a concepção crítica do comum e da comunidade em termos do que a colonização fez frente a isso. À luz dessas relações de poder coloniais, territórios comuns para quem?

Concordo. Para responder a essa pergunta, é realmente essencial a relação política das lutas que existem entre as comunidades e os territórios em que vivemos. Pensarmos o território em relação à sociedade que o habita. Mas o desafio fundamental é criar comunidade, fazer conexões entre as comunidades e a luta.

Idealmente, devemos trabalhar para construir o tipo de luta que queremos criar. Esta não é a reconstrução de algumas hierarquias. O comum significa reconhecer projetos históricos. Quem esteve aqui? É preciso levar em conta as necessidades e desejos daqueles que estiveram originalmente no território.

Não creio que isso desqualifique a discussão sobre a criação de uma sociedade na qual possamos compartilhar a riqueza do continente em termos de quem decide e quem toma as decisões sobre o uso da terra. É possível criar um movimento em que possamos superar algumas das dificuldades que estão surgindo. Esse é o grande desafio. Se vivemos em um mundo que a todo tempo está produzindo miséria, não poderemos esperar mais nada.

No marco dessa pandemia, não há apenas uma conexão com a crise. Também com a necessidade de nos conectar com as diferentes crises. É inevitável. A luta doméstica se torna visível, assim como a luta contra as diferenças sociais (com milhares e milhares de pessoas vivendo na rua). Estar em casa é um privilégio escandaloso que deve ser questionado e tem a ver com a questão do espaço e da moradia. Se conectamos isso ao número de migrantes que não possuem a sua documentação completa, como se pensa no acesso à saúde, se nem sequer tem uma documentação?

Estas são crises que devemos levar em consideração e que demonstram a crise material que atravessamos. As pessoas não estão se protegendo da Covid porque precisam garantir seu acesso aos alimentos. A crise nos mostra quanta miséria o capitalismo carrega em si.

Ouvimos algumas de suas contribuições sobre a arquitetura. Poderia nos contar sobre isso?

Há um livro muito bonito de Dolores Hayden (The Grand Domestic Revolution) sobre o feminismo dos anos 1970. Ela analisa o tipo de discussão que estava acontecendo na época no movimento feminista dos Estados Unidos. Havia muitos limites. O movimento ainda era muito diferenciado e se pensava em como romper com o individualismo. Parece-me que isso é algo em que devemos pensar.

Devemos pensar na exclusão social. Isso é fundamental. Devemos ir além dos lares, das casas. Nós não falávamos apenas sobre a cozinha, sobre as moradias e sobre como uma casa está dividida. Falávamos sobre a relação com a rua e com o bairro.

Vi na América Latina a continuidade das casas com as ruas. É isso que tem que acontecer. As ruas também devem ser socializadas. Não deve haver separações entre as casas. Nós, feministas, já pensamos a reconstrução de nossa vida reprodutiva. Então, compreendemos quais são as casas que precisamos. Estamos pensando em uma reprodução em consonância. Como fazemos para estar juntas e para repensarmos esse espaço no qual reproduzimos nossas relações sociais?

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