“Não devemos pensar que uma única lógica governa todas as situações”. Entrevista com Judith Butler

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26 Mai 2020

Estamos diante de uma nova forma de biopolítica, avalia Judith Butler, de Berkeley, com uma afabilidade que transparece até mesmo no vigor de nosso intercâmbio por correio eletrônico: “Na Califórnia, houve muitos casos de Covid-19. Em Berkeley, não tantos. Meus amigos na costa leste estão experimentando perdas mais graves. No meu caso, um de meus parentes próximo, em Cleveland, agora o padece. Tem 90 anos e provavelmente não sobreviverá. Contudo, é nas prisões que o coronavírus está furioso. Hoje, a prisão é uma espécie de sentença de morte para muitos”.

A teórica que se tornou uma referência imprescindível da filosofia política, ensinando com seu compromisso militante que a palavra faz, a identidade é ato e a sexualidade disputa, cita a denominação que o isolamento recebeu no estado onde vive há anos. “Refúgio no lugar”, assim o chamam. Um conceito que para quem desenvolveu sua teoria em torno da performatividade, a partir da observação das minorias, não passa inadvertido. Em sua opinião, é necessário revisar a centralidade que assumiu a “ideia de lar” como o espaço de proteção frente ao inimigo invisível.

A entrevista é de Carolina Keve, publicada por Clarín-Revista Ñ, 22-05-2020. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

Por que defende que é necessário buscar outras definições de refúgio frente à pandemia?

Um refúgio é, etimologicamente, um lugar onde a viagem pode parar. Mas isso não significa que um refúgio seja um objetivo final ou um lugar onde seja possível garantir direitos e uma pertença. E embora o refúgio possa significar acolhida e proteção, essa “proteção” não é a que o estado-nação invoca, com frequência, quando diz que “devemos fechar as fronteiras para proteger a nação contra aqueles que trariam a diferença para a nossa unidade nacional”. Essa defesa fóbica, junto com as táticas de expulsão, priva o refugiado de qualquer proteção ou de qualquer refúgio, justamente em nome da “proteção” à identidade nacional.

Talvez seja por isso que temos que distinguir entre os modos de proteção que não encerram aqueles a quem acolhemos, e os modos de proteção que fazem uma distinção entre quem deve ser protegido do dano e quem deve estar exposto ao dano, ou seja, quem deveria viver e quem deveria morrer. É neste ponto que a biopolítica se torna, nos termos do filósofo camaronês Achille Mbembe, necropolítica...

Mas, além disso, observemos como novas redes de parentesco e comunidades de cuidado emergem precisamente quando o estado – o sistema de atenção médica, por exemplo – não pode abordar completamente todas as necessidades de atenção. E aqueles que ajudam outros, durante este tempo, não estão simplesmente atuando a partir de uma inclinação virtuosa: estão construindo, articulando novas formas de comunidade que se movem fora da ideia de família.

Há uma premissa que me parece interessante, o confinamento como política da aglomeração. Um capitalismo que habita no excesso da presença e que só encontra resposta no fechamento...

Como se vê, muitos temem que o autoconfinamento se torne norma, que o coronavírus confira aos estados a oportunidade de despolitizar suas populações, de lhes negar o direito de se reunir e se associar. O isolamento, em parte, é uma estratégia de controle estatal, que expande o poder do estado. Hoje, as nações tomam diversas decisões sobre como administrar suas populações, inclusive suas vidas e suas mortes. Neste sentido, esta situação gera um novo paradigma de biopolítica.

Vimos em alguns países que a crise na atenção médica levou à suspensão dos direitos ao aborto e à atenção médica trans. Na Hungria, Viktor Orban se autoconcedeu poderes extraordinários. Mas não só isso. Lá, foram negados os direitos legais trans, e algo similar está acontecendo na Polônia. Tanto no Peru como no Panamá, existe um sistema escalonado para que as mulheres saiam de casa um dia e os homens outro, e as pessoas trans foram presas por saírem no dia designado para o seu gênero legitimamente assumido.

A questão é como lidar com essa tensão de uma presença estatal necessária, em um estado de exceção...

As condições de emergência sempre implicam a suspensão do estado de direito e o ressurgimento da autoridade do poder executivo. Mas, por outro lado, produzem novos tipos de mobilizações, redes transnacionais, alianças de atenção médica, comunidades de apoio, e ajuda com a distribuição de alimentos. Portanto, não devemos pensar que uma única lógica governa todas as situações.

O que mais me preocupa neste momento é a forma como as demandas capitalistas para reabrir a economia aceitam que a economia demande a morte das pessoas mais vulneráveis de nossas comunidades. Sabem que a intensificação do contato social com o propósito de fazer renascer a economia colocará em risco as pessoas idosas, aqueles com sistemas imunológicos deteriorados ou os que não podem se refugiar ou têm menos acesso à atenção médica. Configura-se um grupo de subjetividades “prescindíveis” como o resultado de uma estratégia de abrir a economia a todo custo. Esse utilitarismo realista está disposto a nos deixar morrer para que a “saúde” da economia se mantenha forte.

E o que acontece com os nacionalismos? Aqui, outra contradição: a morte em escala global parece ter nos confinado a eles...

Na realidade, vemos os nacionalismos – em sua concepção clássica – priorizar em suas políticas a necessidade de salvar suas próprias populações, primeiro, mas nenhum de nós hoje vive dentro das fronteiras que esse imaginário estabelece.

O que significará este momento, então? Zizek falou de uma possibilidade de reinventar novas formas de comunismo. Outros, ao contrário, entendem o momento como uma instância de consolidação do capitalismo através de novas formas de controle social...

É tudo tão desconhecido que é fácil compreender a razão pela qual uma maioria se vê obrigada a fazer firmes predições sobre o futuro. Alguns dizem que as desigualdades produzidas dentro do capitalismo se intensificarão e outros observam um potencial socialista radical nas comunidades de cuidado que se formaram. E pode ser que as duas posições tenham algo de verdade. Está claro, por um lado, que os pobres, os indígenas, os negros e pardos, as mulheres e as minorias de gênero têm muito menos acesso a uma boa atenção médica que os ricos e os privilegiados.

Nos Estados Unidos, vemos como a comunidade afroamericana sofre muito mais mortes que os brancos. Essas mortes refletem desigualdades sociais e econômicas de longa data, como resultado de um modo de capitalismo racial. O número de mortos no Equador também é terrível, seu caso reflete uma política global que faz com que a pobreza e a miséria se tornem norma. Mas, ao mesmo tempo, há sinais de esperança...

Como quais?

Poderíamos estar diante de uma oportunidade para revitalizar o ativismo ecológico. Mas por outro lado, retomo o que mencionávamos antes: o mandato de permanecer dentro do lar não funciona para muitas pessoas – especialmente para as pessoas sem teto, mas também para as mulheres e as crianças que sofrem abuso e violência, ou aquelas pessoas sós que estão privadas de qualquer contato social.

Na Argentina, o lugar que a “ancianidade” passou a ocupar nos discursos em torno da doença alertou vários intelectuais. Falou-se de uma nova forma de “tanatocomunicação”.

É que essa segmentação dos anciãos, e aqueles com condições médicas, mas também aqueles que não têm acesso à atenção médica, justamente se concretiza como uma forma de “reiniciar a economia” para “proteger os vulneráveis”. Mas essa proteção elimina os mais vulneráveis da vida social e econômica. São implicitamente excluídos do corpo político. Preocupa-me que esta “proteção” seja, na realidade, um abandono sistemático de uma população considerada não produtiva e menos valiosa. No pior dos casos, é uma forma de darwinismo social que privilegia as vidas dos ricos e desvaloriza as vidas dos idosos.

Neste sentido, mencionou como nos Estados Unidos ficou exposta a necessidade de uma reforma do sistema de saúde, o que faria supor que o contexto fortaleceria Bernie Sanders. Mas não foi assim.

É uma ironia dolorosa. Elizabeth Warren e Bernie Sanders insistiram em que a atenção médica universal deve ser algo que todos os cidadãos estadunidenses devem ter. Cada um deles argumentou que entre todas as nações do mundo estamos entre aquelas que têm uma visão cruel e injusta, onde apenas aqueles que podem pagar, merecem receber atenção médica, só os ricos merecem sobreviver. Se alguém está desempregado, essa pessoa basicamente perde o direito à vida, a menos que possa encontrar o dinheiro para comprar um seguro de saúde independente.

E, no entanto, embora tenham um forte grupo de seguidores, nem Sanders e nem Warren receberam votos suficientes para ganhar a indicação. E agora, diante da pandemia, curiosamente, defende-se a atenção médica universal, e vemos que a grande quantidade de dinheiro que o governo dos Estados Unidos está pagando para apoiar o atendimento médico é mais que a quantidade que Sanders e Warren tinham afirmado ser necessária para uma atenção médica universal.

Naquele momento, Joe Biden e outros zombavam deles por pedirem tanto dinheiro, foi considerada uma demanda exorbitante. Quando vemos como o sistema de saúde alemão estava muito melhor equipado que o nosso e que lá há muito menos mortes, percebe-se o benefício que supõe estabelecer a atenção médica como uma prioridade absoluta para todas as pessoas.

A crise desatada pela pandemia pode ter consequências na corrida eleitoral?

Sempre existe a possibilidade de que Trump se autodestrua. Seus pontos de vista céticos sobre a ciência, suas mentiras, suas fantasias e suas declarações contraditórias fazem com que as pessoas sintam que estão sendo governadas por um louco. Mas, por sua parte, seus seguidores realmente amam a loucura. É uma montanha russa todos os dias, e isso lhes permite sentir uma espécie de euforia dissociada, identificam-se com a ideia de um homem no poder que pode e violará todas as leis. É uma situação perigosa, mas espero que as pessoas se unam, apesar de suas diferenças, para votar contra ele.

Biden precisará criar uma equipe que inclua Warren e Sanders para que o eleitorado se apresente em grandes números. É compreensível que muitos jovens de esquerda estejam muito desiludidos com a política eleitoral, mas terão que pensar estrategicamente sobre como se aproximar da construção do mundo em que desejam viver. Biden não é a resposta, claramente. Mas um regime democrata será melhor que um republicano. A luta pela esquerda continuará, mas será contra os neoliberais convencionais, os racismos sistemáticos, a intensificação das desigualdades sociais e econômicas, e será pela igualdade de gênero e a oposição à violência sexual, os novos socialismos e as mobilizações não violentas que buscam deter a exploração e a violência.

 

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