“A questão da reprodução social ainda é fundamental”. Entrevista com Silvia Federici

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27 Novembro 2019

Eram fáceis, rápidos de fazer e serviam para transmitir a mensagem. Eram muitas fotocópias que mostravam colagens, desenhos recortados, letras de todos os formatos. O que diziam? “Não podemos nos permitir trabalhar por amor”. Era 1973, em Nova York, e aquelas que distribuíam os folhetos eram integrantes do Coletivo Salário para o Trabalho Doméstico.

Desse modo, tentavam iniciar um debate sobre essa tarefa invisibilizada que, ao longo de da história, foi desempenhada por milhares de mulheres para auxiliar a força de trabalho que ia para as fábricas, escritórios, etc., para sustentar o sistema de trabalho no mundo capitalista. Trata-se da questão da reprodução, de acordo com a denominação dada pela filósofa italiana Silvia Federici.

Folhetos, fotos, panfletos, participações em congressos, materiais de discussão, tudo isso estava guardado em uma caixa que a pensadora conservou por décadas. Hoje, estão reunidos em Salario para el trabajo domestico (organizado juntamente com Arlen Austin e editado por Tinta limón e Traficantes de sueños). A autora de Calibã e a bruxa fala sobre aqueles anos com uma tranquilidade luminosa.

A entrevista é de Natalia Gelós, publicada por Clarín-Revista Ñ, 22-11-2019. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

Como foi o reencontro com esses documentos? O que acontece quando são publicados depois de tantos anos?

Este é um livro que mostra o que fizemos, a organização e as atividades nos anos 1970. Dá uma ideia geral não apenas da teoria, mas de como pode se traduzir em prática. O reencontro foi uma ocasião para repensar essa luta, o que dissemos, o que significa hoje, o que significou naquele momento. Isso me permitiu entender como o início dos anos 1970, com a campanha pelo salário do trabalho doméstico, ainda é importante para o presente.

Existem muitas abordagens atuais, desde a desigualdade no mundo do trabalho até discussões sobre o sistema de saúde e sobre a integração dos homens ou não nos debates do feminismo. Essa atualidade também lhe surpreende?

Surpreende-me, mas não completamente. Muitas das problemáticas que descobrimos ainda estão em aberto. Hoje, muitas mulheres deixam suas casas para trabalhar. Na realidade, em toda a história do capitalismo, sempre houve muitas mulheres que, por exemplo, não tinham um parceiro, um homem com um trabalho seguro, e deixavam suas casas para realizar tarefas como trabalhadoras do lar.

Hoje, 70% das mulheres nos Estados Unidos, um pouco menos na Europa, e muitas com crianças bem pequenas, saem de suas casas porque o salário masculino fracassou, porque não vivem em famílias tradicionais ou querem mais autonomia. A questão da reprodução ainda é fundamental. Há mulheres que têm trabalhos, recursos, e o que acontece? Empregam mulheres, em sua maioria migrantes, que fazem o trabalho doméstico. As migrantes, então, fazem isso em suas casas aos domingos e à noite, ou diretamente reduzem o trabalho doméstico e isso traz consequências muito fortes, que são sentidas na vida das crianças e dos idosos.

Que tipo de consequências?

Fala-se em muitíssimas crianças que retornam da escola para casas onde não há mãe e nem pai, nas quais a família se reúne uma vez por semana, porque ele trabalha à noite e ela durante o dia, e não se cozinha, compra-se comida pronta. Há mulheres que passam a vida inteira trabalhando. Os idosos vivem em um isolamento terrível, com menos cuidado. No mesmo momento em que, a nível global, as mulheres saem de casa para procurar um trabalho assalariado, o Estado corta os subsídios para a reprodução, o cuidado e o transporte barato. O neoliberalismo, certo? Falam que o mercado vai se encarregar. Com um salário miserável, a mulher precisa pagar tudo: o transporte, a comida, tudo o que uma vez o Estado soube zelar.

Essas infâncias solitárias, esses idosos desprotegidos. Esse é um cenário novo?

Sim. O trabalho das mulheres nas casas, o trabalho de reprodução, não foi substituído. Ao contrário. Este é o drama: existem mulheres migrantes, e isso em si já é uma tragédia, que deixam seus filhos em seus países e são criadas novas divisões entre as mulheres e isso não é uma solução. E há outra realidade social entre essas mulheres: encontram-se em uma vida de trabalho contínuo, porque muitas vezes não têm o suficiente e o Estado corta o investimento social em nome da austeridade. Estamos entre dois incêndios. É por isso que muitas mulheres tomam antidepressivos, aumentam os suicídios, aumentam as doenças e cresce a ansiedade. E, além disso, a dívida cresce.

Qual dívida? A privada ou a feita pelo Estado, como na Argentina?

Compartilho a visão das companheiras que dizem: “Chamam isso de desenvolvimento. Chamamos isso de violência”. É importante ver que nesta fase do capitalismo há duas dívidas e que essas duas dívidas se somam à vida das pessoas. E principalmente à vida das mulheres. Porque existe a dívida nacional que tem impacto na vida das pessoas, porque a moeda se desvaloriza, etc., e serve para uma política de empobrecimento. E, depois, existe a dívida individual, para poder pagar a comida, o gás.

Nos Estados Unidos, o que vemos hoje é que as mais endividadas são as mulheres que trabalham fora de casa. Que buscam salários mal pagos e o salário lhes permite pedir um empréstimo. Há companhias, empresas, que foram formadas apenas para explorar o novo emprego das mulheres. Chamam-se Pay day long. São companhias que dão a você um empréstimo que não termina de pagar, assim, trabalha cada vez mais e se endivida mais. Não concordo com isso que a ONU diz, de que nós, mulheres, nos emancipamos. Trata-se de uma vida onde não há tempo e com gerações que estão se formando sozinhas.

Você diz que a saúde é uma utopia. Como podemos pensar o vínculo com a natureza nesse aspecto?

Quando se envenena o ar, a água e a comida, se envenena o corpo. Nosso corpo faz parte da terra. Em um lugar como Neuquén, onde estive nesta viagem, é possível ver muito bem como se destrói a riqueza natural e como aumenta o número de doenças. Em alguns lugares mais, em outros menos. Vive-se uma situação de ansiedade pelo futuro, de infelicidade, e o que a instituição médica chama de saúde é algo muito limitado, um serviço para que possamos continuar trabalhando, não para que desfrutemos de bem-estar real.

Como se busca e se consegue a mudança real?

Nos Estados Unidos, as trabalhadoras domésticas se juntavam por etnias durante anos, mas esse movimento cresceu, começaram a entender o idioma e agora criaram uma organização multinacional. É um trabalho de um a um, mas quando se faz parte de uma organização forte, com uma lei que oferece alguma proteção, que reconhece você como trabalhadora, é importante. Então, quando você tem a solidariedade de outras mulheres, isso dá mais força. E isso fez com que hoje as organizações de mulheres trabalhadoras estejam presentes nos movimentos, nas manifestações pelo clima, pelos migrantes.

Nesses anos, elas colocaram sobre a mesa a questão da reprodução, dizendo: “Sem nós, nada se move”. Elas continuam colocando a questão do trabalho de reprodução como pilar. Para mim, a solução é um movimento forte, amplo, que reúna aquelas que trabalham com remuneração, para mudar a forma da reprodução social e iniciar uma frente ampla que possa enfrentar o Estado.

Como lidar, nessa frente tão ampla, com as tentativas de cooptação do establishment? O que fazer com isso?

A cooptação é sempre realizada por meio de reformas e concessões pagas, que privilegiam apenas um grupo. É muito importante ver o processo de negociação, saber distinguir quais são os tipos de reformas, de ganhos, que mudam a posição de todas, que empoderam todas, e as que conferem apenas alguns privilégios, que ao final são pagos. Isso é, acredito, o desafio organizacional mais importante hoje. A decisão de qual estratégia adotar. Trata-se de compreender que existem reformas e reformas. Existem reformas que cooptam você e existem outras que ampliam sua capacidade de lutar.

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