“A não aceitação da renúncia do cardeal Barbarin revela os limites da governança do Papa”. Entrevista com François Mabille

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21 Março 2019

Enquanto o Papa recusou a renúncia do cardeal Philippe Barbarin, condenado em primeira instância pelo Tribunal de Lyon por não ter denunciado crimes de pedofilia, e que entrou com recurso, o arcebispo decidiu “retirar-se” como pastor da diocese. Análise de uma situação inédita realizada por François Mabille, pesquisador do grupo Sociedades, Religiões, Laicidades (GSRL) do CNRS.

A entrevista é de Sophie Lebrun, publicada por La Vie, 20-03-2019. A tradução é de André Langer.

Eis a entrevista.

O Papa acabou não aceitando a renúncia do cardeal Barbarin. Isto é surpreendente?

Não, porque a Igreja Católica age aqui, como no âmbito de suas relações internacionais, como um Estado. Ela fez isso no ano passado, nesse mesmo assunto, ao recusar a notificação de um cardeal, dom Ladaria, que a justiça francesa queria ver comparecer no contexto do julgamento de dom Barbarin. O Vaticano está em constante ambiguidade: diz que não é um Estado como os outros, mas se comporta como um poder estatal ao se apegar à lei. No presente caso, o processo da justiça francesa não está concluído, razão pela qual o Papa Francisco espera o seu resultado final.

Em julho passado, o Papa aceitou a renúncia – não proposta – do arcebispo Philip Wilson, da Austrália, também condenado por não ter denunciado crimes de pedofilia, antes da decisão de apelar, caso em que a justiça absolveu Wilson. O Papa estava com medo de ir muito rápido no caso Barbarin?

Certamente. É por isso que essa decisão de Francisco de não aceitar a renúncia do cardeal não é surpreendente nem ilegítima. Por outro lado, é mais um exemplo que revela os limites da comunicação do Papa e, especialmente, de sua governança. Francisco escolheu, desde o início do seu pontificado, colocar os problemas da Igreja Católica na praça pública e, depois, confia em uma possível opinião pública para mudar as coisas. Mas há uma grande diferença entre palavras e ações... Particularmente no caso de pedofilia na Igreja. Por exemplo, para a crise chilena, o Papa negou, depois descobriu que haviam mentido para ele, convocou os bispos para Roma, gritou com raiva... e um ano depois, estamos diante de uma situação de incerteza, com algumas renúncias aceitas, mas sem uma lógica revelada.

Isso cria dois problemas de fundo. Primeiro, é muito grande a diferença entre o efeito do anúncio e a realidade dos fatos, entre o tempo midiático – gerado pelo modo de governança do próprio Francisco – e o tempo das decisões do Papa. Isso cria um mal-entendido. Isto é, depois, alimentado pela ausência de regras transparentes.

Existe uma regra internacional que se aplica a todos os bispos ou cardeais implicados pela justiça?

Por enquanto, vemos que tudo é tratado caso a caso. Para o cardeal Barbarin, a decisão não é chocante em si – sem prejulgar a substância, aguardar o fim de um processo judicial é normal –, mas é o fato de não haver regra clara que cria expectativas e decepções. Ainda mais porque é difícil ver a coerência: no ano passado, o cardeal americano Donald Wuerl, implicado por um promotor, mas sem ser processado, propôs sua renúncia para o bem de sua diocese... e ela foi aceita.

Como explicar essa lacuna?

A Igreja ainda está agindo em reação, como se estivesse na defensiva. O Vaticano não tem “política pública” em face do questionamento de um bispo ou cardeal, nem sobre a luta contra a pedofilia em geral. O Papa tem muitos conselheiros – os membros do Centro de Proteção de Menores da Universidade Gregoriana, dirigido pelo jesuíta Hans Zollner –, mas não parece ter nenhuma direção ou plano. Ora, em termos de comunicação, a imagem que isso reflete da estrutura do Estado da Santa Sé, da competência do pessoal do Vaticano, é desastrosa.

Esta lacuna na transparência das regras explica a reação negativa das vítimas, das associações de vítimas... e da opinião pública, mesmo entre as fileiras de católicos. Se os critérios são claros, eles se tornam “mais” legítimos. Se agimos caso a caso, perdemos a oportunidade de ser compreendidos e, portanto, que a escolha seja recebida como legítima.

Face às diferenças da justiça de um país para outro, é prudente ter uma regra para todos?

É preciso ter, no mínimo, critérios simples, comuns e claramente definidos. Eu ouvi dizer que em alguns Estados que não estão em um sistema democrático isso pode ser uma questão. Mas os recursos a ONGs ou órgãos jurídicos internacionais são possíveis, então, para pedir garantias ou não para que o julgamento respeite os direitos pessoais. Sendo esses últimos agora muito loquazes para pedir justiça para os membros da Igreja, estariam bem posicionados para julgar. Eu não vejo como, dado o número de países afetados e a duração dos fatos, a Igreja pode dispensar regras simples e transparentes.

Ao não aceitar a renúncia do arcebispo de Lyon, o Papa sabota o encontro sobre a luta contra os abusos sexuais na Igreja que ele mesmo convocou em fevereiro passado?

Estamos em uma contradição generalizada. Esperava-se uma política geral para as Igrejas locais e para a Santa Sé após a reunião, mas isso não aconteceu. Este caso mostra o quanto é necessária. Tudo, nas informações que nos chegam do encontro entre o Papa e o arcebispo de Lyon, mesmo nas explicações do próprio Barbarin, mostra uma contradição de fundo. O cardeal uma vez advertiu e questionou Roma, mas o Papa lhe responde hoje que não está em Roma para intervir em sua diocese.

O cardeal relata seu intercâmbio com Francisco, insistindo sobre a dor em Lyon, vivida em particular pelas vítimas, mas ele prossegue enfatizando que eles não falaram apenas sobre este assunto. O cardeal, que pensava na segunda-feira que a melhor decisão para ele era renunciar, é deixado “livre” pelo Papa para escolher seu futuro... exceto para renunciar, já que ele não aceita sua renúncia. O que dom Barbarin pode dizer na terça-feira? Seus discursos refletem a ambiguidade na qual a decisão do Papa o colocou. Estamos aqui em uma total confusão!

Mesmo o presidente da Conferência dos Bispos da França (CEF) não sabe o que pensar. Nós entendemos, como ele disse à AFP, que “está surpreso” com uma “situação sem precedentes”! Sua reação apresenta o conjunto do problema: dom Georges Pontier considera que é um “cenário intermediário entre os dois previsíveis”, resultante do “conflito entre duas exigências”: “respeitar o caminho da justiça e preocupar-se com o bem da diocese de Lyon”. Isso reflete uma curiosa circulação de informações dentro da CEF.

Por sua parte, o cardeal Barbarin anunciou “retirar-se” para um mosteiro. Uma diocese pode funcionar com um arcebispo “fantasma”?

Várias dioceses menores permaneceram meses sem bispo e isso funciona bem. Em Lyon, será o vigário geral moderador, Yves Baumgarten, que vai garantir o governo da diocese. Mas isso terá repercussões na Igreja da França, acentuando a crise que está vivendo. A incerteza que prevalece irá acelerar o processo de divisão, tanto em Lyon como em outros lugares. Uma minoria permanece ligada à hierarquia e à figura dos bispos, mas a maioria não e se distancia.

E em poucas semanas, os bispos estarão todos em Lourdes para escolher o sucessor de Georges Pontier como presidente da CEF: com ele? Sem ele?

É realmente confuso. Mesmo sob pressão, a Igreja na França se mobiliza há vários anos na luta contra a pedofilia, com o fortalecimento de sua ação desde 2016: declarações de bispos, células de escuta, criação da comissão Sauvé para esclarecer os abusos. Esforços que caminham rumo a uma maior clareza, mas a imprecisão sem precedentes em relação a uma das maiores dioceses da França não ajudará a entender com transparência os compromissos assumidos.

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