‘A Igreja praticou a arte da fuga’. Entrevista com Pierre Vignon

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08 Janeiro 2019

Na véspera do processo Barbarin, padre Pierre Vignon, que pediu a renúncia do cardeal em uma carta aberta, publica um livro. Em sua querida Vercors, onde vive, o padre Pierre Vignon está iniciando uma resistência. Juiz do tribunal eclesiástico de Lyon desde 2002, o padre recebeu ao longo dos anos um número crescente de testemunhos de vítimas de abuso de poder e agressões sexuais na Igreja.

Diante do silêncio de sua hierarquia, esse espírito livre tornou-se, mesmo sem querer, um sinalizador de crimes. Em agosto passado, ele provocou um choque midiático, pedindo em uma petição a renúncia do cardeal Barbarin, acusado de encobrir um padre pedófilo, o padre Preynat. Em novembro, foi a vez de ele ser demitido de suas funções de juiz eclesiástico. No início deste mês, poucos dias antes do “processo Barbarin", em que o cardeal será julgado por não relatar os abusos sexuais sobre menores, Pierre Vignon retorna àqueles eventos em "lus jamais ça!" (Isso nunca mais, em trad. livre, Editions de l'Observatoire) e explica as disfunções da instituição a que pertence.

A entrevista é de Emmanuelle Anizon, publicada por Le Nouvel Obs, 03-01-2019. A tradução é de Luisa Rabolini

Eis a entrevista. 

O que o senhor acha do "processo Barbarin" que está sendo iniciado agora, em 7 de janeiro?

É uma coisa boa. Mas, qualquer que seja a sentença, nenhuma vítima a partir de agora irá pedir a ajuda ao Cardeal Barbarin. Hoje ele se encontra em um beco sem saída, que eu denunciei publicamente na minha carta de 21 de agosto de 2018.

Nessa carta, que se tornou uma petição (100.000 assinaturas), o senhor pediu a renúncia do cardeal. Não só ele não renunciou, mas foi o senhor que foi privado de suas funções de juiz, que vinha desempenhando há dezesseis anos!

Sim, o tribunal eclesiástico de Lyon, do qual é responsável o Cardeal Barbarin, é constituído de doze bispos das dioceses e regiões de Auvergne Rhône-Alpes. Normalmente, é preciso a concordância de todos os bispos para uma destituição. Em vez disso, soube que o cardeal decidira minha demissão por conta própria. Por isso, argumentei que o ato não era válido. Ele teve que refazer o decreto, assinado desta vez pelos onze bispos. Eu não fui destituído por não cumprir minhas obrigações, mas por cometer um crime de lesa-majestade cardinalícia! Eu recorri de acordo com as formas canônicas. Se os bispos, e depois a Santa Sé, mantiverem o decreto, eu irei perante os tribunais da República Francesa por ofensa à minha reputação, perante a Igreja e a sociedade francesa.

Como o senhor explica que os bispos concordaram em assinar?

Em minha entrevista anterior à "Obs", eu havia definido meus irmãos como "enfurnados". Não é uma expressão correta. O fato é que a atmosfera geral no clero é basicamente a do servilismo. Enquanto continuarmos a escolher bispos cuja principal qualidade seja a docilidade, alcançaremos resultados assim. E, de qualquer forma, também recebi várias expressões de apoio de padres e até mesmo de bispos.

Expressões de apoio público?

Não, privadas.

Em seu livro, o senhor se define como um "sinalizador de crimes". Mas por que não fez antes suas denúncias? Três anos atrás, quando estourou o caso Preynat? Ou em 2000, quando um primeiro bispo foi condenado por encobrir um padre?

Naquela época, eu não tinha nenhum título que me permitisse reagir aos vários casos, mesmo que tivesse minha opinião. Senti-me no direito de falar depois da carta do Papa Francisco de 20 de agosto, em que ele denuncia o clericalismo, e afirma que um bispo pode ser questionado se a autoridade não vai no sentido do bem comum.

O cardeal Barbarin não é o único em causa ... por que descontar nele especificamente?

Sou padre na diocese de Valence, ligada a Lyon. Portanto é o arcebispo de Lyon que pedi para afastar. Mas meu exemplo deveria encorajar os outros a reagirem quando surgir uma necessidade em sua região. Nós também devemos apreciar a coragem de Mons. Blanquart, bispo de Orleans, que não teve medo de questionar o seu antecessor, Mons. Fort, que foi condenado a oito meses de prisão, com liberdade condicional em novembro passado.

O que aconteceu com o Mons. Fort? Foi sancionado pela Igreja?

É ainda um bispo, mas ele se aposentou em 2010.

Seu superior, Mons. Michel, agora é acusado de não ter denunciado o padre Preynat quando o sucedeu na paróquia ... Outro nesta situação. Não poderia se pensar na renúncia coletiva dos bispos, como no Chile em maio passado?

É difícil imaginar a mesma coisa na França, onde o episcopado, que permaneceu maciçamente leal ao regime colaboracionista de Vichy, foi deixado no cargo depois da Libertação. Quanto aos bispos chilenos, é claro que foram pressionados a assinar suas renúncias. A mídia fez em seu lugar o que eles não tiveram coragem de fazer. Depois o Papa Francisco os convocou. Mas, na realidade, até onde sei, apenas alguns foram destituídos.

O senhor se viu confrontado com o testemunho de vítimas, a partir da década de 1990. E afirma ter reagido de maneira "inapropriada".

Quando recebi os primeiros testemunhos de vítimas de pedofilia - em seu âmbito familiar - eu estava completamente despreparado para o horror que estava sendo relatado. Eu fiquei chocado. E foi daí que comecei a me informar para entender o que precisava ser feito.

Como juiz eclesiástico, deveria lidar com casos relativos aos sacerdotes?

Eu tratava principalmente de questões de anulação matrimonial. Alguns colegas mais idosos se encarregavam dos casos referentes aos sacerdotes. Muitos deles ficaram assustados com o que descobriam, não ousaram agir. Pessoas que foram vítimas de abuso de poder e abusos sexuais na Igreja me procuraram em busca de conselhos, talvez porque eu tinha a reputação de ser um espírito livre. Eu as ajudei a escrever cartas, a endereçá-las a determinadas pessoas. E então percebi a ação usual da hierarquia. Diante da gravidade de suas demandas, as vítimas se deparavam com um muro de silêncio. Eu comecei a contatar jornalistas. Eles são frequentemente criticados, mas desempenharam um papel social essencial nesses casos. Eu entendi que não havia nada melhor que a midiatização para fazer as autoridades reagirem. Sobre Bernard Preynat, eu tinha ouvido rumores, mas nada específico. Quando o escândalo estourou no final de 2015, eu fui, creio eu, o único padre a dar o meu apoio à associação das vítimas La parole libérée.

O senhor escreve que os pedófilos encontraram na Igreja "uma estrutura favorável para desenvolver sua atividade criminosa".

Em todo o mundo, os seminaristas com tendências pedófilas puderam ser ordenados padres, ou mesmo bispos. Se a hierarquia tivesse desempenhado seu papel de supervisão, não teríamos essa crise. Quando os pedófilos e os abusadores de todos os tipos entenderem que agora sua vida na Igreja será muito difícil, teremos muito menos.

O senhor também relembra que, nestes assuntos, a Igreja em primeiro lugar quis proteger-se como instituição...

A Igreja tem praticado a arte da fuga, recusando-se a assumir as suas responsabilidades, se refugiando atrás da Justiça da República. Mas as exigências canônicas e morais da Igreja em relação a um padre pedófilo precisam ser maiores do que as exigidas na sociedade! A Igreja disse que a situação estava sob controle, que aqueles eram atos isolados, que na França não era como nos EUA ou na Irlanda... Essa tendência contínua à autojustificação não é mais apropriada. Estou pensando em particular naquele "1%" de pedófilos declarados por Monsenhor Pontier, presidente da Conferência Episcopal Francesa. Este número ridículo não convence ninguém, exceto ele. Estamos na mesma situação que todas as igrejas do mundo!

O senhor descreve uma Igreja "desconectada da realidade", "centrada em si mesma" e "sem contato com a base". Como explica isso?

A hierarquia episcopal se comporta como uma oligarquia. Ora, os bispos não são somente eles a Igreja. É urgente que parem de se comportar em suas dioceses como soberanos em seus reinos, que param de falar apenas entre si. Pelo contrário, eles devem estar totalmente comprometidos com o relacionamento com as pessoas, com as pessoas de quem são encarregados. Uma vez que a Igreja é fundada sobre a revelação de Cristo, seu funcionamento necessariamente vem do alto. Mas em uma sociedade como a nossa, esse princípio vertical deve ser temperado com um funcionamento horizontal e um retorno da base para o alto.

O senhor escreve que a Igreja, "carente em sua modalidade de recrutamento e formação de sacerdotes", "em sua modalidade de comando e controle", deve evoluir em sua organização. Como?

Não cabe a mim encontrar soluções, mas tenho algumas ideias: a abolição do segredo pontifício, por exemplo, equivalente ao segredo da investigação. Esta medida protege sobretudo o clero, em detrimento das vítimas. As sentenças dos tribunais religiosos devem ser tornadas públicas. Outra necessidade é da transferência sistemática dos dossiês: se o dossiê for tratado pelo tribunal de outra diocese, o bispo envolvido não se sentirá mais tentado a encobrir. Deveríamos também mudar os procedimentos que permitem chamar em causa a hierarquia, porque eles são ineficazes hoje. Aliás, este é um dos objetivos da próxima reunião no Vaticano, no final de fevereiro.

O que o senhor acha da "comissão independente" que a conferência episcopal francesa propôs instituir?

Já houve muitas iniciativas e reflexões interessantes por parte dos bispos, mas cinco anos depois da "tolerância zero" declarada pelo papa, o resultado é fraco. Desta vez, nomeiam uma comissão verdadeiramente independente, presidida por um ex-vice-presidente do Conselho de Estado. Ainda não conheço a composição, mas tenho confiança. Se me permitir, eu gostaria de me referir a Pedro no Novo Testamento: "Pois chegou a hora de começar o julgamento pela casa de Deus; e se começa primeiro conosco" (1Pd 1,17-18).

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