Pedofilia: A Igreja católica ainda continua doente

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05 Abril 2017

Quando é que vamos acabar com este câncer dos clérigos pedófilos? Com esta vergonha inscrita na frente de uma instituição de dois mil anos, uma Igreja considerada sagrada por mais de um bilhão de fiéis no mundo todo? Acreditava-se em algum tipo de “remissão”, após os esforços de contrição, de transparência, de “tolerância zero”, o diálogo aberto com as vítimas, os gestos e as palavras de “arrependimento”, o desbloqueio de somas consideráveis para compensar as vítimas dos abusos sexuais dos padres. Rompendo com anos de silêncio, de imobilismo e de fraude da lei, tanto canônica quanto civil, a política implementada pelos Papas Bento XVI (2005-2013) e Francisco levou a um grande número de relatórios perante a Justiça e a condenações firmes de padres abusadores.

A reportagem é de Henri Tincq, jornalista francês especializado em assuntos religiosos, publicada por Slate, 02-04-2017. A tradução é de Juan Luis Hermida.

Mas esta constante de remissão hoje se desfaz em pedaços. Pela primeira vez na televisão pública francesa, uma pesquisa em larga escala (“Investigação de Caixa”, produzido por Elise Lucet e transmitida em 21 de março pelo canal France 2), em conexão com as descobertas feitas pelos jornalistas de Mediapart, provam, como ainda é preciso, como a Igreja católica ainda está doente, impotente, minada diariamente pelas revelações e pelo medo de novos escândalos. Também continua parcial e tendenciosa, uma vez que este trabalho jornalístico revelou que, apesar dos progressos, aqui e ali, a Igreja hierárquica mantém o silêncio, fecha a tampa sobre estas coisas indizíveis – homens de Deus envolvidos em atos perversos e degradantes com crianças - e ainda cobre religiosos que renegam seus votos sagrados, violentam a autoridade moral que possuem e essa “paternidade espiritual” que eles reivindicam na sociedade.

As transferências confidenciais, um quebra-corações revoltante

Sem dúvida esta pesquisa peca por todos os defeitos do jornalismo “justiceiro”. É sem nuance, agressiva, dependente, apenas descreve os casos mal geridos ou deliberadamente escondidos, mostra apenas estatísticas gerais, sem fazer distinção entre os casos prescritos e os já conhecidos, as descobertas recentes, as condenações, os processos em andamento e os casos classificados. Mas ela abre os olhos para os compromissos episcopais, o silêncio das congregações conhecidas pelo seu zelo e esse fenômeno das “transferências confidenciais internacionais” de religiosos em missão em países distantes, escapando da justiça local e reintegrando-os discretamente a sua ordem na França. Os testemunhos recolhidos de jovens vítimas na Guiné e em Camarões são pungentes. É difícil acreditar que os líderes da Igreja prefiram ainda a impunidade dos predadores à escuta das jovens vítimas, para o bom funcionamento da justiça. A defesa da instituição no lugar da consolação dos queixosos. Quebra o coração de maneira revoltante.

Além disso - é esta a outra lição deste documentário da TV -, a Igreja se defende mal. Vemos o cardeal de Lyon, Philippe Barbarin, assediado por um ano no caso do padre Preynat - padre de Lyon, culpado de cometer dezenas de agressões sexuais e mantido no cargo -, fugir da câmera e delegar a sua defesa a um subordinado confuso. É difícil de entender, dados os métodos severos dos investigadores (desta forma horrível de Elise Lucet questionar o seu alvo na rua!), que a Conferência dos bispos da França seja incapaz de se posicionar frente aos às denúncias dos colegas, acusados de proteger os padres acusados de abuso de crianças e de manter silêncio.

Os bispos fazem a política da cadeira vazia

O fato de que os bispos convencidos de não denunciar conservem seus postos é incompreensível para os meios de comunicação e para a opinião pública. A Igreja não funciona de maneira alguma de forma piramidal como as grandes empresas “multinacionais” que habitualmente perseguem a equipe de “Investigação de Caixa”. Um bispo é nomeado diretamente pelo Papa de Roma. Ele só presta contas a ele. É o único senhor das suas decisões em seu “território” canônico (a diocese). E, portanto, não depende de uma “Conferência Nacional dos Bispos” (lugar de coordenação, sem autoridade), não tem autoridade direta sobre as congregações religiosas que têm as suas próprias regras de funcionamento.

Mas isso não absolve os bispos de dar explicações, de enfrentar as suas responsabilidades perante a justiça, a sua Igreja e a opinião pública, ao invés de praticar a política da cadeira vazia. É inimaginável que uma Conferência Nacional dos Bispos, mesmo sem poder real, não disponha, em uma área tão sensível, de verdadeiros profissionais de comunicação e serviços competentes, com bom conhecimento dos assuntos, das cifras, do estado avançado dos casos. Esse amadorismo, perfeitamente ilustrado nas recentes emissões, demonstra um despreparo culpável, uma incompetência formidável, a negação mais ou menos consciente para não considerar a liquidação dos assuntos internos de pedofilia como uma prioridade.

A Igreja da França não teve que lidar com o tamanho do escândalo comparável àquele que conhecemos dos Estados Unidos, da Irlanda ou da Alemanha e ela se comprometeu, mais cedo que seus vizinhos, na luta contra a pedofilia. A condenação, no ano 2000, do bispo de Bayeux (Monsenhor Pierre Pican) a três meses de prisão por não ter denunciado um padre pedófilo da sua diocese, agiu no momento como um eletrochoque. Os bispos adotaram imediatamente uma declaração sem equívocos: “Os padres que forem considerados culpados de atos de pedofilia deverão responder por seus atos perante a justiça”. O bispo acrescentou a este documento, “não posso e nem vou permanecer passivo, e menos ainda encobrir os atos criminosos” (novembro de 2000).

Com tiragem de 100.000 exemplares, distribuídos amplamente entre o clero e todos os responsáveis pelo treinamento de jovens, um folheto, concebido por médicos, advogados e psicólogos, intitulado “Luta contra a pedofilia na Igreja”, teve reedição ampliada em 2010.

Mas hoje continua a haver uma falha profunda entre a palavra oficial, coletiva e pró-ativa, e a suavidade dos atos da gestão local.

O caso de Philippe Barbarin, do nome do cardeal e atual arcebispo de Lyon, mostra como os Bispos da França ainda procrastinam antes de examinar as queixas das vítimas. Temendo casos duvidosos, as falsas acusações, eles continuam a mudar e a transferir os sacerdotes suspeitos ao invés de cercá-los, de falar sobre eles, de alertar as instâncias policiais e judiciais. Pior ainda, eles mantêm nas suas funções os sacerdotes já condenados, mesmo para tarefas mais discretas e modestas, como por exemplo, capelão de hospital.

O Papa Francisco questionado

Outro sentimento que se desenvolve hoje é que o Papa Francisco, tão ousado em suas reformas e tão popular desde a sua eleição há quatro anos em Roma, seja omisso nesse combate crucial contra a pedofilia do clero. Há certa decepção mesmo com ele. Sem dúvida ele não cessa de denunciar os abusos sexuais cometidos pelos padres contra as crianças. “São sacrifícios satânicos de crianças”, disse ele muitas vezes. Sem dúvida também, ele retomou e ampliou a política de “tolerância zero” lançada pelo seu predecessor Bento XVI e, neste quadro, ele procura o contato, no Vaticano e nas suas viagens ao estrangeiro, com as associações de ex-vítimas de padres abusadores.

Mas ele tem os meios para vencer esta batalha? A pergunta surge em Roma, onde ele estabeleceu uma Comissão pontifícia para a proteção de menores, para trabalhar na prevenção da pedofilia. Em 2014, ele queria criar um tribunal no Vaticano para julgar os bispos convencidos de encobrir os sacerdotes “pedófilos”. Na realidade, porém, esta Comissão para a proteção dos menores não conta com a representação das vítimas. A católica irlandesa Marie Collins, ela mesma vítima de abuso sexual por um religioso, acaba de bater à porta denunciando esta parte da Cúria que iria bloquear o Vaticano na luta contra a pedofilia. O Papa Francisco não reagiu a sua denúncia, o que causou um rebuliço.

Da mesma forma o Tribunal para os bispos está longe de ser operacional e de poder começar o seu trabalho. E por uma boa razão: o Papa continua a apoiar os bispos ou cardeais, como Philippe Barbarin na França ou o cardeal australiano Pell, acusado no seu país de não ter denunciado em tempo os padres pedófilos. Ele concedeu clemência a um padre italiano condenado pela justiça por abusos sexuais de nada menos do que cinco crianças!

O sentimento que predomina em Roma é que este Papa é duro nas palavras, mas fraco nas suas ações. A prioridade do seu pontificado é a “misericórdia”: por isso ele não suspende os padres pedófilos, oferece-lhes, por caridade cristã, levar uma vida de arrependimento, de penitência e de oração! Também ele recebeu com simpatia um padre casado vindo da diocese de Lyon, mas ele se recusa a receber a Palavra lançada, associação de Lyon de vítimas de padres pedófilos que é a fonte das revelações sobre o cardeal Barbarin. Este Papa, disse um especialista do Vaticano, “fala muitas vezes, com razão, dos ‘pobres’, mas ele fala somente dos ‘pobres’ economicamente. O que ele pensa realmente das ‘pobres’ vítimas das ações dos padres pedófilos, cuja vida está quebrada?”.

Algumas informações o envolvem diretamente. Antes de ser eleito em Roma, em março de 2013, o então arcebispo de Buenos Aires e Presidente da Conferência Episcopal Argentina, o cardeal Jorge Maria Bergoglio havia defendido um padre pedófilo em seu país, Julio Cesar Grassi, de quem o Supremo Tribunal confirmou a sentença de quinze anos de prisão. Apesar da sua condenação em primeira instância a partir de 2009, o Papa o manteve nas suas funções e ele jamais aceitou receber suas vítimas em Roma. No seu país, hoje, aguardamos que a Igreja faça a limpeza e expulse este sacerdote sulfuroso, mas tal decisão só pode ser tomada pelo Papa argentino. É um assunto embaraçoso, que destaca, como necessário, o caminho a percorrer para conter a onda e, finalmente, tornar a luta contra a pedofilia no clero uma verdadeira prioridade. E, de alguma maneira, uma condição da sua credibilidade.

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