Mulheres e abusos, dívidas do Papa. Artigo de Lucetta Scaraffia

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14 Janeiro 2019

“Mas a hierarquia só pensa nos homens, os discursos sobre as vocações se centram nas sacerdotais e nem sequer o sínodo sobre os jovens enfrentou os problemas das jovens. Apesar dos numerosos chamados do Papa Francisco, o antigo e consolidado costume de considerar as mulheres como algo inexistente não encontrou até agora nenhuma resposta séria”, escreve Lucetta Scaraffia, historiadora e diretora do suplemento feminino em L’Osservatore Romano. O artigo foi publicado no El País, 12-01-2019. A tradução é de Graziela Wolfart.

Eis o artigo.

Durante os primeiros anos de pontificado do Papa Francisco, uma revolução atravessou a vida da Igreja católica, que nas décadas anteriores havia se centrado, sobretudo, nos problemas de bioética, os quais eram difíceis e arriscados de enfrentar, e diante dos quais a Igreja, cuja postura parecia sempre muito rígida, nem sempre conseguia se apresentar como a defensora dos mais frágeis.

Francisco devolveu ao primeiro plano os pobres, representados hoje principalmente pelos migrantes, mas também pelos habitantes das áreas mais miseráveis do terceiro mundo, oprimidos pela miséria e pelos desastres ecológicos, enquanto que sua misericórdia se estendeu àqueles que, depois de um matrimônio, haviam formado uma nova família, assim como às mulheres que pediam perdão pelo pecado do aborto, e que até sua providencial intervenção deviam se dirigir a um bispo para obter a absolvição.

Sem dúvida, tratam-se de escolhas fundamentais, que pareciam ter voltado a colocar a Igreja, instituição muito discutida e criticada frente à modernidade, do lado dos "bons", o único em que uma instituição religiosa pode se situar para ser aceita. E os escândalos de pedofilia e vazamento de documentos que marcaram o pontificado de Bento XVI pareciam superados, se não resolvidos.

As novas acusações a membros do clero (entre eles cardeais famosos e poderosos como Pell, McCarrick e Barbarin) chegaram de forma repentina e inesperada e afetam não só países nos quais já haviam acontecido escândalos semelhantes, como os Estados Unidos e Alemanha, como também a América Latina, e inclusive a Argentina. Não parece que o escândalo provocado pelas acusações de abusos, encobrimentos e falta de sensibilidade para com as vítimas, irá se apagar a curto prazo: uma imagem devastadora que a Igreja deverá melhorar com medidas concretas, severas e urgentes.

Mas agora surge outra questão, a das mulheres inexistentes e invisíveis aos olhos das hierarquias eclesiásticas, acostumadas a dar seu serviço como feito. Hoje as religiosas já não aceitam condições vergonhosas de exploração e humilhação. Os episódios de rebelião são abundantes, quase sempre ignorados pelos meios de comunicação, como o protesto de algumas beneditinas suíças que, de um antigo monastério, com uma foto provocadora, pediram o voto para as religiosas no sínodo.

Isto está fazendo com que reapareça um fenômeno supervalorizado, o dos abusos e da violência de membros do clero às religiosas, classificados pelas hierarquias como relações românticas. Ao contrário, na maioria dos casos, trata-se de relações impostas por um homem com poder a uma mulher que não o tem, às vezes obrigada a suportá-lo por suas próprias superioras, temerosas de que se façam represálias contra a instituição.

A crise é confirmada pela rápida e dramática queda das vocações femininas: sem as freiras, que trabalham intensa e desesperadamente em todo o mundo, dando um testemunho cristão concreto, como a instituição resistirá?

Mas ninguém parece se dar conta da gravidade do problema, ninguém parece perceber que a violência contra as mulheres por parte de eclesiásticos às vezes provoca abortos, inclusive pagos por quem abusou delas, porque as freiras não têm dinheiro. Também as jovens leigas estão deixando a Igreja, e suas mães e avós, que sustentavam as paróquias como catequistas, ou organizando a assistência aos pobres e aos idosos, não encontram quem as substitua. Depois delas só resta o vazio.

Mas a hierarquia só pensa nos homens, os discursos sobre as vocações se centram nas sacerdotais e nem sequer o sínodo sobre os jovens enfrentou os problemas das jovens. Apesar dos numerosos chamados do Papa Francisco, o antigo e consolidado costume de considerar as mulheres como algo inexistente não encontrou até agora nenhuma resposta séria.

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