Francisco ainda está aquém das expectativas com as mulheres católicas, afirmam estudiosas feministas

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20 Abril 2018

Em cinco anos, o Papa Francisco liderou um chamado a salvar a humanidade da mudança climática, incentivou uma renovação na visão sobre justiça social e acolheu os católicos que estavam afastados da Igreja.

Mas suas questões com as mulheres diminuem o impacto positivo, consenso ao qual chegaram estudiosas feministas, entre outras, no painel de discussão que aconteceu no dia 16 de abril no colégio Xavier High School, nos Estados Unidos.

A reportagem é de Peter Feuerherd, publicada por National Catholic Reporter, 19-04-2018. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

"O Papa Francisco fica aquém das expectativas de toda a Igreja", disse Kate McElwee, diretora da Women's Ordination Conference (Conferência para a Ordenação das Mulheres) e co-patrocinadora do evento "Francis After Five: A Feminist Review" em conjunto com o Dignity New York, um grupo que promove os direitos LGBT dos católicos.

Parte do otimismo inicial com o papado se desgastou, disse uma palestrante.

"Em que ponto a nossa esperança com ele se torna negação?", perguntou Jamie Manson, colunista do NCR e editora de livros, dizendo que Francisco fica limitado nas questões sobre as mulheres pela "doutrina da Igreja de que a biologia é o destino".

Nas declarações papais, são atribuídos às mulheres os papéis de criação dos filhos, enquanto os homens ainda são vistos no contexto de uma liderança afirmativa. Segundo Manson, o Papa acredita que, como mulheres, "nossa primeira vocação e a mais essencial é a maternidade e a criação de uma família".

Embora Francisco tenha dado declarações positivas sobre as mulheres, ainda estão contextualizadas no Patriarcado, disse Manson. "Colocar alguém num pedestal não é tornar igual", disse Manson, que se descreveu como uma "mulher queer que se sente chamada ao sacerdócio desde os 12 anos de idade".

A visão da Igreja de que a complementaridade de gênero é a base para o casamento descarta todos os que acreditam nos direitos de união das pessoas LGBT. Francisco se recusa a mudar a doutrina da Igreja sobre direitos LGBT e contracepção, questões que continuam impactando pessoas LGBT e mulheres em todo o mundo, disse Manson.

Negar aos católicos LGBT o direito de se casar na Igreja, disse Manson, "cria constrangimento. Estamos dizendo que este amor não é digno".

Teresa Cariño, da pastoral da juventude e do ministério do jovem adulto da Igreja de Santo Inácio de Loyola, em Manhattan, disse que assistiu à eleição papal cinco atrás, com esperança e expectativas, quando ainda estava na faculdade. Descrevendo-se como fruto da área liberal católica de San Francisco Bay, na época ela sentiu que "era a nossa hora" com a eleição do papa latino.

Mas agora está decepcionada com sua liderança.

"A juventude católica está saindo da Igreja", pois os jovens crescem e ficam desiludidos com o ritmo da mudança, afirmou. "Por que ficar quando há tantos motivos para sair?" é o que ela ouve de seus contemporâneos. Ainda, como mulher filipina, ela diz que ficou animada com a encíclica de Francisco, "Laudato Si', sobre os cuidados com a casa comum", que pedia um movimento mundial para lidar com a mudança climática.

"Ficamos com o que vem a seguir. Ele não fez o máximo que podia para cumprir o que diz".

Como colaboradora paroquial, Cariño acredita que usar o sobrenome pode ter algum peso. Mas quando o gênero é identificado, sua influência é muitas vezes descartada, mesmo em assuntos rotineiros, como a administração de documentos sacramentais. Como mulher e colaboradora da Igreja, suas oportunidades de avanço ficam limitadas, declarou.

Ainda que Francisco não tenha mudado nada na doutrina da Igreja, ordenando apenas os homens, as palestrantes veem uma evolução positiva com o papado.

Marian Ronan, professora de estudos católicos no seminário teológico de Nova York, disse que Laudato Si' representou uma virada, inspirando o mundo a olhar mais profundamente o impacto da calamidade da mudança climática.

"A catástrofe ambiental é uma das duas maiores ameaças que a humanidade enfrenta na atualidade", disse Ronan, citando a ameaça de guerra nuclear como outro grande desafio. Em décadas, afirmou, "enfrentamos aniquilação biológica".

Francisco tem se concentrado no meio ambiente e priorizado a justiça social católica, assim como os papas anteriores priorizavam questões de moralidade sexual. Para Ronan, isso é um desafio necessário para o mundo, particularmente de Francisco às pessoas em países prósperos, que muitas vezes produzem muito mais poluentes do que países mais pobres.

Francisco, segundo ela, foi "uma bússola moral global mais poderosa do que os acordos de Paris" sobre a mudança climática.

Anne Barrett Doyle, co-diretora da bishopaccountablity.org, uma agência independente que monitora o histórico de abuso sexual da Igreja, disse que o histórico de Francisco sobre essa questão é difuso. Seu discurso tem sido forte, já que ele foi o primeiro papa a descrever a resposta da Igreja à crise de abuso sexual como um encobrimento que precisa ser corrigido.

Em suas declarações públicas, Francisco também claramente chamou os bispos a se responsabilizarem pela crise. Porém, suas principais reformas nessa área — uma Comissão Pontifícia e um tribunal para julgar bispos cúmplices — foram um fiasco em meio à oposição da Cúria e à morosidade.

Por vezes o discurso de Francisco não foi útil, disse Doyle, como ao dar atenção à acusação de "calúnia", às vezes usada para silenciar as vítimas de abuso sexual.

No entanto, a disponibilidade de Francisco para admitir seus erros traz esperança, disse Doyle. Ele voltou atrás em sua opinião sobre um bispo chileno acusado de ser cúmplice de abuso sexual clerical e convocou os bispos do país para irem ao Vaticano discutir sobre a crise. Que "cabeças vão rolar", segundo ela, é consenso entre os observadores da Igreja a respeito da situação no Chile.

Doyle disse que sua esperança em relação aos abusos sexuais, em grande parte, vem de fora da Igreja, pela ação das autoridades civis no Chile, na Austrália e em alguns estados dos EUA, que não estão dispostas a passar a mão na cabeça dos clérigos que foram cúmplices em casos de abuso. A busca sem precedentes dos gabinetes da diocese de Saginaw, em Michigan, por parte de autoridades interessadas em desvendar encobrimentos de acusações de abuso sexual é um exemplo para que autoridades da Igreja em outras dioceses sejam mais transparentes.

Dentre outros acontecimentos positivos citados pelo painel estão uma seleção de bispos considerados mais progressistas, o recente sínodo da conferência da juventude no Vaticano, que abordou os papéis das mulheres na Igreja e a tentativa do Papa de se aproximar dos católicos divorciados e recasados.

A mudança está acontecendo, disse Ronan, mesmo que não seja formalmente reconhecida nem tenha se transformado nas mudanças doutrinais que o grupo deseja. E ainda chamou atenção a um exemplo: deixaram que a investigação sobre as irmãs religiosas nos Estados Unidos, iniciada pelo Papa Bento XVI, caísse no esquecimento. As mulheres católicas, afirmou, precisam lutar por mudança, e estão encontrando um público mais compreensivo dentro das estruturas da Igreja em comparação à época anterior a Francisco.

Manson observou também outra mudança significativa que nunca teria acontecido sem este papado. O próprio painel de discussão, que atraiu cerca de 70 pessoas, realizado na biblioteca de um colégio jesuíta. Um evento como este nunca teria acontecido em um local católico antes de Francisco trazer uma abertura à discussão mais livre dentro da Igreja, declarou. Palestrantes concordaram que mulheres católicas promovendo a mudança na Igreja precisam usar essa oportunidade para serem ouvidas.

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