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Por: Lara Ely | Tradução: Isaque Gomes Correa | 13 Janeiro 2018

Mary Hunt é a voz católica que tensiona a contribuição do Papa Francisco para o debate sobre a participação feminina na Igreja. Teóloga feminista, cofundadora e codiretora da Women’s Alliance for Theology, Ethics and Ritual – WATER em Silver Spring, Maryland, EUA, um centro educacional feminista iniciado em 1983, ela entende que a retórica do papa é confusa quando se refere às mulheres, e conservadora no quesito "acolhimento de novas ideias", sobretudo quando se trata de ver a Igreja sob uma perspectiva feminista. Diz isso por acreditar que ele se furta de acolher as ideias que teriam condições de "desfazer a bagunça clerical instaurada por uma crise de confiança oriunda da pedofilia clerical e do acobertamento feito pelos bispos em todo o mundo". 

Integrante do movimento feminista, Mary Hunt faz palestras e escreve sobre teologia e ética com atenção especial para questões da libertação. Graduada em Filosofia pela Universidade de Maquette, fez mestrado na Escola Jesuíta de Teologia em Berkeley e em Estudos Teológicos na Escola de Divindade em Harvard. Ela recebeu o título de doutora em Teologia, pela União Teológica em Berkeley. Também possui formação em Educação Pastoral Clínica. Passou vários anos ensinando e trabalhando em questões de mulher e direitos humanos na Argentina como conselheira no Internato Fronteiriço no Programa de Missão.

Conferencista do XVIII Simpósio Internacional IHU. A virada profética de Francisco. Possibilidades e limites para o futuro da Igreja no mundo contemporâneo, ela participa no dia 22 de maio, das 16h às 17h30min, do minicurso A recepção do Papa Francisco no mundo anglo-saxão e no dia 23 de maio, 14h às 15h30min, fala sobre O lugar das Mulheres na Igreja: possibilidades e limites na Igreja hoje.

Eis a entrevista.

IHU On-Line - O feminismo é uma questão emergente nos debates contemporâneos. Como a Igreja vê esta causa?

Mary Hunt - Há duas respostas distintas ao feminismo por parte da hierarquia da Igreja Católica de Roma. A primeira é uma rejeição absoluta em que os líderes clericais viram, corretamente, que o feminismo trata da igualdade fundamental de todas as pessoas, visão que eles não compartilham. Assim, a partir de meados da década de 1960 até o começo dos anos 2000, esta visão predominou. Daí que a Igreja institucional rejeitou as aberturas à ordenação de mulheres ao diaconato, ao presbitério, ao episcopado. As suas lideranças não aceitaram o direito das mulheres ao controle de natalidade e ao aborto conforme achassem melhor.

As mulheres não eram contratadas para fazer parte sequer dos departamentos da Igreja onde a ordenação não é critério necessário para o cargo. Embora estes possam parecer temas que possuem um impacto somente sobre algumas poucas pessoas, na realidade eles lançam uma certa sombra ideológica que dá a permissão para que outros tratem as mulheres como cidadãos de segunda classe. Se isso está tudo bem para os que alegam ter conexões divinas, então está tudo bem para os demais também.

Além disso, o Vaticano como cidade-Estado, ou seja, como um governo, conduziu iniciativas antifeministas em várias conferências da ONU no Cairo (1994) e em Pequim (1995), em conjunto com outros governos misóginos para impedir o consenso em temas relativos a mulheres e meninas. Esta forma de rejeição do feminismo teve consequências negativas sérias especialmente em países onde a Igreja Católica possui um impacto na legislação e no acesso a opções reprodutivas.

A segunda reação, mais recente e, de certo modo, mais sutil, tem sido a tendência, por parte de lideranças vaticanas, a aceitar um feminismo cristão ou, até mesmo, católico, como se ele fosse, de certa maneira, diferente da norma histórica. Distinções são feitas entre feministas que apoiam o direito ao aborto, direitos LGBTIQs, etc. e feministas que aderem às visões teológicas da Igreja Católica de Roma a respeito destes temas que tendem a ser o oposto.

Esta segunda abordagem tem o impacto de dificultar a categorização do Vaticano como sendo antifeminista. Mas, com certeza, ele não é pró-feminista de modo significativo. Portanto, não há mudanças estruturais na Igreja institucional para sinalizar um reconhecimento da igualdade das mulheres, nem há movimentos para alterar a linguagem e o imaginário sobre o divino para refletir o todo da criação. Pelo contrário, há uma aceitação implícita do feminismo, mas segundo a definição singular própria do Vaticano.

IHU On-Line -A presença do Papa Francisco à frente da Igreja amplia a voz e o protagonismo feminino?

Mary Hunt - Ainda que possa parecer contra-intuitivo para algumas pessoas, eu acho que está mais difícil desenvolver o protagonismo feminista durante o papado de Francisco. Francisco é uma figura singular na qualidade de o primeiro latino-americano e o primeiro jesuíta a ser papa. Ele segue os papas teológica e politicamente conservadores que deixaram uma marca coletiva na Igreja institucional, especialmente em termos de clérigos conservadores nomeados para a maioria dos postos influentes. Além disso, a crise de confiança ocasionada pela alta incidência de pedofilia clerical e pelo acobertamento feito pelos bispos em todo o mundo deixou a instituição em frangalhos.

Parece ser um momento bom para acolher novas ideias – incluindo o pleno empoderamento das mulheres que irão, inevitavelmente, desfazer a bagunça clerical. Francisco, porém, não fez isso. Na melhor das hipóteses, a sua retórica é confusa; na pior das hipóteses, é horrível. Ele persiste na linguagem do “gênio feminino” introduzido pelos seus antecessores, num sinal claro de que prefere manter as mulheres em separado e em condição desigual, sem mencionar o que ele deve achar sobre os homens e a falta, quiçá implícita, de gênio deles. A sua observação a respeito das teólogas como a “cereja do bolo” provou-se desastrosa a qualquer tentativa que se possa fazer de que ele tentou mudar o machismo de Roma.

O papa criou uma comissão para estudar a questão das mulheres e o diaconato. Mas não está claro que ele está aberto ao diaconato de transição para elas, um diaconato que leva ao sacerdócio. Parece mais provável que o papa tem em mente o diaconato feminino permanente, ou pior: uma espécie de programa diaconal que efetivamente colocaria as mulheres a trabalhar sem qualquer poder decisório. A jurisdição, o poder de fazer escolhas, fica reservada aos ordenados. Francisco designou várias mulheres para coordenar agências no Vaticano. Elas são, porém, previsivelmente conservadoras e estão a lidar com questões de família. Então é difícil dizer que ele não tem promovido a mulher, mas é igualmente difícil dizer que está promovendo mulheres que sejam outra coisa que não clones ideológicos dos homens que as nomearam.

Esta dinâmica é o que, em vez de facilitar, torna mais difícil fazer com que elas sejam protagonistas. Os nossos esforços em garantir a presença de lideranças femininas, que elas participem nas tomadas de decisão, que se tenham direitos humanos básicos como o acesso ao controle de natalidade e ao aborto, etc., deparam-se com um silêncio total ou com uma forte oposição. Feminista Francisco não é.

IHU On-Line -Que novos papéis para a mulher no mundo contemporâneo se discutem na perspectiva feminista?

Mary Hunt - Eu não vejo progresso real algum na questão dos papéis da mulher. Fico feliz que o Papa Francisco tenha se encontrado com a arcebispa da Suécia, Antje Jackelen, quando participou do aniversário de 500 anos da Reforma Luterana em Lund, na Suécia. Encontrar-se com uma arcebispa só pode ter ampliado a perspectiva que ele tinha. Mas tais encontros são fugazes e certamente não bastam para fundamentar o tipo de mudança estrutural profunda que a Igreja Católica precisa.

O perigo que percebo é que, se e quando as mulheres assumirem os papéis conforme são concebidos atualmente, elas reforçarão e irão reinscrever as estruturas que são, finalmente, destrutivas, não importa o gênero de quem as ocupa. Por exemplo, para algumas pessoas, incluindo algumas mulheres, ter o poder de tomar decisões sem responsabilização diante da comunidade é simplesmente inadequado. Da mesma forma, para que as mulheres sejam ordenadas ao sacerdócio com a noção de uma diferença ontológica entre elas e os chamados leigos é um absurdo. Uma perspectiva feminista plena da Igreja irá propor:

a) um comando compartilhado

b) processos decisórios democratizados

c) um leque amplo de estilos e perspectivas litúrgicas e teológicas

d) uma abertura ampla a pessoas de vários credos e pessoas de nenhuma religião, visto o quanto elas têm a ensinar aos católicos.

IHU On-Line -Como a virada profética de Francisco e os desafios da Igreja no presente século perpassam a perspectiva feminista?

Mary Hunt - Não percebo Francisco como tendo feito uma “virada profética” com respeito às mulheres. Não acho o termo “perspectiva feminista” muito significativo. Em vez disso, eu faria um contraste entre as visões profundamente misóginas que continuam a dominar na Igreja institucional com uma visão feminista que amplie e aprofunde a participação, torne horizontal o modelo vertical atual de Igreja, e que invista cada católico batizado com as responsabilidades ministeriais advindas do batismo.

O meu medo é que a reação negativa a Francisco se expresse na eleição de um papa mais conservador da próxima vez. É provável que quaisquer ganhos que Francisco tenha feito na questão das finanças, nas tomadas de decisão locais a respeito das anulações matrimoniais, por exemplo, sejam rapidamente revertidas. Visto que praticamente nada de natureza estrutural mudou na questão da mulher, eu não espero ver muitas mudanças. Tomara que eu esteja equivocada.

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