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12 Fevereiro 2013

João Paulo II costumava ser conhecido como o papa das surpresas, sempre fazendo coisas que os pontífices romanos simplesmente não haviam feito antes. Com a eleição de Bento XVI, muitos acreditavam que a era das novidades papais havia chegado ao fim, já que Bento XVI sempre foi um homem da tradição, e as principais linhas do seu papado eram bastante previsíveis a partir das preocupações teológicas e culturais que ele havia manifestado durante uma longa vida pública.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada por National Catholic Reporter, 11-02-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

No fim, no entanto, Bento XVI mostrou-se capaz de surpreender a todos, tornando-se o primeiro papa a renunciar voluntariamente ao seu ofício em séculos e o primeiro a fazer isso na era moderna saturada de mídia. Reconhecendo o que ele chamou de "incapacidade para administrar bem o ministério que me foi confiado", Bento XVI anunciou que irá deixar o cargo efetivamente às 20h de Roma no dia 28 de fevereiro.

Imediatamente, a decisão de Bento XVI ganhou tanto amplos elogios como um ato responsável e humilde, quanto levantou uma montanha de perguntas. A principal delas: qual será exatamente o papel de um papa aposentado? E, naturalmente, muitos já começaram a especular quem irá captar o apoio de dois terços do Colégio dos Cardeais necessários para assumir o cargo mais alto da Igreja.

A decisão de Bento XVI também significa que o debate sobre o seu legado está oficialmente aberto agora e, assim como para todas as coisas, ele provavelmente irá esboçar vereditos muito diferentes dependendo de quem realizar a avaliação.

Considerado entre os teólogos católicos mais talentosos da sua geração, Bento XVI foi o que os historiadores da Igreja chamam de "papa ensinante", em oposição a um administrador. Sua paixão foi investida em seus documentos de ensino, seus discursos em viagens ao exterior, sua catequese regular no Vaticano e nos três livros sobre a vida de Cristo que ele publicou. Esse ensinamento muitas vezes chama a atenção das pessoas como profundas e surpreendentemente livres de margens ideológicas.

Mesmo alguns dos mais ferozes críticos do papa em outras frentes expressaram admiração.

Quando Bento XVI publicou a sua encíclica Deus Caritas Est, em 2005, sobre o amor humano, os aplausos também vieram do teólogo suíço Hans Küng, um antigo colega de Joseph Ratzinger e uma voz de liderança da dissidência católica liberal.

"O Papa Ratzinger, com o seu inimitável estilo teológico, aborda uma riqueza de temas do eros e do ágape, do amor e da caridade", disse Küng. Ele chamou a encíclica de "um bom sinal" e expressou a esperança de que fosse "recebida calorosamente, com respeito".

Muitos observadores acreditam que quatro discursos fundamentais proferidos por Bento XVI – em Regensburg, na Alemanha, em 2006; no Collège des Bernardins, em Paris, em 2008; no Westminster Hall, em Londres, em 2010; e no Bundestag, na Alemanha, em 2011 – serão lembrados como obras-primas que lançaram as bases para uma simbiose entre fé, razão e modernidade.

Se Bento XVI nunca foi o "queridinho da mídia" como o seu antecessor, mesmo assim ele se saiu admiravelmente bem na cena pública. Suas viagens atraíram multidões entusiasmadas, e a participação em suas audiências públicas, na realidade, ultrapassaram os números de João Paulo II. Ele ainda desenvolveu um toque popular, lançando a sua própria conta no Twitter e inspirando um livro infantil supostamente escrito por seu gato, Chico [Joseph and Chico: The Life of Pope Benedict XVI as Told by a Cat, de Jeanne Perego].

No entanto, para cada triunfo, o pontífice cerebral também correu precipitadamente rumo à crise.

Logo no início, o discurso de Bento XVI em Regensburg provocou o protesto islâmico por causa de sua citação de um imperador bizantino que ligava Maomé à violência. Igrejas foram bombardeadas na Cisjordânia e na Faixa de Gaza, enquanto uma irmã religiosa italiana foi morta a tiros na Somália. No aniversário de um ano do discurso, um padre missionário foi morto na Turquia.

Era um prenúncio do que estava por vir. Em 2011, os jornalistas italianos Andrea Tornielli e Paolo Rodari publicaram um livro de 300 páginas que documentava as crises mais notórias durante os anos de Bento XVI, incluindo:

• Os grandes escândalos de abuso sexual, que explodiram nos Estados Unidos em 2002 e depois varreram a Europa em 2010. Essa segunda onda trouxe um exame crítico do histórico pessoal de Bento XVI, incluindo um caso quando ele era arcebispo de Munique no fim dos anos 1970, em que um padre pedófilo escapou pela tangente sob a supervisão vaticana enquanto a instituição se arrastava para tomar uma atitude. Como papa, havia uma crítica persistente de que as desculpas de Bento XVI e os encontros com as vítimas não eram acompanhados pela ação, incluindo a responsabilização de bispos errantes.

• A decisão de Bento XVI em 2007 de tirar o pó da missa em latim, incluindo uma controversa oração da Sexta-Feira Santa pela conversão dos judeus. No fim, o Vaticano reviu a oração para satisfazer as preocupações judaicas, levantando a questão de por que alguém não pensou em fazer isso antes de a tempestade explodir.

• A revogação da excomunhão de quatro bispos tradicionalistas em 2009, incluindo um que negava que os nazistas haviam usado câmaras de gás e que afirmava que as provas históricas são "extremamente contra" o fato de Adolf Hitler ser o responsável pela morte de 6 milhões de judeus. O caso trouxe consigo uma angustiada carta pessoal de Bento XVI para os bispos do mundo, pedindo desculpas pela forma como foi tratado.

• Os comentários feitos por Bento XVI a bordo do avião papal para a África em 2009, no sentido de que os preservativos pioram a Aids. Dentre outras coisas, essas palavras trouxeram consigo uma primeira censura de um papa por parte do parlamento de um país europeu (Bélgica), enquanto o governo espanhol transportou um milhão de preservativos para África em protesto.

O fato de essa ser uma lista longe de estar completa é uma medida de como as coisas às vezes eram ruins.

Os autores também poderiam ter incluído a viagem de Bento XVI em 2007 para o Brasil, onde ele pareceu sugerir que os índios deviam ser gratos aos colonizadores europeus; a reação a um decreto de 2009 de aproximar da santidade o controverso Papa Pio XII, da época da Grande Guerra; e o surreal "caso Boffo", de 2010, com acusações de que altos assessores papais haviam fabricado documentos policiais falsos para difamar um jornalista católico italiano, incluindo a alegação de que ele havia assediado a namorada de um homem com quem ele ele queria continuar um caso gay.

Esse padrão atingiu um crescendo com o notório caso "Vatileaks" em 2012, envolvendo uma onda de documentos secretos do Vaticano que apareceram nos meios de comunicação italianos, em que os mais sérios apresentavam alegações de corrupção financeira e nepotismo. Uma investigação acabou com a prisão, o julgamento, a condenação e o perdão de Paolo Gabriele, um leigo italiano casado que atuava como mordomo de Bento XVI desde 2006, por ter sido a "toupeira" dos vazamentos.

Para muitos observadores, o caso capturou o Vaticano em sua postura menos edificante e fomentadora de combate, encobrimentos e desordem.

Na verdade, o histórico de Bento XVI como um administrador também incluiu alguns avanços. Em grande parte, ele nomeou pessoas de integridade pessoal para cargos de chefia; ele submeteu a Igreja a várias reformas em torno do abuso sexual; e lançou uma espécie de glasnost financeira, incluindo a abertura do Vaticano pela primeira vez à inspeção externa das suas políticas antilavagem de dinheiro. A narrativa geral de disfunção, no entanto, tornou essas histórias difíceis de contar.

Bento XVI evitou amplamente a geopolítica, raramente posicionando-se na linha de frente da história, como João Paulo II. Seu foco estava mais na vida interna da Igreja, chamando-a a um senso mais forte de identidade católica tradicional diante de uma era altamente secular. Nesse sentido, Bento XVI consolidou a direção "evangélica" mais conservadora definida por João Paulo II.

Bento XVI repetidamente denunciou o casamento homossexual, o feminismo radical e uma "ideologia do gênero", provocando a reação de grupos de mulheres, de liberais seculares e da ala mais progressista do seu próprio rebanho. Ele levou a prática litúrgica, uma paixão especial, para um sentido mais tradicional. Ao mesmo tempo, alguns aspectos do seu ensino também irritaram a direita, incluindo a sua crítica ao capitalismo e uma forte ênfase ambiental, razão pela qual foi apelidado de "papa verde".

O pontífice também trabalhou o músculo disciplinar. Uma repressão de grande porte foi lançada contra a Leadership Conference for Women Religious, o principal grupo de lideranças das ordens femininas dos Estados Unidos; teólogos liberais foram censurados, incluindo vários padres irlandeses de alto perfil e a Ir. Margaret Farley, das Irmãs da Misericórdia, nos Estados Unidos; e o padre norte-americano Roy Bourgeois foi excomungado devido ao seu apoio à ordenação de mulheres.

No fim, o primeiro rascunho da história talvez se resuma a isto: Bento XVI era um magnífico intelectual público, uma mistura complexa como administrador, um introvertido como estadista, e um líder da Igreja cuja "política de identidade" animou alguns e horrorizou outros.

Independentemente de qualquer outra coisa que se possa dizer, ninguém contesta que Bento XVI era um afiado crítico cultural. Ele fez perguntas perspicazes tanto para a Igreja quanto para o mundo, e ofereceu suas próprias respostas provocadoras, provando assim que o catolicismo institucional ainda tem algum gás intelectual de sobra no tanque. Nesse sentido, o primeiro-ministro britânico, David Cameron, pode ter oferecido o melhor epitáfio durante a despedida ao pontífice no aeroporto de Birmingham, no dia 20 de setembro de 2010, após uma viagem de quatro dias na Escócia e na Inglaterra.

"Santo Padre", disse ele, "você nos fez sentar e pensar".

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