Dom Pedro Casaldáliga, um profeta em meio ao povo

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11 Agosto 2020

"Pedro Casaldáliga, não escolheu ser profeta, tal missão acabou sendo o resultado de sua abertura ao Espírito Santo e de sua atenção aos clamores do povo e do tempo, bem como da conjuntura na qual ele esteve inserido", escreve Fábio Pereira Feitosa, historiador especialista em Educação.

Eis o artigo.

O ano era 1968, o Brasil assistia o endurecimento do Governo Militar, sendo este promovido pela publicação do Ato Institucional nº 5, por meio do qual o Presidente da República poderia decretar a intervenção nos estados e municípios, bem como suspender os direitos políticos de qualquer cidadão pelo prazo de 10 anos e cassar os mandatos eletivos federais, estaduais e municipais.

A Igreja Católica naquela conjuntura acabava de vivenciar o Concílio Ecumênico Vaticano II (1962-1965), convocado por João XXIII e continuado por seu sucessor, o Papa Paulo VI. Ao verificarmos o que foi este evento, percebemos que ele consiste no maior acontecimento religioso do século XX e em uma das maiores reformas ocorridas ao longo da história da Igreja. A década de 1960 também se caracteriza pelo início dos esforços desta instituição e de seus membros para aplicar as diretrizes conciliares.

A década de 1960, no Brasil, também foi marcada pela chegada de um jovem padre claretiano vindo da Espanha, estamos falando do Padre Pedro Casaldáliga. Ao chegar ao Brasil, Padre Pedro foi enviado ao Mato Grosso, que naquela época era uma região caracterizada pela pobreza e marginalização social que contrastava com a situação vivida pelos ricos latifundiários daquele estado.

Diante daquela situação desumanizadora e legitimado pelas diretrizes conciliares, o então Padre Pedro Casaldáliga acabou tomando consciência da terrível situação à qual muitos filhos de Deus estavam submetidos e assim fez de sua vida um ato de entrega aos mais pobres e excluídos da sociedade, passando a exercer seu ministério de forma profética e como tal acabou pagando um alto preço: foi perseguido pelas elites locais, bem como por setores mais conservadores da Igreja, foi taxado de comunista, sofreu com ameaças de expulsão, foi vítima de atentados contra a sua vida e perdeu amigos, como o Padre João Bosco Penido Burnier.

Pedro Casaldáliga não escolheu ser profeta, tal missão acabou sendo o resultado de sua abertura ao Espírito Santo e de sua atenção aos clamores do povo e do tempo, bem como da conjuntura na qual ele esteve inserido. Assim, no dia 27 de abril de 1970, imbuído de uma coragem típica dos profetas que anunciam o Reino, mas também denunciam as injustiças, ele publicou um texto intitulado: “Escravidão e feudalismo no norte do Mato Grosso”. Neste documento ele denunciava as gritantes injustiças tão comuns naquela região. Tal texto lhe rendeu a alcunha de comunista.

Em 27 de agosto de 1971, O Papa Paulo VI o nomeou bispo da Prelazia de São Félix do Araguaia. Seu pastoreio à frente daquela Prelazia foi caracterizado pela proximidade com o seu povo, pelo engajamento com as causas sociais e pela defesa dos povos indígenas e dos pequenos agricultores. Ajudou a fundar o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) e a Comissão Pastoral da Terra (CPT).

Como vimos anteriormente, Dom Pedro Casaldáliga por várias vezes teve a sua vida ameaça, em uma delas o padre João Bosco Penido Burnier acabou tombando em seu lugar no ano de 1976. O tempo passou, o vigor da juventude se foi, mas Dom Pedro continuava incansável na luta pelos direitos humanos e assim, em dezembro de 2012, foi obrigado a deixar a sua casa, após receber novas denúncias de morte e então foi levado por agentes da Polícia Federal para um local seguro.

Em virtude de sua intensa atividade pastoral em prol dos mais pobres e marginalizados, Dom Pedro Casaldáliga tornou-se um símbolo para os movimentos sociais, mesmo quando isso representava constantes riscos de morte.

Recentemente, Dom Pedro Casaldáliga nos deixou, voltou para a casa do Pai, lá com toda certeza encontrou com seus irmãos de Episcopado Dom Helder Câmara, Dom Paulo Evaristo Arns, Dom Luciano Mendes, Dom Marcelo Cavalheira, Dom Adriano Hipólito, Dom Fragoso, Dom José Maria Pires e Tomás Balduíno. Estes homens foram Dons e profetas do Reino e hoje são intercessores para aqueles que se dedicam às causas sociais e ao Anúncio do Reino e da Boa Nova em ambientes marcados pela desigualdade, abandono e descrença.

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