Uma Igreja carismática, pessoal e digital? O catolicismo pós-pandemia. Artigo de Marco Marzano

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21 Julho 2020

Quem saiu vitorioso e fortalecido dessa situação foram os sacerdotes “carismáticos”, o habilíssimo e telegênico papa argentino, os bispos mais “smart” no plano da comunicação, os padres mais “sociais” e criativos, os mais capazes de imprimir a sua própria marca pessoal nas celebrações online ou em outras intervenções em rede.

A opinião é do sociólogo italiano Marco Marzano, professor da Universidade de Bérgamo, em artigo publicado na revista MicroMega, de junho de 2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Entre as medidas decididas pelo governo italiano no início da crise sanitária da Covid-19, estava a de suspender por um tempo indeterminado a celebração de todas as cerimônias religiosas e das atividades pastorais e recreativas a elas ligadas.

A Conferência Episcopal da Igreja Católica italiana se adaptou pelo menos inicialmente e convidou padres e párocos a obedecerem às indicações do governo. Eu diria que, com algumas lamentáveis exceções, a disposição foi geralmente respeitada.

Mesmo na fase 1 da emergência, as portas das igrejas permaneceram em grande medidas abertas, mas a entrada para os fiéis individuais só era permitida no respeito das normas mais gerais que regulavam a mobilidade de todos nós naquele período excepcional. Em outras palavras, não foi possível visitar igrejas distantes do próprio local de residência.

Naturalmente, é difícil prever agora todas as consequências que o longo confinamento e o lento retorno terão sobre o catolicismo italiano em médio e longo prazo, se e como esse período extraordinário incidirá até mesmo sobre a velocidade e a direção do processo de secularização e sobre a relação entre os fiéis e a instituição religiosa.

O que eu tento analisar aqui, com a emergência ainda em andamento, é, por um lado, as mudanças mais imediatas que a crise produziu e algumas tendências de fundo que elas poderiam derivar; por outro, os elementos que essa situação única tornou mais visíveis, os aspectos estruturais sobre os quais finalmente se jogou luz no momento da verdade, nesta inédita conjuntura histórica.

Alguns têm reflexos globais e dizem respeito ao soberano católico, ao papa e ao seu papel; outros, à Igreja italiana como um todo: bispos, padres e leigos. Vou abordá-los em seguida.

“L’église c’est moi”

A história humana, como se sabe, é cheia de paradoxos, de nêmesis inesperadas. A longa quarentena da pandemia também produziu a de um papa que deveria levar a Igreja de volta ao espírito do Concílio Vaticano II, a uma gestão mais colegial e sinodal e, em vez disso, viu, com uma intensidade cada vez maior, a concentração em si mesma os holofotes da opinião pública, secular e religiosa.

Como nunca antes, durante o fechamento, o papa conquistou toda a ribalta do catolicismo, acabando por coincidir com a Igreja, por se tornar a Igreja, por fagocitá-la e subsumi-la em si mesmo. Por ocasião das pandemias pré-modernas, até mesmo o rosto do soberano pontífice era desconhecido para a grande maioria dos fiéis, assim como a sua voz e o seu corpo.

Desta vez, no entanto, nós vimos Francisco caminhando sozinho pelas ruas de Roma, rumo à Igreja de San Marcellino, na Via del Corso, para rezar diante do crucifixo já adorado no século XVI para afastar a peste, celebrando a Via Sacra pascal no dia 10. abril e, sobretudo, rezando em solidão no dia 27 de março, ao pôr do sol de uma Praça de São Pedro deserta, debaixo de um céu plúmbeo e de uma chuva torrencial, acompanhado pela sugestiva trilha sonora do grasnar das gaivotas.

Em todas essas ocasiões, Bergoglio registrou audiências recordes, shares muito altos. As suas missas cotidianas em Santa Marta, transmitidas todos os dias pela Rai e pela Tv2000 às 7h da manhã, também se tornaram um compromisso fixo para mais de um milhão de italianos, muitos dos quais clamam para que elas sejam transmitidas de forma estável, mesmo depois que a quarentena terminar.

Durante as grandes celebrações, Francisco se mostrou capaz de usar um tom solene, enquanto nas missas cotidianas em Santa Marta o teor das suas homilias é simples, o perfil é muito baixo e quase resignado, a prosa, repleta de exemplos tirados da vida cotidiana facilmente compreensíveis para qualquer um. Até mesmo os paramentos nessas ocasiões feriais são muito sóbrios: a casula é pobre, e, em geral, “a mercadoria ficou nas prateleiras”, como um padre me sugeriu.

Comparado com o seu antecessor Joseph Ratzinger, tão semelhante nas poses e nos conteúdos a um professor tímido, mas severo, Bergoglio se parece, especialmente nas missas feriais, nas quais ele fala de improviso e provavelmente de forma mais autônoma, sem a ajuda de colaboradores, a um humilde pároco de aldeia, de meios de expressão modestos e bem enraizado na linguagem e na cultura da parte menos escolarizada do povo italiano.

Foi precisamente essa simplicidade, percebida também por muitos espectadores cultos e refinados como uma virtuosa essencialidade evangélica e sintoma de autenticidade, que se revelou como uma das suas armas vencedoras nesses sete anos de pontificado.

De modo mais geral, no campo da comunicação, a Igreja se beneficiou plenamente, por ocasião do confinamento mundial, da sua estrutura piramidal e da imensa vantagem de dispor de um único grande monarca, que, aliás, é também um comunicador muito hábil. Nenhum outro grupo religioso e, eu diria, também nenhuma organização política desfrutou de uma vantagem tão formidável.

De sua parte, o pontífice trabalhou duro para fortalecer e consolidar a posição de primado, especialmente no nosso país (aquele em que ele reside e aquele em que a sua popularidade talvez seja maior, também devido ao fato de o italiano ser a língua das suas missas e celebrações).

Uma das estratégias às quais o Papa Francisco recorreu para esse fim foi a de se contrapor sistematicamente à CEI, a conferência dos bispos italianos (em cuja cúpula, aliás, o próprio Bergoglio colocou uma figura pálida, politicamente incolor e muito fraca como o cardeal Gualtiero Bassetti).

Na fase mais exigente da luta contra a pandemia [na Itália], em meados de março, quando os bispos deram mostras de aceitar sem protestos a decisão do governo de suspender as cerimônias religiosas, o papa se moveu em uma direção radicalmente contrária, lembrando que as medidas drásticas (como o fechamento das igrejas e a suspensão das missas) nem sempre “são boas” e reiterando a importância de os padres estarem perto do povo e de levarem a comunhão à casa dos doentes. Pouco depois, ele deu ordens para reabrir as portas das igrejas romanas, fechadas apenas algumas horas antes pelo seu vigário.

Pelo contrário, quando a retomada dos serviços religiosos foi excluída desde o início da fase 2, e a CEI, ameaçando fogo e chamas, protestou vigorosamente, acusando o governo de intenções liberticidas, o papa novamente repudiou os bispos, mas, desta vez, por razões diametralmente opostas, ou seja, invocando “a graça da prudência e da obediência às disposições, para que a pandemia não volte”.

São movimentos que poderiam ser interpretados como o sinal de uma política ondulante ou até como um verdadeiro desvio cognitivo por parte de um octogenário mentalmente cansado. Em vez disso, eu acho que se tratou da tentativa de Bergoglio de aparecer em todas as situações como a única verdadeira fonte da política eclesial, de eliminar qualquer possível concorrente, de abater a reputação de todas as outras fontes institucionais.

Mais uma vez, “l’église c’est moi”. O empreendimento foi naturalmente coroado pelo sucesso: especialmente no segundo caso, a CEI teve que se adequar às pressas, curar-se rapidamente das suas indisposições e, assim, mostrar a todos que o chefe é sempre um, e um só, e que, em relação ao soberano, os outros hierarcas não importam nada, são mera tropa complementar.

Francisco também encarnou a Igreja de outros modos: por exemplo, recorrendo a todos os poderes do vigário de Cristo que intercede junto a Deus pela salvação de toda a humanidade ou concluindo a oração solitária do dia 27 de março com o “decreto de urgência” da indulgência plenária, o cancelamento generalizado das penas temporais, uma espécie de anistia universal. Na qualidade de “mediador especial”, o Papa Bergoglio contou ainda que havia pedido pessoalmente a Deus, diante do crucifixo da Igreja de San Marcellino, que parasse a pandemia. O grande suspiro mostrado ao mundo depois de subir as escadas de São Pedro pareceu representar e resumir simbolicamente, por parte do papa, os esforços do mundo inteiro.

Como de costume, além disso, o pontífice reiterou a centralidade da sua figura também com algumas intervenções pontuais sobre as questões econômicas e políticas, sobre os muitos problemas sociais gerados pela grave pandemia. Como se sabe, esse é um dos campos que Francisco prefere e que lhe permite obter, com discursos inevitavelmente genéricos e muito vagos e, de todos os modos, sempre desprovidos daquela concreta assunção de responsabilidade que deriva do fato de ocupar um cargo de governo, um lucro fácil e sem riscos em termos de popularidade.

A pandemia, nesse plano, também permitiu que ele evocasse, pelo menos implicitamente, o fantasma da punição divina, por exemplo quando ele falou, ainda na celebração do dia 27 de março e em referência aos estilos de vida que precederam a difusão do vírus, de “hábitos aparentemente salvadores” ou de “estereótipos que mascaravam o nosso ego”, de sociedades que “seguiam a toda a velocidade, sentindo-se fortes e capazes de tudo”, incapazes de parar diante dos apelos de Deus, e de indivíduos iludidos de poderem “permanecer saudáveis em um mundo doente”.

Entrevistado pelo seu biógrafo Austen Ivereigh, Francisco desejou explicitamente a clara desaceleração da produção e do consumo. A esperança do pontífice é, como sempre, a de uma conversão que saiba “reorientar o mundo para Deus”.

A investidura definitiva como príncipe e símbolo único do catolicismo chega, para Francisco, em um momento muito particular e propício. Há muito tempo, Bergoglio imprimiu no seu pontificado, no terreno intraeclesial, uma clara curva à direita: com a exortação apostólicaQuerida Amazônia, ele negou peremptoriamente qualquer hipótese, até mesmo mínima, de mudança no regime do celibato obrigatório do clero; com a criação de uma comissão sobre o diaconato feminino, repleta de conservadores e sem sul-americanos, fechou de fato, por um longo tempo, toda abertura a uma inclusão das mulheres no governo da Igreja.

Ao alinhar a sua posição com as do cardeal Robert Sarah e de Ratzinger (autores do discutido volume “Do profundo de nosso coração” [1]), Bergoglio forneceu aos setores do establishment católico mais preocupados com a eventualidade de uma séria virada reformista uma inequívoca e muito sólida garantia de ortodoxia e de continuidade com os pontificados anteriores. A partir desse front, toda perplexidade residual sobre o pontífice desapareceu substancialmente. A direita entendeu que as diferenças com Bergoglio diziam respeito a aspectos secundários, questões, mais do que qualquer outra coisa, de estilo e nunca de substância.

No outro lado, o progressista, o choque diante da virada à direita foi compensado pela apreciação pelas tantas declarações de Bergoglio sobre os temas sociopolíticos gerais.

Em suma, os conservadores gostam de Francisco quando ele fala de Igreja, doutrina e moral; os progressistas, quando ele fala de outra coisa, de questões diferentes das eclesiais. A principal consequência dessa situação, portanto, é que o papa não tem inimigos neste momento. E isso contribui para fazê-lo aparecer ainda mais como um príncipe absoluto, um senhor incontestável.

O “papocentrismo” imperial, a preeminência absoluta do soberano romano sobre todas as outras figuras eclesiais, certamente apresenta algumas vantagens para a Igreja, pois isso aumenta, por tabela, a reputação da instituição imaginada como aparato que serve ao pontífice e, sobretudo, permite evitar que a atenção da opinião pública se focalize em temas muito menos cômodos (por exemplo, os numerosos escândalos financeiros e sexuais). Junto com os benefícios, porém, essa situação também gera alguns riscos para a Igreja. Eu vejo principalmente dois deles.

O primeiro diz respeito à escolha dos futuros pontífices: não será fácil para a Igreja encontrar um líder como Bergoglio, um homem com a sua formidável habilidade política, um chefe que saiba conservar toda a tradição e, ao mesmo tempo, seduzir tão profundamente a esquerda e o povo de Deus menos politizado.

O segundo risco é que o cesarismo papal contribua para a demolição já em curso da legitimidade institucional do clero, favorecendo a emergência de uma Igreja totalmente baseada na comunicação e no carisma. Esse é precisamente o tema que vou abordar na continuação deste artigo.

A CEI não acerta uma

O segundo elemento que o confinamento e a suspensão forçada das cerimônias religiosas evidenciaram de forma manifesta consiste no fato de que, ainda hoje, a uma distância de mais de meio século após o encerramento do Concílio Vaticano II e apesar das tantas proclamações de renovação teológica e eclesiológica ouvidas nesses anos, o coração do catolicismo, a sua essência profunda, pelo menos no plano da prática, o seu rito distintivo e qualificador continua sendo a missa dominical, o antigo preceito. Desde que, obviamente, ela possa ser celebrada por um sacerdote celibatário regularmente ordenado.

Faço esse esclarecimento, pois a recente decisão do papa de não conceder aos bispos da região amazônica a possibilidade de ordenar homens casados como presbíteros, sequer naquelas áreas isoladas onde a celebração eucarística é, devido à falta crônica de clero, um evento muito raro e excepcional, demonstra que a presença de um padre celibatário é, para a Igreja, o requisito mais importante, o elemento principal que precede de longe o da celebração eucarística.

A missa é imprescindível, foi o que o papa decidiu, e ninguém na Igreja realmente se rebelou contra isso, apenas com a condição de que haja um padre celibatário que a possa celebrar. Sem padre celibatário, sem missa; naqueles lugares onde o primeiro não tem a oportunidade de estar no centro da cena substituindo Cristo, interpretando o papel do Salvador, a segunda também perde o seu significado e o seu valor e pode ser celebrada, tranquilamente e sem escândalo, uma ou duas vezes por ano.

Como os padres na Itália, pelo menos por enquanto, não faltam, as queixas de muitos católicos italianos se dirigiram à impossibilidade de dizer missa. O papa se queixou (já citamos isso); boa parte da extrema direita eclesial se queixou, desde o início e de formas diferentes, mas também se lamentaram alguns intelectuais católicos geralmente identificados como progressistas.

Alberto Melloni [2] protestou por primeiro contra a equiparação das igrejas aos museus, aos teatros e aos estádios de futebol, para depois pôr em discussão a própria legitimidade das intervenções regulatórias do Estado nesse campo e, por fim, invocou uma reação menos passiva e mais combativa da Igreja italiana às proibições governamentais.

“Porque uma comunidade que reza” – assim Melloni concluía o seu artigo – “é uma família: que deve ser prudente, mas é uma família. E não uma aglomeração.”

Andrea Riccardi e Enzo Bianchi, fundador da Comunidade Monástica de Bose, foram na mesma direção. O último, entrevistado por Carlo Tecce no jornal Il Fatto Quotidiano, declarou que “alimentar o corpo com a comida comprada nos supermercados é necessário, mas, para os cristãos, também é necessário alimentar a alma com os sacramentos [...] coisas decisivas e não supérfluas para nós, cristãos. [...] O Estado deve entender que existem exigências essenciais para todos, mas, para os católicos, também é essencial se alimentar do corpo de Cristo” [3]. E na mesma data, no jornal La Repubblica, ele reiterou que, “sem eucaristia dominical para os cristãos, não é possível viver” [4].

A CEI, pelo menos no início do confinamento, decidiu não se somar à deriva antigovernamental e “pró-missa” propugnada pela extrema direita e indiretamente apoiada pelos vários Melloni, Bianchi e associados, e aceitou obedecer sem protestar contra as decisões das autoridades públicas. Uma atitude que sofreu uma brusca reviravolta com o comunicado do dia 26 de abril, no qual os bispos, com uma virulência raramente vista nas últimas décadas, acusaram o governo de ter até comprometido, adiando a retomada das missas para depois do início da chamada fase 2, a liberdade de culto na Itália e defendendo que a Igreja possa retomar a sua atividade pastoral, ameaçando suspender as atividades de caridade e, portanto, fazer com que os pobres assistidos pela Cáritas paguem a conta do choque institucional.

O pronunciamento despertou o imediato entusiasmo antigovernamental da oposição parlamentar e o zelo fundamentalista de muitos católicos (bispos, padres e simples fiéis), alguns dos quais chegaram a ameaçar a ruptura da Concordata e a rebelião aberta, enquanto o habitual Melloni, poucas horas antes do comunicado dos bispos, escrevia que “a oração de uma comunidade celebrante interessa a todos. Porque saber que, nas cidades, que se creem invulneráveis e odeiam as fragilidades, há não indivíduos, mas sim comunidades de pessoas desejosas pela comunhão [...] é um bem cuja importância também deveria ser entendida por quem não quer ter nada a ver com esse desperdício” [5]. Como que dizendo que quem celebra a eucaristia faz o bem de todos, mesmo daqueles que não creem em Deus e se preocupam com as consequências das aglomerações na igreja para a saúde coletiva. Em síntese, as missas dos cristãos, de acordo com Melloni que aqui retoma um antigo ditado pré-moderno, salvariam a todos, até mesmo os não crentes, e por isso deveriam ser imediatamente retomadas.

Só foi mais uma reviravolta do papa, desta vez na direção de uma maior cautela sugerida à comunidade eclesial em relação ao governo, que acalmou a crescente onda católica, pronta para entrar em guerra contra o Estado.

Em última análise, acredito que o pronunciamento da CEI representou um erro tático, não só porque foi clamorosamente contradito pelo pontífice depois de poucas horas, mas também porque, por um lado, descontentou gravemente uma boa parte daquela população (68% dos italianos, de acordo com uma pesquisa encomendada ao Ipsos pelo sociólogo Franco Garelli [6]) que aprovou o fechamento inicial das igrejas e, sobretudo, porque irritou muitos católico-progressistas que, como veremos, são aqueles que menos batem o pé para voltar à igreja, sem, por outro lado, satisfazer a sério os católico-conservadores, que, por sua vez, haviam acusado a CEI desde o início de excessiva rendição às decisões de Conte [primeiro-ministro italiano].

Em suma, no fim das contas, a medido revelou-se equivocada e imprevidente: a esquerda se enfureceu, e a direita permaneceu morna. Na política, o papa acerta todas; a CEI, sequer uma.

Para além da polêmica e dos tons inflamados e agressivos usados pelos bispos, resta o fato de que o retorno à normalidade no caso das missas será muito lento e cheio de dificuldades. Voltaremos a celebrar na igreja, mas com todas as precauções de saúde necessárias. Será necessário que os padres sejam ajudados por voluntários encarregados de medir a temperatura de quem entra no local e de verificar a posse dos dispositivos de proteção e o respeito das normas de distanciamento social. O direito de entrar na igreja poderá ser regulado por uma fila do lado de fora do edifício, até que os lugares disponíveis estejam esgotados. As instalações deverão ser higienizadas continuamente, o celebrante também deverá usar luvas e máscara e, sobretudo, deverá administrar a hóstia aos fiéis sem entrar em contato com os seus corpos.

Também é bastante provável que a população que mais frequenta a igreja e que mais deseja retornar a ela, aquela com os cabelos brancos já dizimada pela pandemia, especialmente em algumas áreas do país, seja aquela que o medo de contrair o vírus ou algum familiar particularmente cuidadoso manterá mais distante de padres e paróquias.

Dito isso, é bastante compreensível que a suspensão da atividade litúrgica e pastoral represente, para a cúpula da Igreja Católica, um cenário simplesmente aterrorizante. Vejamos por quê.

As missas online e o futuro da instituição

Um bom número de sacerdotes (nas primeiras semanas do confinamento, certamente a maioria), durante a quarentena, simplesmente fechou os batentes da liturgia e da pastoral, suspendeu ou quase toda atividade à espera de tempos melhores, do fim da emergência. Uma minoria deles fez isso com as precisas intenções teológicas que veremos em breve; a maioria se comportou assim simplesmente porque não soube ou não teve forças de fazer diferente.

A idade média do clero italiano é bastante avançada: um em cada três padres supera os 70 anos, e apenas 10% tem menos de 40 anos de idade. Em uma população desse tipo, são muitos aqueles que têm pouca ou nenhuma confiança na internet e nas redes sociais. E também é humanamente compreensível que, para além das tentativas de alguns, inclusive do papa, de apresentá-los como potenciais mártires dispostos ao sacrifício da vida, a fim de se manter fisicamente em contato com os fiéis, nas áreas do país mais atingidas pelo vírus, muitos sacerdotes idosos, atordoados e assustados, ficaram bem escondidos nas suas casas e longe de qualquer atividade.

Outros padres, em vez disso, optaram pelo caminho da transferência da atividade litúrgica para a rede: à medida que a pandemia se difundia, junto com a consciência de que os tempos de retorno à normalidade não seriam rápidos, começaram a proliferar várias formas de celebrações online: das missas, feriais e festivas, às adorações, aos comentários sobre as Escrituras, às orações, às mensagens etc. Muitas vezes ajudados por alguns paroquianos de boa vontade que os instruiu ou os gravou em vídeo, muitos padres começaram a frequentar o mundo das “lives” no Facebook, das mensagens de voz gravadas com o celular, dos vídeos no YouTube.

A partir desse ponto de vista, a quarentena foi, para o clero, a ocasião para uma formidável e rápida socialização ao uso da telemática e da rede, um involuntário curso de formação acelerado.

Mas nem sempre, na digitalização clerical, tudo correu bem: em alguns casos, a incapacidade de usar uma linguagem adequada, a excessiva prolixidade, a evidente inadequação do estilo expressivo causaram uma rápida e sensível diminuição da popularidade telemática de alguns padres, o colapso nas visualizações e nos contatos.

Mais em geral, é difícil compreender o grau de sucesso das missas online. O indicador das visualizações é muito impreciso: no Facebook, pode bastar apenas um segundo de visão para que se registre uma visualização; no YouTube, são suficientes cerca de 15. Portanto, é difícil saber quantos fiéis assistiram de todo o rito e de que modo, com que concentração e com qual intensidade. É impossível medir o número de pessoas que se conectaram apenas por alguns segundos ou até mais, mas sem suspender outras atividades, sem parar de cozinhar, de passar roupa, de trocar a fralda de um bebê recém-nascido ou de enviar mensagens aos amigos pelo celular.

Em geral, parece-me que se pode dizer que as visualizações foram, na grande maioria dos casos, decisivamente inferiores às presenças na igreja, que a satisfação expressada pelas “curtidas” foi muito baixa e que até mesmo os comentários, as breves frases de saudação foram geralmente muito poucos e muito escassos nos conteúdos, com uma tendência que se tornou cada vez mais negativa, com uma diminuição progressiva domingo após domingo, acompanhada obviamente pela interrupção do fluxo de ofertas que geralmente são derramadas nos cofres das paróquias durante as celebrações.

Apesar dos seus evidentíssimos limites, o fato de que muitas vezes elas funcionam pouco ou mal, as missas online ainda representam a fonte de alguns perigos muito concretos para a Igreja Católica. O primeiro é que, para alguns fiéis, elas se tornem uma alternativa estável às missas presenciais, sendo mais cômodas de acompanhar e possíveis de fruir em qualquer momento do dia, mas o perigo principal é de que se instaure uma forma de intensíssima competição entre celebrantes e que a missa oficiada por um padre particularmente popular atraia fiéis de outras paróquias, até de outras dioceses. A digitalização da liturgia poderia assim se revelar como a premissa de uma desenraizamento adicional da estrutura paroquial-territorial da Igreja, que, no limite, no caso das paróquias “perdedoras”, elas sobreviveriam apenas para dar a comunhão dominical aos idosos (quando puderem voltar à igreja) ou para administrar os outros sacramentos em ocasiões especiais (batismo, primeira comunhão, crisma e matrimônio) e para celebrar os funerais.

Alguns dos padres que obtiveram mais sucesso já receberam dos próprios fiéis o pedidos de continuarem transmitindo a missa online, mesmo quando voltarem à normalidade. Para isso, será suficiente posicionar uma câmera de vídeo no meio da igreja: aos participantes de carne e osso, poderão ser adicionados os virtuais, o séquito pessoal online dos presbíteros mais carismáticos.

O processo de esvaziamento das igrejas avançado vigorosamente no último meio século poderia sofrer uma sensível aceleração e esvaziar ainda mais os templos católicos. Com repercussões nas motivações e no entusiasmo do clero “médio” e nos emolumentos financeiros que afluem para a paróquia, nada difíceis de imaginar.

Outra fonte de preocupação para os bispos é representada por um fenômeno relativamente isolado e, apesar disso, insidioso. Alguns intelectuais católicos superprogressistas decidiram remediar a suspensão das liturgias promovendo uma espécie de “espiritualidade doméstica” que, em vez de reproduzir na rede as celebrações eucarísticas presenciais (consideradas por eles como um absurdo), permita às famílias organizar rituais alternativos desprovidos de qualquer componente subjetivo e criativo.

Alguns padres, determinados a considerar a ausência da comunidade como um impedimento decisivo para a celebração da missa, aceitaram se envolver, e o fenômeno teve uma difusão modesta, mas não insignificante e teologicamente bastante qualificada.

Naturalmente, querendo permanecer firmemente dentro dos limites da ortodoxia católica, os proponentes dessas práticas alternativas à missa se apressaram em especificar que a validade desses rituais familiares é, nas suas intenções, rigorosamente limitada ao período da quarentena, que, em síntese, eles voltarão à missa assim que for possível. Não há dúvida de que é assim, mas também é difícil negar que, em alguns participantes, esse tipo de práticas poderia produzir uma certa desafeição pelo ritual da eucaristia e favorecer alguma forma de protestantização involuntária.

Uma Igreja cada vez mais carismática

As consequências da longa quarentena parecem convergir, para a Igreja italiana, em uma única direção: a da acentuação dos elementos carismáticos da sua liderança e do enfraquecimento contextual da sua fibra institucional, da sua consistência burocrático-administrativa.

De fato, o intenso ativismo do pontífice (obviamente relevante para o mundo inteiro ou quase, mas, na Itália, particularmente conhecido e eficaz) correspondeu à extrema fraqueza e às muitas incertezas da CEI e à resposta fragmentada e desordenada de uma classe, a clerical, dividida nas fileiras não organizadas dos “fugitivos”, dos “abstencionistas” e dos “intervencionistas”. A figura do padre, para além da retórica sobre o “nós”, a “comunidade”, o “pertencimento” é, dentro da sua paróquia, uma figura solitária: cada presbítero, pelo menos cada pároco, está acostumado a decidir por conta própria, a fazer como lhe der na telha, a escolher o caminho que mais o convence. Isso também ocorreu nesses meses de confinamento.

Quem saiu vitorioso e fortalecido dessa situação foram os sacerdotes “carismáticos”, o habilíssimo e telegênico papa argentino, os bispos mais “smart” no plano da comunicação, os padres mais “sociais” e criativos, os mais capazes de imprimir a sua própria marca pessoal nas celebrações online ou em outras intervenções em rede.

Os perdedores serão os “padres médios”, aqueles presbíteros de cultura médio-baixa, com poucas qualidades pessoais (que, no máximo, preparam a homilia, servindo-se de alguns subsídios disponíveis online), cujo carisma depende sobretudo do ofício que ocupam e que até agora viveram, com cansaço crescente, a sua profissão como um vai e vem marcado pela regularidade e pelo hábito. Para eles, o confinamento foi um evento perturbador e deprimente, que os afastará sabe-se lá por quanto tempo do contato com as “cabeças grisalhas” dos fiéis que frequentam as suas paróquias e que representam a principal fonte de apoio e de encorajamento cotidianos.

Os “padres médios” cresceram em uma organização eclesial que sempre valorizou sobretudo a sua docilidade às autoridades, o conformismo religioso e doutrinal, o vale-tudo ideológico e o fato de que não fossem fontes de problemas e, sobretudo, de escândalos sexuais ou financeiros.

A tarefa que lhes foi confiada foi sobretudo a de celebrar missas, batismos, matrimônios e funerais, em suma, de fazer funcionar adequadamente a “máquina sacramental” defendida com tanto ardor pela CEI também por ocasião do confinamento.

Em um futuro não muito distante, poderia haver uma menor necessidade da sua “sabedoria administrativa”, do seu espírito burocrático, se a secularização avançar ainda mais e se a demanda de sacramentos se reduzir ainda mais. O lugar deles poderia, como ocorreu na crise, ser ocupado por aqueles poucos padres carismáticos que sabem eletrizar o próprio público, que conseguem ter, mesmo que apenas online, muitos seguidores pessoais. Pessoas brilhantes, mas que são levadas, precisamente em virtude dessa característica, a desobedecer com mais facilidade, deixando-se seduzir pela possibilidade de se tornarem ainda mais populares quando completamente livres, quando totalmente desvinculados de toda ancoragem institucional. Como ocorre nas seitas evangélicas, nas quais a autonomia e a criatividade de cada pastor são reconhecidas e exaltadas.

Mas talvez eu tenha me empolgado e tenha acreditado ter visto as características de um tempo ainda muito distante de nós, deste 2020 trágico e ao mesmo tempo extraordinário que nos coube viver.

Notas:

[1] R. Sarah, J. Ratzinger. Dal profondo del nostro cuore. Siena: Cantagalli, 2020.

[2] A. Melloni, “Una comunità che prega non è una folla”. La Repubblica, 01/03/2020.

[3] C. Tecce. “Le chiese non si chiudono, ma la Cei istruisca i preti”. Il Fatto Quotidiano, 15/03/2020.

[4] E. Bianchi. “Coronavirus, la Chiesa non può chiudere”. La Repubblica, 15/03/2020.

[5] A. Melloni. “Quel silenzio da riempire nelle chiese”. La Repubblica, 25/04/2020.

[6] F. Garelli. “Coronavirus, funzioni religiose sospese: il 68 per cento degli italiani è d’accordo”. Il Messaggero, 30/03/2020.

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