A Igreja diante da pandemia e suas consequências. Artigo do cardeal Michael Czerny

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23 Abril 2020

Pedimos ao cardeal jesuíta Michael Czerny uma reflexão sobre o seguinte tema: “Dado que o carisma e a função do pastor na Igreja é iluminar e dar um passo à frente (outras vezes, para trás ou para o meio, como disse o Papa), pergunto-lhe sobre a atitude da Igreja diante da pandemia e suas consequências na Igreja do pós-coronavírus”.

Sempre atento, o subsecretário da seção de Migrantes e Refugiados do Dicastério para o Desenvolvimento Humano Integral, nos respondeu.

O artigo é publicado por Religión Digital, 22-04-2020. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

A emergência da COVID-19 está colocando à prova a resistência física, mental e social de muitas nações. O contágio se estendeu rapidamente e a nível mundial, o que causou uma profunda crise de saúde e colocou a economia mundial de joelhos. Como uma lupa, também revelou as debilidades da organização social e a vulnerabilidade de muitas pessoas. Pensemos nas famílias que vivem na pobreza, nos anciãos, nos presos, nas pessoas sem lar, nos migrantes e nos solicitantes de asilo e nas vítimas do tráfico de pessoas. O Santo Padre vê neles “um verdadeiro exército invisível que luta nas mais perigosas trincheiras. Um exército sem outra arma que a solidariedade, a esperança e o sentido de comunidade que brota nesses dias em que ninguém se salva só” [1]

Em finais de abril, o coronavírus já terá infectado a vários milhões de pessoas em todo o mundo. Está nos ensinando duras lições, pagas com vidas humanas. “Não podemos nos permitir escrever a história presente e futura de costas para o sofrimento de tantos”. A capacidade de dar uma resposta adequada à dor e a pobreza dos marginalizados e dos “invisíveis” será uma medida do desenvolvimento genuíno, integral e sustentável de nossos países. Só se pode resistir a esta pandemia com “os anticorpos da solidariedade” [2].

Ao mesmo tempo, podemos ler o que estamos vivendo com os olhos da fé. O sempre oportuno convite do Concílio Vaticano II nos chama a sintonizar nossos ouvidos com a voz de Deus que fala através dos eventos e experiências humanas (Gaudium et Spes, 4). Este foco na história, entendida como o lugar onde acontece a salvação, é um dos temas cruciais no ensino de Francisco. Da encíclica Laudato Si’ às exortações apostólicas Evangelii Gaudium, Gaudete et Exsultate e Querida Amazônia, o Sumo Pontífice nos exorta a ler os sinais dos tempos e nos mostra como fazer isso.

Esses sinais nos dizem que estamos em uma espécie de encruzilhada. Dois caminhos se abrem, então, diante de nós, duas maneiras diferentes de abordar a emergência.

Um primeiro caminho consiste em permanecer imóveis, esperando que a epidemia siga o seu curso (pensando que talvez, “cedo ou tarde, isso passará”) e tentando nos manter flutuando no pântano dos problemas diários. Essa resignação se alimenta da necessidade de segurança. Essa regra de “lógica substitutiva” nos leva a pensar apenas em como nos adaptar às inconveniências atuais, talvez só para continuar fazendo o mesmo que antes, sem infringir as restrições das autoridades.

O outro caminho, ao contrário, nos leva a acolher esses tempos e a cultivar ativamente uma relação vital com Cristo, e a sair na busca daqueles que necessitam de nossa ajuda. Abraçar a “lógica salvífica” do Evangelho é chegar através da incerteza e captar uma identidade e uma missão renovadas como cristãos batizados e discípulos missionários. Podemos ajudar a mostrar (e a ser!) o belo rosto de uma Igreja a serviço de nosso irmão e irmã, solidária com o seu sofrimento e aberta às suas necessidades. Uma Igreja consciente de ser “Povo de Deus” a caminho (Lumen Gentium, 9), que enfrenta com coragem os desafios do presente, colocando sua esperança em Cristo agora e com vistas no futuro.

(Fonte: Religión Digital)

As notícias que chegam diariamente dos cinco continentes falam de uma Igreja que se mobiliza em cada vez mais frentes. Muitos católicos, entre tantos outros, se entregaram e não hesitam em dar tudo. Muitíssimas iniciativas de caridade dão testemunho do amor de Deus que atua de maneira oculta, como o fermento que fermenta toda a massa (Mt 13,33). Pensemos nas muitas pessoas que seguem fornecendo alimentos, serviços essenciais, segurança pública.

Pensemos nos muitos médicos e doentes, sacerdotes e religiosos que, arriscando suas vidas, permanecem na linha de frente e se mantêm perto dos doentes. Dando-se a si mesmos “até o final” (Jo 13,1), oferecem um brilhante testemunho dos ensinamentos e o exemplo de Jesus, recordando a todos que o cuidado com os que sofrem tem prioridade. Nesses momentos, é toda a pessoa que sofre e precisa ser curada, e os casos são numerosos. É por isso que a oração que todos podem tentar fazer e oferecer, também é indispensável.

Nessas condições excepcionais, nesse tempo “em suspenso”, como uma câmera lenta que se impõe a todos, nos vemos obrigados a reduzir nossos ritmos frenéticos, a mudar nossos hábitos, a inventar novas percepções, critérios e respostas. A quarentena desfez a rede habitual de relações de cada um de nós. A solidão pode ser uma surpresa incômoda. O crescente número de mortes é profundamente perturbador para aqueles que nunca enfrentaram o mistério de sua própria morte.

Crucifixo do cardeal Czerny (Fonte: Religión Digital)

Ao a aceitar a si mesmos e a própria vida interior, ou ao buscar consolo e tranquilidade, ou ao redescobrir as tradições em que se criaram, muitos sentem a necessidade de buscar a Deus. Esta é uma nova guinada, em uma época em que o progresso tecno-científico pode distanciar as pessoas da religião.

Um passo importante para buscar a Deus é revisar seriamente a própria vida. As certezas sobre as quais construímos nossa existência parecem, agora, cambalear e isto permite que surjam perguntas sobre o sentido. Para que eu vivi? Para que viverei? Sou capaz de ir além de mim mesmo? A fé, que inquieta a pessoa moderna, pode ajudar a fazer com que as perguntas surjam lentamente, ao passo que Deus é rápido para responder.

Os meios de comunicação podem pavimentar o caminho para estes novos “buscadores” e podem facilitar a aproximação daqueles que se distanciaram da Igreja. Talvez, os que não têm a coragem de entrar em uma igreja, hoje em dia, podem aproveitar as oportunidades on-line para escutar a Palavra de Deus proclamada e ensinada, para conhecer melhor o conteúdo do credo, para se unir ao Santo Padre, em uma hora de adoração, em uma dramática e vazia Praça São Pedro ou para “visitar” a igreja paroquial do bairro. É claro, estas ofertas também servem aos muitos fiéis que perderam o encontro e que agora, de casa, participam nas celebrações e ritos da Igreja.

Cardeal Czerny em El Salvador (Fonte: Religión Digital)

Nesse momento, as previsões não têm muito sentido porque há muitas variáveis em jogo, mas se abraçamos o presente e nos deixamos guiar pelo Espírito Santo, podemos discernir o que é essencial. Trata-se do “tempo para escolher entre o que conta verdadeiramente e o que ocorre, para separar o que é necessário do que não é. É o tempo de restabelecer o rumo da vida para ti, Senhor, e para os outros”.

Cardeal Michael Czerny S.J.

Cidade do Vaticano, abril de 2020.

Notas

[1] Carta del Santo Padre Francisco a los movimientos populares

[2] El papa Francisco diseña “un plan para resucitar” a la humanidad ante la crisis del coronavirus

[3] Momento extraordinário de oración en tiempos de epidemia

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