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18 Junho 2020

"Como a igreja hoje entende a si mesma e qual a relevância que ela tem para os desafios atuais da humanidade? As duas perguntas não podem ser separadas, porque o concílio mostrou que a igreja realiza a si mesma em sua relevância para a humanidade. O que a igreja é e pode ser aparece no que ela significa para a humanidade", escreve Francesco Gianni Poletti, em artigo publicado por l'Adige, 17-06-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo. 

"Uma igreja que sai de si mesma": é o título de um livro de Stefan Silber, publicado recentemente na Alemanha, onde já se tornou um best-seller. Em breve estará disponível na tradução italiana. O ensaio desenvolve uma afirmação do Papa Francisco: “No apocalipse de João, Jesus diz que está à porta e bate. Obviamente, naquele texto se refere a ele que bate do lado de fora para poder entrar ... Mas agora eu penso que ele às vezes bate por dentro, para que nós o deixemos sair. A igreja autorreferencial pretende manter Jesus Cristo dentro de si e não o deixa sair".

Silber leciona na Universidade de Paderborn, mas trabalhou cinco anos na Bolívia, em Potosí, uma cidade duas vezes maior que Trento, no passado uma rica cidade mineira, hoje dominada pela miséria gerada pela colonização selvagem e pelo consequente subdesenvolvimento. Na Bolívia, Silber respirou plenamente os princípios da teologia latino-americana da libertação, sem a qual, aliás, não podem ser entendidas algumas posições do magistério de Francisco.

O livro conta que, antes do último conclave, Bergoglio tomou a palavra em uma congregação geral dos cardeais. O discurso foi divulgado recentemente pelo cardeal cubano Jaime Ortega, que afirmou que foram aquelas palavras que fizeram crescer o consenso em torno do bispo de Buenos Aires até a sucessiva eleição. Agora Silber volta ao discurso e o contextualiza, baseando-o nas posições do Concílio Vaticano II e nas exigências que surgem do mundo de hoje.

No concílio, a questão da relação igreja-mundo foi levantada pelo cardeal belga Suenens, arcebispo de Mechelen-Bruxelas. Era 4 de dezembro de 1962, quando ela disse aos Padres conciliares: “A igreja deve se definir, deve ser capaz de dizer a si mesma e ao mundo quem é e deseja ser - para si e para o mundo. Deve justificar a si mesma. Temos que dizer se continuamos com fidelidade ou não continuamos a obra que nos foi confiado pelo Mestre”. Em outras palavras, a igreja deve sempre dizer novamente à humanidade e aos indivíduos que esperança pode transmitir hoje aos homens e que esperança pode contribuir para realizar com ações concretas. O concílio atendeu o convite de Suenens e escreveu os maravilhosos textos das constituições “Lumen gentium” (sobre a igreja) e “Gaudium et Spes” (sobre a igreja no mundo contemporâneo).

O Papa João retomou o tema na encíclica "Pacem in terris", Paulo VI na "Populorum progressio". E depois de mais de meio século, o Papa Francisco volta ao assunto, tornando-o o sinal de seu pontificado. Em muitas intervenções, esse papa mostra como ele imagina concretamente a igreja: uma igreja em saída, que sai pelas ruas, para as periferias existenciais, onde vivem os excluídos e onde é possível encontrar Deus. Ele enfatizou em sua primeira exortação apostólica (“A alegria do evangelho") e na bula de criação do jubileu extraordinário da misericórdia de 2015 ("A face da misericórdia"). Essa posição, como é sabido, encontrou e encontra muitas fortes oposições, especialmente dentro da igreja. É interessante reler o discurso de Bergoglio hoje, que convenceu os cardeais a elegê-lo.

O cardeal Ortega pediu uma cópia do original e também recebeu o consentimento para torná-lo público. São anotações escritas em espanhol, com letra minuta, mas completamente compreensível. Bergoglio diz que o novo papa "terá que ajudar a igreja a sair de si mesma em direção às periferias, não apenas aquelas geográficas, mas também aquelas existenciais: as do mistério do pecado, da dor, da injustiça, aquelas da ignorância e da ausência de fé, de pensamento, de todas as formas de miséria”. Aqui está contido todo o conceito de radical "conversão pastoral" que ele desenvolverá em sua primeira exortação apostólica de 2013.

Bergoglio também lembrou aos cardeais, seus futuros eleitores, os males que afligem a Igreja, em particular a autorreferencialidade e o narcisismo teológico. "Quando a igreja é autorreferencial - ele disse - acredita ter luz própria; deixa de ser o mistério da lua, que reverbera a luz do sol”.

Silber retoma agora a provocação de Suenens no concílio e se pergunta: "Como a igreja hoje entende a si mesma e qual a relevância que ela tem para os desafios atuais da humanidade? As duas perguntas não podem ser separadas, porque o concílio mostrou que a igreja realiza a si mesma em sua relevância para a humanidade. O que a igreja é e pode ser aparece no que ela significa para a humanidade. Realiza sua identidade dedicando-se a trabalhar na unidade de toda a humanidade”.

O maior teólogo do concílio, Karl Rahner, logo após seu retorno de Roma em dezembro de 1965, definiu o concílio como" o começo do começo ". e acrescentou estas palavras proféticas: "Levará muito tempo antes que a igreja se torne a igreja do Vaticano II". Durante o pontificado de Francisco, foram retomados numerosos impulsos de reforma do concílio. Com uma variedade de palavras, gestos e ações, o papa atual mostrou como e em que direção ele imagina "conversão pastoral". Em sua pessoa foram depositadas muitas esperanças por uma renovação, mas os adversários estão cada vez mais unidos e animosos: trancam as portas e defendem antigos bastiões.

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