Nem religiões nem paz sem a crítica das religiões

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16 Janeiro 2011

No próximo dia 8 de fevereiro, o Fórum Mundial de Teologia e Libertação - FMTL irá celebrar, dentro do Fórum Social Mundial - FSM, em Dakar, no Senegal, uma oficina sobre "Religiões e Paz: A visão/teologia necessária para tornar possível uma Aliança de Civilizações e de Religiões para o bem comum da humanidade e a vida no planeta". A organização da oficina é da Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo - ASETT/EATWOT.

Para facilitar a participação e o debate, a EATWOT disponibilizou as conferências resumidas de vários especialistas que serão apresentadas sobre a temática proposta na oficina do ano que vem.

O sítio do IHU, em suas Notícias do Dia, está disponibilizando as principais conferências a respeito da temática. Veja abaixo, em "Para ler mais", a lista de textos já publicados.

Além disso, também foi publicada uma proposta de Agenda teológica 2011-2013, para ser debatida no seminário do FMTL.

No texto abaixo, Stefan Silber, da Universidade de Osnabrück, na Alemanha, defende o papel da crítica da religião, já que, sem ela, "as religiões não somente irão perder sua capacidade de contribuir com processos de paz e justiça, mas também serão incapazes de libertar seu próprio potencial salvífico, e finalmente deixarão de ser religiões e se tornarão verdadeiras idolatrias, adorando os deuses do poder". A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Nem religiões nem paz sem a crítica das religiões

Uma perspectiva europeia e latino-americana

As religiões são forças para a paz e também propõem a guerra. Para construir uma teologia do pluralismo religioso que seja capaz de ajudar as religiões a desenvolver seu próprio potencial para a paz e a justiça, essa teologia necessariamente deve incluir a crítica da religião.

Ao longo dos séculos passados, a filosofia europeia desenvolveu várias perspectivas a partir das quais a religião é criticada. A popularização da crítica da religião contribui até hoje de forma decisiva para que o continente europeu se torne cada vez mais reservado contra as instituições religiosas e para que os povos da Europa demorem mais do que outros povos na adaptação de um novo modelo religioso pós-moderno.

A crítica da religião, no entanto, é, por sua vez, uma contribuição importante do continente europeu à teologia de todo o planeta. Acima de tudo, a teologia da libertação latino-americana fez uso extensivo, ao longo das últimas cinco décadas, das ferramentas metodológicas da crítica da religião, sobretudo na crítica da religião cristã. Diferentemente da maioria das correntes filosóficas da Europa, essa crítica foi feita a partir da perspectiva dos pobres. Essa perspectiva é importante e decisiva para assegurar que a crítica da religião não sirva aos interesses da opressão e da marginalização, e também para que o diálogo das religiões não se torne um diálogo de costas para os pobres.

1. Os pobres são religiosos. Especialmente nos países do Sul e do Leste do planeta, os pobres, em sua imensa maioria, são religiosos. Muitas vezes, eles se compreendem e se manifestam mais imediatamente como pessoas religiosas e, apenas em segundo lugar, como pobres.

2. Os pobres são religiosos apesar das religiões. As religiões vividas pelos pobres muitas vezes não coincidem com as propostas religiosas feitas pelas autoridades religiosas. Estas, muitas vezes, não reconhecem as expressões religiosas dos pobres como autênticas, mas as denunciam como degeneradas, sincréticas, como impuras ou imperfeitas. Os pobres, por sua parte, praticam suas religiões como expressões criativas e como respostas imediatas à presença da divindade.

3. As religiões oprimem os pobres. Em muitos casos, as religiões, enquanto estruturas de poder, servem como instrumentos de legitimação da opressão e da exclusão. Além disso, se não reconhecerem a autenticidade da expressão religiosa dos pobres, as próprias religiões muitas vezes marginalizam os pobres como pecadores, como pessoas impuras, como seres humanos punidos pela divindade e assim exacerbam a exclusão dos pobres. Quando as religiões legitimam, justificam ou demandam a guerra, as consequências desta recaem, em primeiro lugar, e com danos mais fortes, sobre os pobres

4. As religiões têm potencial libertador. No entanto, as religiões têm o potencial para libertar os pobres e para construir a paz. Dentro de muitas religiões, podemos encontrar a profunda convicção da igualdade fundamental de todo o gênero humano e da vontade salvífica da divindade para todas as pessoas humanas.

5. Só a crítica da religião a partir da perspectiva dos pobres pode libertar as forças salvíficas das religiões. Para que esse potencial libertador das religiões possa entrar em ação, muitas coisas são necessárias, incluindo a crítica da religião. Se a teologia não pôr de manifesto os efeitos nefastos da prática religiosa a partir da perspectiva dos pobres, e se não corrigir as atitudes e as práticas que justificam e aprofundam a exclusão e a opressão dos pobres, as religiões não se tornarão forças criativas de justiça e de paz no mundo.

6. Sem crítica das religiões, não haverá nem paz nem religiões. Se a teologia do pluralismo religioso não integrar a crítica da religião, as religiões não somente irão perder sua capacidade de contribuir com processos de paz e justiça, mas também serão incapazes de libertar seu próprio potencial salvífico, e finalmente deixarão de ser religiões e se tornarão verdadeiras idolatrias, adorando os deuses do poder.

Stefan Silber
Universidade de Osnabrück
Alemanha

 

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