Ministério da Igreja pós-pandemia

Foto: Luiz Carlos Bittencourt/Pascom/Pastoral da Comunicação do Regional Sul 2 da CNBB

01 Junho 2020

"A tensão entre o sacerdócio ordenado e o sacerdócio de todos os crentes precisa ser resolvida", escreve J.P. Grayland, padre da Diocese de Palmerston North, Nova Zelândia, autor do livro Catholics. Prayer, Belief and Diversity in a Secular Context (Te Hepara Pai, 2020), em artigo publicado por La Croix International, 14-05-2020. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

 

Eis o artigo.

 

A capacidade do clero de celebrar os sacramentos pascais sem a participação física ativa da assembleia dos batizados pode ser o ponto de inflexão em um diálogo sobre a relação entre o ministério clerical e o ministério dos leigos na liturgia católica.

 

Se o momento presente for este ponto de inflexão, então a liturgia já fez o seu trabalho. Ela nos levou da carcaça da questão litúrgica para o seu núcleo, ou centro, cristológico. Como compreendemos e manifestamos o discipulado batismal comum através do culto, do ministério e da missão?

 

Uma resposta simplista é o clericalismo. Mas uma resposta mais significativa reside na tensão não resolvida entre o sacerdócio ministerial e o sacerdócio comum que todos os membros da Igreja partilham através do batismo.

 

Tensão não resolvida

 

Podemos ver essa tensão não resolvida no ministério sacerdotal com dois exemplos. O primeiro é aquele grupo, nos Estados Unidos, que criou três modelos para as missas pós-Covid-19. Todos os três são essencialmente experiências clericais.

 

No primeiro modelo, não se dá a comunhão aos fiéis. No segundo, as hóstias pré-consagradas do tabernáculo são distribuídas após a missa. E, no terceiro, distribui-se a comunhão aos fiéis imediatamente após o Ecce Angus Dei (Eis o Cordeiro de Deus).

 

Um segundo exemplo de tensão no ministério sacerdotal é a sugestão de que o sacerdócio comum permite que os leigos se reúnam em seus lares e celebrem a missa com pão e vinho como uma expressão mais autêntica da koinonia (ministério de serviço).

 

“Se a oração pela comunhão espiritual for a melhor opção, não seria melhor fazermos uma missa do tipo ‘faça você mesmo’ aqui em casa? Seria mais real”, escreveu um dos meus paroquianos. “Por que um padre está mais autorizado ou sacralizado a celebrar um sacramento (excetuando o matrimônio) e eu, leigo, não sou sacralizado o suficiente para realizá-lo, mesmo em momentos extraordinários?”, continuou o fiel.

 

Quando se apresentam seriamente questões litúrgicas de ministério e autoridade, a resposta que damos deve considerar o ministério de Cristo, o sacerdote, bem como as nossas teologias da sacramentalidade, da mediação sacramental, da comunhão, do protagonismo e da santificação.

 

Em última instância, esta crise nos levou a olhar mais de perto o batismo como a fonte de ministério, missão e sacerdócio.

 

Sacerdócios conflitantes e esquecidos

 

O capítulo dois de Lumen Gentium, constituição dogmática do Concílio Vaticano II sobre a Igreja, intitula-se De populo Dei (sobre o Povo de Deus). Esse título foi escolhido especificamente para mostrar que o nosso discipulado primário, universal, não se diferencia pelos termos “clérigo” e “leigo”, para os quais o nome desse último – laos Theou – é inequívoco.

 

Mas também se emprega “Povo de Deus” para distinguir os crentes que não são ordenados daqueles que são, dando a entender que os não ordenados pertencem ao grupo dos batizados-laos e que diferem do grupo dos batizados-ordenados.

 

Isso sugere ainda que a Igreja se compõe de dois grupos diferentes iguais em algumas coisas, mas não idênticos em tudo. Clérigos e leigos dividem uma fonte comum, mas alguns ficam com uma parcela mais significativa dela.

 

O resultado é que o “Povo de Deus” não é um descritor confiável do discipulado comum compartilhado por todos os batizados. O mesmo vale para o termo Christifidelis; isto é, os fiéis ou fiéis cristãos.

 

Quando usou o termo christifideles laici para reconciliar aquela divisão, João Paulo II mostrou a profundidade do problema e aumentou a lacuna para com os christifideles clerici.

 

O sacerdócio de todos os crentes

 

O termo “sacerdócio de todos os crentes” tem sido usado para nomear o discipulado batismal universal dos crentes. O sacerdócio aplicado a todos os batizados levanta muitas dúvidas quanto à identidade dos batizados como sacerdotes e quanto à identidade dos clérigos como sacerdotes.

É certo que os leigos e o clero não podem ambos serem sacerdotes?

 

Se o sacerdócio surge do sacramento da iniciação cristã (batismo, confirmação e eucaristia), como a ordenação seria um passo além dessa iniciação, em direção a um estado clerical novo?

 

Se a iniciação cristã é a iniciação em Cristo e uma participação em seus tria munera como sacerdote, profeta e rei, o que a iniciação confere exatamente? Será uma partilha incompleta que só se conclui através da ordenação?

 

A participação iniciada nos tria munera de Cristo põe em dúvida a natureza, o propósito e a teologia do sacerdócio para o ministério leigo e ordenado. Se todos os “incorporados a Cristo pelo batismo, foram constituídos como povo de Deus” e “feitos participantes, a seu modo, do múnus sacerdotal, profético e régio de Cristo”, então todos partilham nos tria munera de Cristo (Código de Direito Canônico, parág. 204).

 

Mas o que isso significa para a prática litúrgica?

 

Se a iniciação cristã é uma iniciação na Igreja, e se ela convida cada crente a exercer os tria munera de Jesus (mestre, santificador e líder) principalmente dentro da Igreja, há de se perguntar: Por que todos os crentes simplesmente não podem celebrar a Eucaristia quando um sacerdote ordenado não se faz presente?

 

Se a resposta é que os tria munera são partilhados de modos diferentes, então devemos nos perguntar sobre como Cristo os compartilha de modo diferente com os leigos e clérigos, visto que ele não é nem clérigo nem leigo.

 

Parece que as categorias que empregamos não se aplicam a Cristo ou à nossa cristologia.

 

O problema litúrgico

 

O problema da práxis litúrgica é a falta de uma cristologia funcional que nos permita entender como Jesus – o sacramento primordial e fonte de todo ministério, missão e santificação – manifesta-se mais plenamente na liturgia.

 

Porque a sacramentalidade da Igreja existe dentro da sacramentalidade de Jesus. O fundamento cristocêntrico de toda missão litúrgica, ministério e santificação é a sua relacionalidade com a existência e a partilha dos tria munera de Jesus entre os batizados na Igreja.

 

A conexão sacramental entre os tria munera de Cristo e o seu exercício pelos discípulos cristãos é central. No centro reside a seguinte questão: se a iniciação confere uma participação no ofício sacerdotal de Cristo, os ministérios que dela decorrem são sacramentais. Eles são um efeito direto dos sacramentos da iniciação, o que parece ser o fundamento para sugerir que os batizados (leigos) celebram a missa.

 

Se dizemos que todos os cristãos se dividem sacramentalmente nos tria munera de Cristo, podemos também dizer que leigos e clérigos os habitam ou experimentam de maneiras fundamentalmente distintas? Se isso for verdade, então ou aquilo que se compartilha é diferente, ou a forma como se compartilha é diferente.

 

Assim, os leigos recebem um apostolado para fazer as coisas e o clero um ministério para santificar? Se isso for verdade, então a distinção nos tria munera é uma distinção buscada por Cristo.

 

Portanto, o cerne do problema não é o ensino de que o batismo traz um discipulado universal compartilhado por todos. O cerne do problema é como Cristo compartilha de uma forma os tria munera com todos os batizados, e como o faz, sob uma forma substancialmente diferente, com os ordenados.

 

Se a partilha sacramental de Cristo no batismo com todos os crentes é “universal” e sua partilha sacramental nas Ordens Sagradas a uma pessoa ordenada é “hierárquica”, então o problema está em nossa cristologia.

 

Essa é a base do problema que vemos em muitas respostas litúrgicas à Covid-19. Ela está clara nas teologias da missa “com o sacerdote único” e nas missas do tipo “faça você mesmo”. Ambas as formas são inadequadas porque esquecem que a liturgia é o exercício do ofício sacerdotal de Cristo e que o seu sacerdócio é o paradigma contra o qual se mensura o “sacerdócio” na Igreja.

 

Na liturgia, o sacerdócio de Cristo é o meio da santificação de homens e mulheres, expresso em símbolo e signo no culto público realizado pelo corpo místico de Cristo, seu presidente e membros, não só por alguns deles.

 

Muitas das respostas ao confinamento (“lockdown”) litúrgico mostram nossa tendência de ou a nos apegar a formas hierárquicas de adoração, ou de laicizar o culto no lar com a família.

 

No geral, este confinamento particular mostrou que, embora o lugar dos leigos tenha se reestabelecido teologicamente em muitas – mas não em todas – as igrejas, a teologia dos ordenados não acompanhou o ritmo.

 

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