Francisco muda o foco e centra o olhar para os descartados. Entrevista especial com Hans Waldenfels

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Por: João Vitor Santos | Tradução: Luiz Sander | 01 Julho 2018

Ao longo desses anos do pontificado de Mario Bergoglio, uma das críticas mais frequentes é a de que ele não é um teólogo. Para o jesuíta alemão Hans Waldenfels, ele não é mesmo e nem precisa ser. “Francisco é um pastor. Ele não precisa ser um teólogo na acepção científica da palavra”, dispara. Aliás, Waldenfels, que também é referência na teologia, destaca que “os teólogos e também os episcopados do mundo inteiro deveriam, atualmente, apoiá-lo e não deixá-lo sozinho”. Isso porque a crítica de hoje ao pontificado vai além do argumento teológico, a ponto de se questionarem as ações e o posicionamento do Papa e sua inferência em assuntos que seriam dados como além do mundo clerical, como o caso dos imigrantes. “Francisco conseguiu direcionar o olhar para o mundo e principalmente para as pessoas ‘descartadas’ pela sociedade que estão à margem dela. Essas pessoas são principalmente os migrantes e os sem pátria”, analisa.

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line, Waldenfels ainda detalha que com essa perspectiva o Papa direciona o olhar para as questões da sociedade, ampliando e detalhando esse conceito de Igreja, que é muito mais do que o mundo clerical, é uma Igreja em perspectiva com a sociedade. “Isso tem consequências para a visão da sociedade, em que, desde o início, ele pronunciou palavras críticas, mas também para a Igreja, que, para ele, está excessivamente voltada para si mesma”, aponta. Os resultados são críticas desde dentro, mas também de fora da Igreja. Para o teólogo, são fundadas em um não entendimento da proposta de Francisco. “As perspectivas são o povo de Deus, que para ele não é objeto, e sim sujeito da evangelização, e a religiosidade popular, que ele promove”, acrescenta. Por isso, realinha vários papéis. “O que está em pauta é a renovação da Igreja toda, que não consiste só nos ministros, mas em todas as pessoas batizadas”, sintetiza.

Hans Waldenfel | Foto: La Civiltà Cattolica

Hans Waldenfels é teólogo jesuíta alemão. Estudou filosofia no Philosophical College Berchmanskolleg, em Pullach, perto de Munique, e na Universidade Católica de Sophia, em Tóquio. Realizou estudos de doutorado na Universidade Gregoriana, em Roma, e na Universidade de Münster. Sua tese, baseada em uma sugestão de Karl Rahner, analisa aspectos do Concílio Vaticano II. Entre suas publicações, destacamos Contextual Fundamental Theology (Verlag Ferdinand Schöningh, 2018), Faszination des Buddhismus: zum christl.-buddhist. Dialog (1982).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Quais os maiores avanços e os maiores limites do pontificado de Francisco até agora?

Hans Waldenfels – O papa Francisco conseguiu direcionar o olhar para o mundo e principalmente para as pessoas “descartadas” pela sociedade que estão à margem dela. Essas pessoas são principalmente os migrantes e os sem pátria. Isso tem consequências para a visão da sociedade, em que, desde o início, ele pronunciou palavras críticas, mas também para a Igreja, que, para ele, está excessivamente voltada para si mesma. Como ele atenta muito pouco para a importância do magistério e principalmente também do direito canônico, seus adversários não têm dificuldade em levantar questionamentos.

IHU On-Line – Como compreender a fundamentação teológica de Francisco? Em que medida podemos afirmar que suas perspectivas trazem uma renovação à Igreja?

Hans Waldenfels – Os fundamentos teológicos do Papa são sua referência ao Concílio Vaticano II [1] na interpretação dada a este que Francisco vivenciou em sua terra natal, a Argentina. Foi importante, neste sentido, a versão da Teologia da Libertação [2] que ele encontrou em sua pátria e vivenciou nos grandes sínodos latino-americanos. Ele teve uma participação substancial no documento de Aparecida [3]. Neste caso, as perspectivas são o povo de Deus, que para ele não é objeto, e sim sujeito da evangelização, e a religiosidade popular, que ele promove. O Papa vive bem substancialmente da celebração da Eucaristia, que celebra a cada manhã, e das leituras da Escritura, que o acompanha.

IHU On-Line – Que evangelização é proposta por Francisco? E até que ponto as resistências ao pontificado estão associadas a essa nova forma de ver o Evangelho e a própria Igreja?

Hans Waldenfels – O papa Francisco vê no povo de Deus como um todo os sujeitos ativos da missão. Disso resulta uma nova forma de ver os leigos. Como em grego o povo de Deus se chama laos tou theou, este termo também é a palavra fundamental para designar o “leigo”. A rigor, todos os cristãos batizados, tanto os ordenados quanto os não ordenados, são “leigos”. Disso se seguem duas coisas: 1) A estrutura dos ministérios precisa ser objeto de exame e nova reflexão. 2) Laos e demos devem ser distinguidas como designações de “povo”; em consequência, não se deveria falar com demasiada leviandade de “democracia na igreja”.

IHU On-Line – O que o reconhecimento do papel de Maria Madalena [4], feito publicamente pelo Papa em 2016, como a “verdadeira e autêntica evangelizadora”, pode representar para os debates sobre a ordenação sacerdotal feminina? Estará Francisco promovendo um afastamento da carta apostólica Ordinatio Sacerdotalis [5], de João Paulo II [6]?

Hans Waldenfels – Está correto que, com sua decisão de elevar a festa de Maria Madalena ao nível de uma festa de apóstolo, o papa Francisco colocou um sinal que, até agora, infelizmente ainda não foi realmente percebido pela teologia.

Como se sabe, Maria Madalena foi chamada de apostola apostolorum [apóstola dos apóstolos] por Padres da Igreja antigos. Segundo o Evangelho de João, Maria Madalena foi a primeira a se encontrar com o Senhor ressurreto e foi por ele incumbida de anunciar aos discípulos: “Vi o Senhor”. No Evangelho de Marcos, há uma afirmação semelhante: “Tendo ressuscitado na madrugada do primeiro dia da semana, Jesus apareceu primeiro a Maria de Magdala” (Mc 16,9).

Para a discussão sobre a ordenação de mulheres, isso significa que os fundamentos da teologia dos ministérios precisam ser repensados de modo inteiramente novo. Não há dúvida de que João Paulo II quis dar a seu escrito Ordinatio Sacerdotalis uma importância elevada. Pode-se, entretanto, perguntar por que ele não ousou, na época em que Joseph Ratzinger [7] era prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé [8], dar a seu enunciado o nível de um enunciado papal infalível.

A isso se acrescenta o fato de que, sob o papa Francisco, os limites do falar infalível se tornam muito claros: ele próprio se chama repetidas vezes de pecador e precisa admitir para si mesmo e para o mundo que comete erros e precisa se desculpar (exemplo: Chile [9]).

De resto, em primeiro lugar, é a Igreja como um todo que é infalível – ela não pode cair fora da verdade. E depois a infalibilidade encontra expressão no círculo dos bispos e, por fim, no Papa.

IHU On-Line – Quais os maiores desafios do pontificado daqui para frente? E quais suas expectativas quanto a Francisco e à própria Igreja?

Hans Waldenfels – Os pontos decisivos já foram mencionados: o que está em pauta é a renovação da Igreja toda, que não consiste só nos ministros, mas em todas as pessoas batizadas. Neste sentido, deve-se levar em conta que a Igreja Romana há muito também já reconhece, para além do âmbito das pessoas que se entendem como membros da Igreja em sentido pleno, o batismo em igrejas chamadas heréticas e cismáticas. Em termos teológicos nós também falamos de graus distintos de pertença, e não só de separações pelas quais os pósteros, via de regra, não são responsáveis. Neste tocante, a forma como se age na prática no âmbito ecumênico está, em muitos casos, à frente das reflexões teóricas. Mas não se deve ignorar o fato de que, em nosso mundo plural, em que outros meios de comunicação assumem o domínio, muitas pessoas veem com crescente indiferença as opiniões doutrinárias que a Igreja proclama oficialmente.

Só se pode desejar ao papa Francisco que ele, ante as hostilidades e resistências dentro da Igreja, não perca o ânimo, e sim mantenha seu ímpeto inicial. Além disso, em termos biográficos ele também já não é um dos mais jovens. E também Pio IX [10] começou, no passado, com uma grande abertura, até que o Concílio Vaticano I [11] acabou ocorrendo. Francisco é um pastor. Ele não precisa ser um teólogo na acepção científica da palavra. Os teólogos e também os episcopados do mundo inteiro deveriam, atualmente, apoiá-lo e não deixá-lo sozinho. De que outro modo a Igreja haveria de se tornar uma Igreja sinodal?

IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?

Hans Waldenfels – O que mais tenho a dizer sobre o papa Francisco está exposto mais detalhadamente em dois livros meus: Sein Name ist Franziskus (Paderborn, 2014) e Wann, wenn nicht jetzt (Kevelaer, 2017). Embora a reforma só avance lentamente, ela não pode ser detida. Ela também continuará, e terá de continuar, para além do tempo de vida do papa Francisco.

Notas:

[1] Concílio Vaticano II: convocado no dia 11-11-1962 pelo papa João XXIII. Ocorreram quatro sessões, uma em cada ano. Seu encerramento deu-se a 8-12-1965, pelo papa Paulo VI. A revisão proposta por este Concílio estava centrada na visão da Igreja como uma congregação de fé, substituindo a concepção hierárquica do Concílio anterior, que declarara a infalibilidade papal. As transformações que introduziu foram no sentido da democratização dos ritos, como a missa rezada em vernáculo, aproximando a Igreja dos fiéis dos diferentes países. Este Concílio encontrou resistência dos setores conservadores da Igreja, defensores da hierarquia e do dogma estrito, e seus frutos foram, aos poucos, esvaziados, retornando a Igreja à estrutura rígida preconizada pelo Concílio Vaticano I. A revista IHU On-Line publicou na edição 297 o tema de capa Karl Rahner e a ruptura do Vaticano II, de 15-6-2009, bem como a edição 401, de 3-9-2012, intitulada Concílio Vaticano II. 50 anos depois, e a edição 425, de 1-7-2013, intitulada O Concílio Vaticano II como evento dialógico. Um olhar a partir de Mikhail Bakhtin e seu Círculo. Em 2015, o Instituto Humanitas Unisinos – IHU promoveu o colóquio O Concílio Vaticano II: 50 anos depois. A Igreja no contexto das transformações tecnocientíficas e socioculturais da contemporaneidade. As repercussões do evento podem ser conferidas na revista IHU On-Line 466, de 1-6-2015. (Nota da IHU On-Line).

[2] Teologia da Libertação: escola teológica desenvolvida depois do Concílio Vaticano II. Surge na América Latina, a partir da opção pelos pobres, e se espalha por todo o mundo. O teólogo peruano Gustavo Gutiérrez é um dos primeiros que propõe esta teologia. A teologia da libertação tem um impacto decisivo em muitos países do mundo. Sobre o tema confira a edição 214 da IHU On-Line, de 2-4-2007, intitulada Teologia da libertação. Leia, também, a edição 404 da revista IHU On-Line, de 5-10-2012, intitulada Congresso Continental de Teologia. Concílio Vaticano II e Teologia da Libertação em debate. (Nota da IHU On-Line).

[3] Documento de Aparecida: A V Conferência Geral do Episcopado da América Latina e do Caribe aconteceu de 13 a 31-5-2007, em Aparecida, São Paulo. As conclusões da reunião compõem o Documento Conclusivo da V Conferência. Sobre o tema, a IHU On-Line produziu uma revista especial em 20-6-2007, edição 224, intitulada Os rumos da Igreja a partir de Aparecida. Uma análise do documento final da V Conferência. (Nota da IHU On-Line).

[4] Maria Madalena: é descrita no Novo Testamento como uma das discípulas mais dedicadas de Jesus Cristo. É considerada santa pelas diversas denominações cristãs e sua festa é celebrada no dia 22 de julho. Segundo relatos evangélicos, é ela quem encontra o sepulcro vazio e se depara com o Cristo ressurreto, de quem recebem a missão de anunciar a sua ressurreição. O nome de Maria Madalena a descreve como sendo natural de Magdala, cidade localizada na costa ocidental do Mar da Galileia. A IHU On-Line número 489, de 18-7-2016, intitulada Maria de Magdala. Apóstola dos Apóstolos, se dedica analisar a história de Madalena e seu papel para o cristianismo. (Nota da IHU On-Line).

[5] Ordinatio Sacerdotalis: é uma carta eclesiástica publicada pelo papa João Paulo II em 22 de maio de 1994 na qual ele discutiu a posição da Igreja Católica exigindo "a reserva da ordenação sacerdotal somente aos homens" e escreveu que "a Igreja não tem autoridade qualquer coisa para conferir a ordenação sacerdotal às mulheres ". Enquanto o documento declara que foi escrito para "que toda dúvida pode ser removida em relação a uma questão de grande importância", tem sido contestada por alguns católicos, tanto quanto à substância quanto à natureza autoritária de seu ensino. Muitos estudiosos concordam que não é uma afirmação infalível, pois não define um ensinamento relacionado à fé ou à moral. No entanto, esta opinião predominante ignora que o próprio documento especifica que este assunto pertence à fé, uma vez que é "uma questão que pertence à própria constituição divina da Igreja", e é prerrogativa do Papa fazer tais definições: "É a província de o Magistério para decidir se uma questão é dogmática ou disciplinar: neste caso, a Igreja já decidiu que esta proposição é dogmática e que, por se tratar de lei divina, não pode ser modificada ou mesmo revista". (Nota da IHU On-Line).

[6] Papa João Paulo II (1920-2005): Sumo Pontífice da Igreja Católica Apostólica Romana e soberano da Cidade do Vaticano de 16 de outubro de 1978 até sua morte. Teve o terceiro maior pontificado documentado da história, reinando por 26 anos, depois dos papas São Pedro, que reinou por cerca de trinta e sete anos, e Pio IX, que reinou por trinta e um anos. Foi o único papa eslavo e polaco até a sua morte, e o primeiro papa não italiano desde o neerlandês papa Adriano VI em 1522. João Paulo II foi aclamado como um dos líderes mais influentes do século XX. Com um pontificado de perfil conservador e centralizador, teve papel fundamental para o fim do comunismo na Polônia e talvez em toda a Europa, bem como significante na melhora das relações da Igreja Católica com o judaísmo, Islã, Igreja Ortodoxa, religiões orientais e a Comunhão Anglicana. (Nota da IHU On-Line).

[7] Bento XVI, nascido Joseph Aloisius Ratzinger (1927): foi papa da Igreja Católica e bispo de Roma de 19 de abril de 2005 a 28 de fevereiro de 2013, quando oficializou sua abdicação. Desde sua renúncia é Bispo emérito da Diocese de Roma. Foi eleito, no conclave de 2005, o 265º Papa, com a idade de 78 anos e três dias, sendo o sucessor de João Paulo II e sendo sucedido por Francisco. (Nota da IHU On-Line).

[8] Congregação para a Doutrina da Fé: a mais antiga das nove congregações da Cúria Romana, um dos órgãos do Vaticano. Fundada pelo Papa Paulo III, em 21 de julho de 1542, com o objetivo de defender a Igreja da heresia. É historicamente relacionada com a Inquisição. Até 1908, era denominada como Sacra Congregação da Inquisição Universal quando passou a se chamar Santo Ofício. Em 1967, uma nova reforma, durante o pontificado de Paulo VI, mudou para o nome atual. (Nota da IHU On-Line).

[9] O IHU, na seção notícias do dia, em seu site, publicou inúmeros textos sobre as questões evolvendo a questão do Chile. Entre eles, Chile. As cicatrizes da Igreja. O fantasma dos abusos sexuais às vésperas da visita do Papa Francisco; e Papa Francisco e as vítimas de abusos no Chile: uma autocrítica radical e pública, mas apenas um primeiro passo. Leia mais. (Nota da IHU On-Line).

[10] Pio IX (1792-1878): nascido Giovanni Maria Mastai-Ferretti, foi papa durante mais de 31 anos, entre 16 de Junho de 1846 e a data do seu falecimento. Era Frade Dominicano. (Nota da IHU On-Line).

[11] Concílio Vaticano I (CV I): deu-se de 8 de dezembro de 1869 a 18 de dezembro de 1870, proclamado por Pio IX (1846 a 1878). As principais decisões do Concílio foram conceber uma Constituição dogmática intitulada "Dei Filius", sobre a Fé católica e a Constituição Dogmática "Pastor Aeternus", sobre o primado e infalibilidade do Papa quando se pronuncia "ex-cathedra", em assuntos de fé e de moral. E tratou-se de questões doutrinárias que eram necessárias para dar novo alento e informar melhor sobre assuntos essenciais de fé. Para além de proclamar como dogma a Infalibilidade Papal, o Concílio, ao defender os fundamentos da fé católica, condenou os erros do Racionalismo, do Materialismo e do Ateísmo. (Nota da IHU On-Line). 

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