Bill Gates: entre uma escalada à OMS e as vacinas, há quem tema o conflito de interesses

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08 Abril 2020

Uma premissa necessária, ainda que apenas em deferência à recém-criada força-tarefa do governo contra mentiras sobre o coronavírus, apresentada pelo subsecretário com delegação à Editoria Andrea Martella. Quem acredita que Bill Gates esteja envolvido ou, pior, liderando um complô internacional que se aproveita da pandemia para propósitos distópicos, necessita da atenção de alguém familiarizado com o estudo de Freud e Jung, mais que de uma força-tarefa que o sancione.

A reportagem é de Mauro Bottarelli, publicada por Business Insider, 07-04-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

Dito isto, algumas realidades parecem dados de fato. Comprovados.

Por exemplo, o fato de o fundador da Microsoft estar investindo dinheiro na construção de fábricas para a pesquisa e o desenvolvimento simultâneos de sete vacinas contra o coronavírus.

Em um clip liberado para pré-visualização do episódio do The Daily Show de 1º de abril, Gates confirmou ao apresentador Trevor Noah que sua organização filantrópica, a Fundação Gates, pode se mobilizar mais rapidamente do que os governos para combater a epidemia de coronavírus. “Como a nossa fundação é muito competente em doenças infecciosas, pensamos nessa epidemia, financiamos algumas coisas para estar mais preparados, como acontece com as vacinas. Nosso dinheiro, chegando mais rápido, pode acelerar o processo", disse Gates.

Que afirmou, no final, que apenas uma ou duas das sete vacinas serão selecionadas, admitindo implicitamente uma potencial perda de dinheiro em relação às pesquisas, tecnologias e infraestruturas que depois serão abandonadas: "Mesmo se acabarmos por escolher no máximo duas, financiaremos as fábricas para as sete, para não perder tempo e depois construir a fábrica para produzi-la”. Nada inquietador. Aliás, paradoxalmente, um fortalecimento formal – insuflado com investimentos de vários zeros - do perfil filantrópico do bilionário estadunidense, agora totalmente concentrado em sua segunda vida pós-Microsoft.

Há um problema. Aliás, três. No entanto, podem ser resumidos em uma única fórmula: conflito de interesses. Potencial, é claro. Mas cada vez mais evidente, com a passagem do tempo e o aumento do perfil emergencial global do coronavírus, agora oficialmente desembarcado nos EUA com sua carga de doentes e mortes.

O primeiro refere-se, sempre em deferência à necessidade de obter informações de fontes credíveis e autorizadas, a um artigo publicado pelo Cnbc, no qual se fala com pragmatismo e sem terias conspiratórias do que é um verdadeiro e próprio business. De fato, a pandemia chamou a atenção sobre um setor, o das vacinas, que movimenta cerca de 35 bilhões de dólares, segundo cálculos da AB Bernstein.

Na investigação, o jornal financeiro dos EUA revela quais são os principais atores globais do setor, apontando que 85% do mesmo seja de fato monopolizado por apenas quatro nomes: a britânica GlaxoSmithKline, a francesa Sanofi e as estadunidenses Merck e Pfizer.

A partir de hoje, ou melhor, do anúncio de 1º de abril na televisão, a Fundação Gates também parece ter realmente se lançado nesse lucrativo “entrevero”.

E o adjetivo não quer conotar negativamente a escolha, apenas ressaltar um fato que emerge do estudo da Cnbc, admitido com franqueza pelo analista da AB Bernstein, Wimal Kapadia, em uma reportagem oficial e pública: “Para cada dólar investido em vacinas nos 94 países do mundo com a menor renda per capita, o retorno líquido é de 44 dólares. É muito difícil alguém discordar ou negar esse fato. Esse oligopólio foi criado por meio de significativas consolidações de mercado, impulsionadas principalmente pelas complexidades da cadeia produtiva e de suprimentos".

Difícil, mesmo tentando, acusar o Cnbc ou a AB Bernstein de conspiração. A menos que se pretenda aumentar o nível do ridículo. Em resumo, com as contas de uma empresa de consultoria de primeiro nível nas mãos, o business das vacinas quase sempre paga um dividendo altíssimo. Tão alto que justifica investimentos aparentemente a fundo perdido e meramente filantrópicos, como o que Bill Gates anunciou no The Daily Show.

Mas isso não é suficiente, porque, a esse respeito, é necessário - para que as informações sejam completas - lembrar como, no contexto do Event 201 Pandemic Exercise, organizado em 2019 pela Gates Foundation, em colaboração com a Johns Hopkins University, o primeiro segmento do simpósio dedicado ao risco de uma pandemia que atingisse um mundo despreparado - Introductions and medical countermeasures discussion - contivesse o resultado de uma pesquisa ad hoc, que mostrava que, no caso de uma explosão de uma epidemia global, 65% dos entrevistados nos EUA estavam prontos para testar uma vacina, mesmo que esta ainda estivesse em fase meramente experimental. Cobaias por medo e desespero em quantidades industriais. Aliás, globais. E grátis.

Segundo problema: a "escalada" como cavaleiro branco que Bill Gates e sua Fundação fizeram desde 2000 numa OMS cada vez mais maltratada, na verdade abandonada pelos Estados em termos de financiamentos. Para traçar os movimentos dessa conquista, interveio outro jornal dos EUA, dificilmente rastreável por estar entre os favoritas de Napalm 51, ou seja, Politico, cujo artigo - que remonta a 2017, portanto, não suspeito de ser um aproveitador da última hora – que a partir do título não parece deixar muito espaço para interpretação: conheça o médico mais poderoso do mundo (Meet the world’s most powerful doctor).

Na reportagem, que nunca foi desmentida em seus conteúdos por ninguém, destaca-se a definição do papel desempenhado por Bill Gates em nível internacional sanitário, delineado sem enfeites por um representante de uma ONG primária com sede em Genebra e protegido pelo anonimato: “Agora, Bill Gates é tratado como um chefe de Estado, não como um homem de negócios. E não apenas na OMS, também no G20". Desde 2000, a Fundação Bill e Melinda Gates financia de fato a OMS com doações de US$ 2,4 bilhões: uma quantia enorme, porém em perspectiva não significativa para os cofres da instituição filantrópica, que pode contar com algo como 52 bilhões de dólares de fundo financeiro. Tudo isso, no mesmo período em que os vários governos do mundo reduziram ou redimensionaram suas contribuições à OMS, especialmente no período do triênio de 2008 a 2010, devido às restrições orçamentárias para itens não fundamentais impostos pela crise econômica global.

Até o momento, as contribuições públicas-estatais pesam menos de um quarto do financiamento total da OMS, cada vez mais um organismo dependente de doações privadas. Enquanto supervisiona, pelo menos formalmente, em nível global, um ativo como a saúde pública.

E hoje, em época de pandemia (declarada com clamoroso atraso pela própria OMS), a Organização Mundial da Saúde está coordenando cerca de 50 grupos de trabalho em todo o mundo na pesquisa de uma vacina contra o Covid-19. Entre esses, provavelmente, também os sete laboratórios financiados por Bill Gates e sua Fundação.

Terceiro problema, em relação ao potencial conflito de interesse privado em uma pandemia (infelizmente) pública, a intervenção-entrevista de mais de 50 minutos realizada em 24 de março por Bill Gates para a Ted Connects diária de Chris Anderson, no âmbito das mais famosas Ted Talks.

Num contexto enobrecido e "higienizado" de possíveis leituras complotistas, graças à natureza de ONGs que estão por trás da organização dos encontros, Bill Gates de fato aprofundou os temas que ele próprio tratou em um artigo escrito para o New England Journal of Medicine de 28 de fevereiro e intitulado um tanto milenaristicamente Perspective.

Na base, conceitos agora amplamente permeados e sedimentados na opinião pública, bem como nos modus operandi dos governos mundiais, como a necessidade de antepor a proteção da saúde às exigências da economia e aquela fundamental do princípio do bloqueio, acompanhados paralelamente pelo desenvolvimento da pesquisa por uma vacina.

Mas é aos 34 min e 14 seg da transmissão que Bill Gates toca o alarme das antenas de muitos nos Estados Unidos, especialmente aqueles que veem um ataque rasteiro e silencioso às liberdades civis em relação à luta contra a pandemia. Aqui está sua frase, textual:

Eventually what we’ll have to have is certificates of who’s a recovered person, who’s a vaccinated person… Because you don’t want people moving around the world where you’ll have some countries that won’t have it under control, sadly. You don’t want to completely block off the ability for people to go there and come back and move around. So eventually there will be this digital immunity proof that will help facilitate the global reopening up.

(Eventualmente, o que teremos que ter são certificados de quem é uma pessoa recuperada, quem é uma pessoa vacinada ... Porque você não quer pessoas circulando ao redor do mundo, onde vai ter alguns países que não terão a situação sob controle, infelizmente. Você não quer bloquear completamente a capacidade de as pessoas irem e virem e se movimentarem. Então, eventualmente, haverá essa prova de imunidade digital que ajudará a facilitar a reabertura global - Tradução Livre).

Portanto, não apenas um sujeito privado aparece hoje - de fato – como um dos acionistas majoritários da OMS, instituição formalmente pública chamada a supervisionar a pesquisa científica e farmacológica sobre o vírus. E, no amanhã, para aprovar testes, experimentos e licenças de comercialização, que serão depois submetidas ao aval das várias agências nacionais. Agora, se propõem inclusive conceitos, estes sim com um sabor vagamente distópico, como a "prova de imunidade digital", resultado de uma triagem global em massa, uma espécie de mega-censo com base tecnológica que até - na opinião de Gates - poderia ser a base dos princípios reguladores e normativos para um retorno à normalidade, o gobal reopening up...

Talvez, fora a guerra às fake news, seria o caso fazer algumas perguntas sobre o empenho de Bill Gates na luta contra o coronavírus, sem teorias da conspiração. Porque esse gráfico parece colocar em uma perspectiva perturbadora a atitude de resiliência desesperada que Donald Trump está opondo àqueles que gostariam de impor um bloqueio total dos EUA, não limitando as medidas emergenciais apenas a Nova York.

Deixando de lado os estereótipos provincianos estilo Michael Moore sobre os estadunidenses e sua propensão ontológica e um tanto barbárica a atitudes tipo caubóis, o aumento exponencial da demanda de armas entre os cidadãos geralmente coincide com eventos que o centro vital do país percebe como um divisor de águas. Como, efetivamente, o risco de perda de liberdades pessoais, Segunda Emenda na cabeça.

E quando um deputado do Partido Republicano, como Henry Johnson, chega a propor ao Congresso, no ano de eleição presidencial, um projeto de lei para aumentar o imposto sobre armas em 30%, sobre a munição em 50% e ampliar os poderes de revogação e negação do porte de arma de fogo, significa que algo fora do radar está permeando a sociedade dos EUA em seus fundamentos mais profundos.

Talvez Bill Gates tenha entendido isso antes de todos. E começa a se mover de acordo, em todos os âmbitos possíveis.

 

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