Por que a crise atual tem pouco a ver com a de 2008

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01 Abril 2020

O coronavírus e o subprime prejudicaram seriamente a economia global. Mas, por sua natureza, suas causas e seus efeitos, o choque de 2020 não tem nada a ver com a crise de 2008.

A reportagem é de Christian Chavagneux, publicada por Alternatives Économiques, 30-03-2020. A tradução é de André Langer.

Bolsas de Valores em ioiô, crescimento em queda livre, globalização em pane, preços do petróleo no chão, a volta do desemprego: o espectro da crise de 2008 está em todas as mentes. No entanto, o coronavírus e o subprime representam dois choques violentos na economia mundial que pouco têm a ver entre si.

Em 2008, o capitalismo contemporâneo foi vítima de seus próprios erros. A crise do subprime tem suas origens na desregulamentação financeira, decidida ao longo das décadas por funcionários públicos em sintonia com os lobbies bancários e que permitiram o desenvolvimento de produtos propagadores de riscos nas finanças globais. A crise era endógena ao capitalismo contemporâneo, isto é, inerente ao seu funcionamento.

A crise do coronavírus, ao contrário, não é o resultado da desregulamentação econômica: é um choque exógeno ao capitalismo atual, não é fruto de seu funcionamento. Certamente, o aumento do desmatamento e o aquecimento global estão nos aproximando dos animais portadores dos vírus e os transmitem mais facilmente aos seres humanos, especialmente em uma economia globalizada. Mas o mundo conheceu várias pandemias em economias menos liberais, menos globalizadas e menos poluídas que hoje.

Caminho oposto ao de 2008

Refresquemos a memória sobre 2008: as finanças globais estão paralisadas, os maiores bancos do mundo estão à beira do colapso e a economia real está patinando. Agora, o caminho é o oposto: o choque parte da economia real e é transmitido às finanças. Pela oferta e pela procura.

A crise de 2008 destacou o papel chave dos Estados Unidos na globalização financeira, a de 2020, o papel da China na globalização produtiva. Esse país representa 20% da produção mundial de produtos intermediários, aqueles necessários para a fabricação de outros bens, contra 4% em 2002. A paralisação da produção por causa das pessoas adoentadas, da reclusão dos trabalhadores e do fechamento das fábricas quebraram as cadeias de valor agregado globalizadas de muitos setores. De acordo com uma análise da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), os três setores mais penalizados foram: o de instrumentos de precisão utilizados em muitos setores industriais, o automobilístico e o de equipamentos de comunicação (telefones celulares, etc.). Os países asiáticos (Taiwan, Coreia do Sul, Indonésia e Japão), seguidos pelos outros países emergentes (México, Brasil, Turquia), envolvidos principalmente nessas cadeias de valor, sofreram mais do que os outros a pane chinesa.

A chegada do vírus à Europa e aos Estados Unidos teve, na sequência, os mesmos efeitos sobre a oferta, com o fechamento do comércio, o recurso ao desemprego parcial, etc. Na França, segundo estimativa do INSEE, de 26 de março, a perda de atividade é estimada em 35%, afetada pela queda nos serviços comerciais (transporte, alimentação, lazer...).

A esse choque de oferta soma-se um choque de demanda. O comércio, o turismo, as viagens aéreas, os eventos, as vendas de veículos, etc. perderam seus clientes. Sem esquecer os efeitos psicológicos: aumento das economias domésticas por precaução e adiamento das decisões de investimentos das empresas. Certamente, subsistem alguns bolsões de atividade (comércio de alimentos, etc.), alguns dos quais estão passando por um forte crescimento (produtos de saúde, atividades digitais, telecomunicações, etc.), favorecidos por um preço muito baixo do petróleo, abaixo de 30 dólares por barril no centro da crise, o que constitui um apoio ao poder de compra. Mas tanto as demandas domésticas como o comércio mundial estão entrando em colapso em todos os lugares.

Não é a mesma finança

Em 2020, assim como em 2008, as Bolsas de Valores despencaram, particularmente as ações dos bancos: após sua alta do início do ano, no dia 17 de março, o índice dos bancos europeus perdeu metade do seu valor em uma semana! No entanto, a situação é diferente. Após a falência do Lehman Brothers, foi necessário abrir os canteiros de reconstrução das finanças. Hoje, é preciso “apenas” proteger o sistema bancário da crise na economia real. Os bancos centrais forneceram aos bancos privados todo o dinheiro necessário e os reguladores concordaram em relaxar algumas restrições regulatórias. Em troca, o Banco da Suécia sugeriu que os bancos não distribuíssem dividendos sobre os resultados de 2020, um debate que surgirá em outros países.

A atenção se concentrou muito sobre os mercados de ações. Como pensar que os investidores possam ter uma opinião fundamentada sobre as empresas e os Estados neste período de incerteza radical? Não seria melhor fechar as Bolsas de Valores?

No dia 15 de março, em entrevista a Echos, Frédéric Oudéa, executivo-chefe da Société Générale e porta-voz da Federação Francesa de Bancos, explicou que “hoje não há nenhuma razão para fechar os mercados, que funcionam bem, ou seja, há preços de compra e venda”. Certamente, os investidores encontram-se na incerteza, mas o banqueiro e investidor explica que sempre encontra pessoas capazes de anunciar preços pelos quais se pode comprar e vender as ações e as dívidas do Estado, portanto, não há nenhuma razão para parar o mercado.

Mesmo em 2008, os mercados não foram fechados. Exceto na Islândia. Mas, para Eric Dor, diretor de estudos econômicos da IÉSEG, este país não serve de modelo para hoje, porque “era um mercado pequeno e pouco sistêmico”. “Vamos imaginar que podemos fazer isso no nível global hoje. Não tenho certeza de que, no atual ambiente operacional financeiro, isso não faça mais mal do que bem”, confirma Thierry Philipponnat, diretor de pesquisa da organização não governamental (ONG) Finance Watch, que pleiteia por uma finança a serviço da economia. Numa situação em que os Estados não estariam mais em condições de financiar suas dívidas, os fundos de pensão em condições de vender os ativos que possibilitavam o pagamento de pensões, os financistas seriam tentados a abrir um mercado paralelo fora do seu controle.

Felizmente, a história mostrou que as autoridades públicas podem agir sem ter que fechar os mercados. Muitos países europeus, inclusive a França, baniram os instrumentos de especulação em queda por um mês. Os economistas historiadores Paul Lagneau-Ymonet e Angelo Riva lembram como, durante a ocupação da França pela Alemanha nazista, o governo de Vichy enquadrou seriamente as transações: taxa de corretagem mais alta, proibição de transações futuras, limitação imposta às variações diárias de preço de 3% e, em seguida, de 1%, imposto sobre ganhos de capital bursáteis e limitação de pagamento de dividendos. Mesmo sem fechar os mercados, podemos reduzir o interesse da especulação.

Foram necessários vários anos para o mundo se recuperar da crise estrutural do subprime. Se a China é um indicador do que nos espera, vários sinais convergem para mostrar um choque muito violento, muito mais forte do que em 2009, no pior momento da crise, mas seguido de uma retomada da atividade no trimestre seguinte e que se espera que acelere à medida que o país voltar ao normal e proporcionalmente ao apoio aportado pelas autoridades públicas.

Uma queda mais forte e mais curta

Teremos então presenciado uma crise conjuntural e não estrutural: uma queda repentina, mas não duradoura, ao contrário dos longos anos de crescimento suave que se seguiram a 2008-2009. O buraco é mais fundo, mas devemos sair mais rápido. Porque as fábricas e os escritórios fechados ainda estão de pé, a grande maioria dos trabalhadores doentes curada, aqueles com desemprego parcial encontrarão seu emprego e o funcionamento do sistema bancário será muito menos afetado. Os bancos centrais reagiram, assim como as políticas fiscais, para limitar ao máximo as perdas de potencial crescimento das economias que representam as empresas que fecham suas portas e os empregos definitivamente perdidos. Segundo estimativas da seguradora de crédito Euler Hermes, as falências de empresas vão aumentar 14% em todo o mundo em 2020, 16% na União Europeia e 8% na França. Algumas não vão se recuperar.

Última diferença com 2008: a falta de coordenação dos governos na crise atual. O G20 de abril de 2009 em Londres simbolizou a resposta conjunta de Estados e banqueiros centrais que concordaram em recolocar as finanças nos trilhos, todos oprimidos por seu sistema bancário em pane. Desta vez, a crise sanitária pode muito bem ser global, vemos que ela não afeta as diferentes regiões ao mesmo tempo e da mesma maneira, como ao interno dos países, as regiões não são afetadas da mesma maneira, e que, nas regiões, os indivíduos não são afetados da mesma maneira. Se o inimigo é comum, como era a instabilidade financeira em 2008, os efeitos da Covid-19 são diferentes segundo as populações (os italianos são mais idosos), os sistemas nacionais de saúde – que não podem ser alterados rapidamente –, o nível de cobertura médica, etc. A necessidade de coordenação será maior quando se trata de revitalizar a economia mundial, pelo menos no nível regional. Infelizmente, não está dito que os países europeus estarão à altura do desafio.

Causas diferentes, mecanismos de transmissão diferentes, efeitos diferentes, respostas políticas aproximadamente semelhantes, mas não coordenadas, as crise se sucedem, mas não são iguais.

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