Preservação ambiental é a chave para a contenção de doenças

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10 Março 2020

"Pesquisadores de zoonoses (doenças transmitidas de animais para o ser humano) observam o risco do surgimento de outras epidemias caso o habitat dos morcegos continue sendo invadido ou destruído. Contudo, é importante destacar que esses animais são de extrema importância para a dinâmica ecológica do planeta e a sua caça causaria um grande impacto biológico. É válido lembrar que maus-tratos aos animais é crime", escreve Allan Carlos Pscheidt, graduado em Ciências Biológicas, graduado em Licenciatura Plena em Ciências Biológicas, mestre em Biodiversidade Vegetal e Meio Ambiente pelo Instituto de Botânica (2011), doutor em Biodiversidade Vegetal e Meio Ambiente pelo Instituto de Botânica (2015) e doutor sanduíche no Botanische Staatssammlung München (Alemanha), em artigo publicado por EcoDebate, 09-03-2020.

Eis o artigo.

Epidemias como o Ebola, Sars, Mers e, recentemente, o Covid-19 (coronavírus), que tem infectado milhares de pessoas na China e ao redor do mundo, têm em comum a sua origem vinda dos morcegos, segundo alguns estudos. Esses mamíferos vivem em grandes populações que abrangem diversos territórios e convivem com muitos vírus, sem adoecer. Isso os torna um reservatório natural de diferentes tipos de coronavírus e também de outros vírus como a raiva, Marburgo, Nipah e Hendra, que causaram epidemias em alguns países na África, Ásia e Oceania.

O vírus da raiva é transmitido pela saliva de animais infectados e ocorre em todo o mundo na forma silvestre, com poucos registros atuais de infecções urbanas. O Marburgo foi identificado em epidemias de febre hemorrágica mortal na Angola e Uganda, sendo a mais recente em 2007 quando mineiros contraíram o vírus enquanto trabalhavam na gruta de Kitaka, que abriga uma população de 100 mil morcegos em Uganda. O Nipah provoca síndromes respiratórias e encefalites mortais, e foi registrado na Malásia em 1998 e 2004 após a ingestão de frutas contaminadas pela espécie frutívora, com alta taxa de mortalidade e o Hendra, que em 1994 causou a morte de 300 cavalos de pessoas que manipularam esses animais na Austrália, causando outros surtos menores desde então.

Os morcegos são o segundo maior grupo de mamíferos e correspondem a 25% desta classe de animais no mundo (o primeiro é composto por roedores). Ocorrem em todo o globo, com exceção da Antártida, com habitação em cavernas e outros ambientes. Conhecemos 17 famílias e 177 gêneros e mais de 1.200 espécies de morcegos no mundo.

No Brasil ocorrem cerca de 178 espécies. Segundos profissionais de ciências biológicas, são reconhecidos por serem os únicos mamíferos com voo verdadeiro, promovido pela existência de uma fina membrana de pele que se estende dos dedos até as patas por toda a lateral do corpo, além de apresentar excelente olfato, paladar, audição e boa visão. Ainda possuem a ecolocalização (emissão de ondas ultrassônicas pelas narinas ou boca, que são refletidas no ambiente e retornam em forma de ecos que ajudam na identificação do ambiente e mobilidade).

Em sua dieta estão frutos, sementes, folhas, néctar, pólen, artrópodes (animais dotados de patas articuladas e que possuem esqueleto externo), pequenos vertebrados, peixes e sangue. Cerca de 70% dos morcegos são insetívoros, ou seja, sua alimentação é baseada em insetos, que são alguns vetores de doenças. Assim, esse mamífero contribui com a dinâmica ecológica da natureza na polinização, dispersão e fornecimento de nutrientes, cooperando para a sobrevivência de muitas plantas produtoras de alimentos para diversos animais e cuja ostensiva beneficia o clima e o ciclo de nutrientes importantes. É dessa forma, ingerindo insetos portadores de doenças e se alimentando de frutos, que este animal contribui para a propagação dessas infectologias.

Com a sua adaptação ao voo em sua evolução, o sistema imunológico tornou esses animais imunes a muitas doenças. O mecanismo, ainda em estudo, sugere que a produção de energia para essa ação contribui para o desenvolvimento do sistema imunológico menos sensível e, assim, não elimina as partículas virais, mas protege suas células desses vírus. O mecanismo de produção de energia faz com que as células tenham um ciclo muito rápido e ao morrerem liberam partículas celulares que poderiam ser consideradas como corpos estranhos e, assim, ativando desnecessariamente o sistema imunológico desses animais.

A infecção ocorre quando o habitat natural dos morcegos é alterado e eles passam a ter contato com outros animais silvestres e domésticos. A crescente expansão dos centros urbanos e agropecuária ameaçam florestas, cavernas, locais que são o habitat desses animais, que passam a viver em convívio com o homem, quando ocorre o contágio.

Pesquisadores de zoonoses (doenças transmitidas de animais para o ser humano) observam o risco do surgimento de outras epidemias caso o habitat dos morcegos continue sendo invadido ou destruído. Contudo, é importante destacar que esses animais são de extrema importância para a dinâmica ecológica do planeta e a sua caça causaria um grande impacto biológico. É válido lembrar que maus-tratos aos animais é crime em muitos países, inclusive no Brasil.

A recente epidemia do Covid-19 mostra também a importância da conservação ambiental e de mais estudos da natureza e seres vivos. Ao analisar a dinâmica do sistema imunológico dos morcegos, por exemplo, pode ser possível compreender mecanismos de possíveis novas doenças e buscar medidas preventivas eficazes.

A transmissão dos vírus a partir dos morcegos ocorre quando esses animais são afetados pela atividade humana e a educação ambiental é necessária para combater as fake news relacionadas ao tema. Vale lembrar que ao encontrar um animal silvestre morto, não o manipule. Desta forma, o possível contágio com vírus e bactérias será evitado.

 

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