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27 Setembro 2019

As atitudes e afirmações do presidente Jair Bolsonaro, que têm surpreendido até aqueles que nunca esqueceram a sua trajetória de defensor da ditadura militar e o seu discurso agressivo e intolerante, não são fruto do acaso. Elas seguem uma linha ideológica –  em termos políticos e econômicos – muito clara, presente no cenário mundial pelo menos desde o século 19, e estão sim em sintonia com uma estratégia de marketing muito bem arquitetada, dirigida a uma expressiva fatia do eleitorado brasileiro que tem sido movida pelo ressentimento.

A entrevista é de José Pedro S. Martins, publicada por Pé de Moleque, 20-09-2019.

Ou seja, os “absurdos” pronunciados ou executados pelo presidente não são absurdos. Têm uma origem ideológica construída e fortalecida historicamente e têm o evidente objetivo de continuar mobilizando e influenciando um setor da sociedade brasileira insatisfeito com muitos aspectos da modernidade e com transformações sociais e comportamentais irreversíveis.

Esta avaliação, que joga novas luzes sobre o “fenômeno Bolsonaro” – assunto da mídia internacional quase diariamente – é de um intelectual que acompanha e analisa a cena política brasileira há muitos anos, sempre buscando, com requintada erudição, raízes históricas e procurando contextualizar os fatos de forma mais ampla, além do imediatismo das notícias e artigos de jornal.

A opinião, em entrevista exclusiva à revista literária digital Pé de moleque, é de Roberto Romano da Silva. Professor titular aposentado do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp, ele é autor de vários livros, como “Brasil, Igreja contra Estado” (Editora Kayrós, 1979), “Conservadorismo romântico” (Editora da Unesp), “Silêncio e Ruído, a sátira e Denis Diderot” (Editora da Unicamp), “Razão de Estado e outros estados da razão” (Editora Perspectiva).

Uma das recentes edições do mais importante livro de Donoso Cortés.

Ideologia contrarrevolucionária 

Para Roberto Romano, a origem do ideário seguido por Bolsonaro e seu grupo político está no século 19, quando proliferaram doutrinas contrarrevolucionárias, críticas em especial à Revolução Americana (1776) e à Revolução Francesa (1789).

Entre os ideólogos desse pensamento contrarrevolucionário, Romano cita o maior crítico do iluminismo, Louis-Gabriel-Ambroise, mais conhecido como Bonald (1754-1840), e o filósofo, político e diplomata espanhol Juan Donoso Cortés (1809-1853), com seu ultraconservadorismo religioso.

Esses dois filósofos, nota o professor emérito da Unicamp, são curiosamente ligados ao ultraconservadorismo de matriz católica, o que em tese seria uma contradição com a aproximação de Bolsonaro com o núcleo duro do segmento neopentecostal.

Tendo servido no Corpo de Mosqueteiros no reinado de Luis XV (1710-1774), Bonald foi o principal nome do catolicismo laico francês no período da Restauração, no início do século 19, que se seguiu à turbulência da Revolução Francesa. No retorno dos Bourbons ao trono, Bonald enxergava a oportunidade para a implementação do seu sonhado Estado Cristão.

Donoso Cortés, por sua vez, entendia que o Catolicismo era a matriz civilizatória suprema e defendia essa visão com rigor. Sua principal obra foi o “Ensaio sobre o Catolicismo, o Liberalismo e o Socialismo”, no qual sintetiza as suas ideias.

Católicos extremos, esses dois autores – entre outros expoentes da contrarrevolução, nota Roberto Romano – eram intransigentes defensores da propriedade privada e repudiavam a participação da mulher na vida pública. Defendiam, igualmente, um modelo de família radicalmente conservador.

Um dos muitos títulos de Carl Schmitt.

Bonald e Donoso Cortés (este, sobretudo com o seu conceito de “decisão”), continua o filósofo, foram alguns dos principais influenciadores de um nome central para o autoritarismo no século XX, o do alemão Carl Schmitt (1888-1985).

Jurista, filósofo, foi defensor de componentes ditatoriais para o bom funcionamento do governo, tema por exemplo do ensaio “A Ditadura”. E também era um ferrenho adepto das privatizações, da sacrossanta propriedade privada. Com estas características, na linha da defesa de um Estado soberano, capaz de decidir sobre situações de exceção, aproximou-se naturalmente do nazismo, tendo sido um de seus principais teóricos no campo jurídico.

Estas mesmas ideias, salienta Roberto Romano, estão presentes na Escola de Chicago, vértice do pensamento liberal em economia e autoritário no governo do século XX. A mesma Escola de Chicago que propiciou os fundamentos econômicos para governos ditatoriais como o do Chile do general Augusto Pinochet.

Pois é esta linha histórica, que começa com nomes como Bonald e Donoso Cortês, segue com Carl Schmitt e chega à Escola de Chicago, que fornece as bases ideológicas para o governo de Jair Bolsonaro, resume Roberto Romano. Conservadorismo extremo nos costumes, autoritarismo na condução governamental e respaldo sem tréguas à privatização de bens públicos, como o Pré-Sal cada vez mais na mão de grupos internacionais.

Há, portanto, completa o analista, muita coerência ideológica e doutrinária no governo Bolsonaro, em alinhamento com o ideário de movimentos como o liderado por Steve Bannon, que foi estrategista de Donald Trump e se empenha para a construção de uma Internacional de Direita.

Romano: nada definitivo na história. (Foto: Antonio Scarpinetti – SEC- Unicamp)

Mobilização pelo ressentimento 

Para continuar mobilizando seu eleitorado e viabilizar a execução de seu projeto econômico e político, Bolsonaro manipula o ressentimento de parcelas importantes da sociedade brasileira, prossegue Roberto Romano.

“Muitos falam que o Bolsonaro e seus ministros cometem tolices, mas de fato não são tolices. Geralmente se trata de um aproveitamento ardiloso e esperto do ressentimento das pessoas”, diz o filósofo, que vê em muitas ações “o uso de um marketing inteligente”. Ele cita o caso de uma parcela da comunidade evangélica neopentecostal, que seria ressentida com o papel preponderante que a Igreja Católica exerce junto ao Estado e governo brasileiro.

Em 2010, lembra Roberto Romano, o presidente Luis Inácio Lula da Silva promulgou o Estatuto Jurídico da Igreja Católica no Brasil. O Estatuto consagra alguns privilégios para a Igreja Católica, como no artigo estipulando que os “direitos, imunidades, isenções e benefícios das pessoas jurídicas eclesiásticas que prestam também assistência social serão iguais aos das entidades com fins semelhantes, conforme previstos no ordenamento jurídico brasileiro”.

“Quando a ministra Damares (Alves, da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos) afirma que viu Jesus no pé de goiaba, está se dirigindo a esse público evangélico, com uma mensagem muito clara, visando maior empatia”, comenta o professor da Unicamp.

O reforço dos laços com os evangélicos acontece, continua o analista, no momento em que a Igreja Católica se encontra fragmentada, em função do fortalecimento do setor mais conservador desde o papa João Paulo II, como uma reação à Teologia da Libertação defendida por lideranças como ex-cardeal arcebispo de São Paulo, D. Paulo Evaristo Arns.

Entretanto, Roberto Romano identifica uma reação na Igreja Católica, sob o papa Francisco, por exemplo no caso da situação da Amazônia, tema de um Sínodo que acontece no Vaticano de 6 a 27 de outubro. Será um evento importante, considerando que a Amazônia é um dos principais focos do descontentamento – no Brasil e em esfera global – com o governo Bolsonaro. Os alarmantes e crescentes índices de desmatamento e ataques a terras indígenas têm sido temas permanentes de reportagens e artigos nas principais publicações internacionais.

Romano lembra que “na história nada é definitivo”, ao comentar a ascensão de ideias reacionárias em escala global, como nas situações de xenofobia contra imigrantes e violência contra homossexuais, em contraponto aos ideais libertários que vigoraram desde o Maio de 1968 – estes, por sua vez, no que o filósofo Herbert Marcuse denominou A Grande Recusa, como resposta justamente ao totalitarismo na política e nos costumes, que levaram ao holocausto e outras barbaridades da Segunda Guerra Mundial.

Um dos livros de Roberto Romano.

Ou seja, Roberto Romano acredita que pode haver mudanças, inclusive no cenário brasileiro nada alentador, mas entende que deve ser respeitada uma premissa para que transformações ocorram. Ele entende que apenas a união das diferentes forças sociais poderá levar a modificações nas políticas e orientações do governo Bolsonaro.

“É preciso haver um acordo entre as forças da sociedade civil, pois sem isso sempre haverá um demagogo, um populista a explorar os ressentimentos de parte da população em seu projeto de poder”, sustenta Romano, que lamenta não perceber movimentos para que essa união ocorra de fato, embora ressalte a relevância das grandes manifestações que têm ocorrido, contra a reforma da Previdência, em defesa da Educação, da Ciência e Tecnologia e nas ações dos povos indígenas e na Marcha das Margaridas, que levou milhares de mulheres sem-terra a Brasília. Um convite à ação?

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