Carl Schmitt e o rabino, inimigos ferrenhos que se entendiam muito bem

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16 Março 2019

Há uma grande necessidade de livros como “Ai lati opposti delle barricate. Corrispondenza e scritti 1948-1987” [Em lados opostos das barricadas. Correspondência e escritos 1948-1987] (Ed. Adelphi, 362 páginas), a correspondência inédita entre Carl Schmitt, o grande jurista que aderiu ao nazismo, e Jacob Taubes, rabino e filósofo amado pelos estudantes radicais de esquerda na Alemanha de 1968. Mesmo que, ao passear em um sábado pelo shopping, custaríamos a encontrar um leitor capaz de enfrentar as suas durezas, o denso labirinto de referências teológicas e políticas.

O comentário é de Claudio Gallo, publicado em La Stampa, 15-03-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Coisas de outros tempos ou de especialistas, é claro, mas também um salutar e incomparável choque. É de desconforto, na realidade, que mais se precisa hoje, para despedaçar o encanto daquela que Gianni VattimoSantiago Zabala chamaram de “ausência de emergência”. Talvez seja melhor entender pouco do que engolir o xarope do “nós sabemos”.

O diálogo entre Schmitt e Taubes é grandioso precisamente porque é conduzido “em cima de um abismo”. Aflora uma sólida estima intelectual recíproca, mas nenhuma conciliação é possível, porque, até o fim, os dois campos permanecerão fixados na sua radical oposição. No entanto, o diálogo segue em frente, tornado praticável pela profunda inatualidade, religiosa e metafísica, dos protagonistas.

Schmitt é atraído pelo “jovem” judeu que o entende melhor do que muitos aparentemente mais próximos a ele. Taubes é fascinado pela “perspicácia e maestria estilística” do velho jurista, um fascínio que, na Alemanha do pós-guerra, exigia muita coragem.

Antes dessa edição da editora Adelphi, a mais completa, deve-se lembrar que, em várias ocasiões, [a filósofa italiana] Elettra Stimilli já havia introduzido na Itália o diálogo entre os dois intelectuais.

De que falavam? Essencialmente de teologia política. Em Schmitt, a teologia política é o reconhecimento de que os conceitos da política são uma tradução secular dos teológicos, que a ideia de poder deriva da ideia de Deus.

Sobe o aspecto geral dessa reflexão, Schmitt e Taubes estavam completamente de acordo, e também Walter Benjamin, que no fim de 1930 escreveu uma carta ao jurista para lhe anunciar o envio de uma cópia de “Origem do drama barroco alemão” e confessar como era devedor “da sua concepção de soberania do século XVII”. Benjamin é o passepartout através do qual a discussão florescerá. O ponto de contato, mas também o momento da máxima distância.

De fato, Taubes está bem ciente de que Benjamin é, como ele, um apocalíptico revolucionário, enquanto Schmitt é um “Apocalíptico da contrarrevolução”. No ensaio de 1985 que leva esse título, Taubes explica como o jurista toma partido sem indultos pelo Grande Inquisidor dos Irmãos Karamazov. Com a rara menção de um colóquio (foram três ao todo, sobre os quais ele sempre manteve uma reserva obstinada) na casa do idoso interlocutor em Plettenberg, na Vestfália, Taubes cita Schmitt: “Quem não admite que o ‘Grande Inquisidor’ tem totalmente razão diante de todos esses aspectos exaltados da devoção jesuana não entendeu nem o que a Igreja é, nem o que Dostoiévski efetivamente transmitiu a nós, contra o seu próprio modo de pensar”. Palavras iluminadoras que remete à crucial noção schmittiana de katechon.

A palavra vem da Segunda Carta aos Tessalonicenses de São Paulo e alude ao “poder de freio” que retarda a vinda do Anticristo, termo no qual alguns quiseram entrever o Império de Roma. O conceito de katechon é central no pensamento schmittiano: a força de freio é a oposição ordenada e obstinada ao caos, a essência do papel da Igreja e da política.

Desenrola-se aqui a máxima distância com Taubes, que comenta: “Carl Schmitt pensa como apocalíptico, mas a partir de cima, do lugar do poder. Eu penso a partir de baixo. No entanto, temos em comum justamente a experiência do tempo e da história como dilação – dilação da condenação ao patíbulo”.

Ao pensar a partir de baixo, ele se volta, como Benjamin, ao povo, sob um pano de fundo messiânico. Especialmente em uma perspectiva judaica, é o povo que representa o divino e não, como queria Schmitt, o soberano.

O debate sobre a teologia política toma o caminho inevitável de um comentário sobre a Carta aos Romanos de Paulo. Taubes, “paulino mas não cristão”, interpreta o conteúdo como “uma cristologia especificamente política”, a tentativa de fundar uma nova forma de comunidade que não se baseie nem na etnia (os judeus) nem no direito romano (os pagãos). Taubes explicará em “A teologia política de São Paulo”, o livro que transcreve o seu último seminário idiossincrático e apaixonante em Heildelberg em 1987: “Ele não contrapõe ao nomos da terra romano uma teologia política da Torá na tentativa de fundar um novo poder nacional. Mas, ao contrário, ele nega em princípio a lei como ordenamento político”.

Volta-se ao messianismo revolucionário, o que há de mais distante de Schmitt. Na Carta aos Romanos, Paulo chama os judeus de inimigos, “inimigos de Deus em nome de Cristo”, uma passagem à qual Schmitt não podia deixar de ser sensível e sobre a qual ele aguçou o seu antissemitismo. Mas Taubes ilumina a frase seguinte, “mas são amados (os judeus) em nome dos pais”, para dizer que “o acréscimo quer significar que o amor entre Deus e Israel é mais antigo do que o cristianismo (...) A inimizade de Deus também faz parte desse amor”.

No meio de batalhas mortais, os dois se escreviam marcados por uma estima e com uma finesse em relação às qual só se pode sentir nostalgia. “Sabíamos que éramos inimigos ferrenhos”, diz Taubes, “mas nos entendíamos muito bem. Estávamos cientes de uma coisa: de falar no mesmo nível”.

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