Retomar Marcuse como o pensador das sociedades autoritárias

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31 Agosto 2019

“O fascismo não é um acontecimento, mas algo que habita no capitalismo: um e outro se necessitam e, a longo prazo, derivam no mesmo, a sociedade tecnológica. Valores como a eficiência, a ordem, a correta execução e a concorrência, tomados como algo “natural”, não são coisas novas em nosso atribulado mundo de extrema direita. Tudo faz parte do mesmo jogo, do mesmo tipo de pensamento, da mesma penumbra”, escreve o jornalista argentino Fernando Bogado, em artigo publicado por Página/12, 25-08-2019. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

Convém ser claros em algo: o fascismo não acabou com a queda de Mussolini ou a morte de Hitler. Esse corte histórico funciona mais como uma anedota do que um dado efetivamente real, comprovável no mundo contemporâneo. O surgimento de figuras como Trump e Bolsonaro, ou inclusive o avanço da extrema direita na Europa (Inglaterra, França, outra vez: Alemanha e Itália) não podem ser casualidades ou meras circunstâncias. Há algo operando na leitura da história que vai além do curto prazo, algo que deveria nos permitir ler tais tipos de avanços e lhes oferecer um contexto.

O problema sempre foi ficarmos com a ideia de aparições espontâneas ou pretendidos “giros” que têm um componente metafórico próprio do súbito. Não seria necessário ler esses fenômenos em função de uma lógica que habilita tais tipos de formas de governo? O livro que acaba de ser publicado por Ediciones Godot, Tecnología, guerra y fascismo [Tecnologia, guerra e fascismo (UNESP)], do filósofo alemão Herbert Marcuse (1898-1979), pode servir como uma chave interpretativa que, longe de falar de um mundo perimido, interpela o monstro mais terrível de todos: nosso presente.

Marcuse sempre ficou como uma figura um tanto exterior ao núcleo duro da Escola de Frankfurt. Enquanto Max Horkheimer e Theodor Adorno passam a ser os nomes de referência mais imediata nos avatares do Instituto de Pesquisas Sociais, nomes como Erich Fromm, Franz Neumann e Friedrich Pollock ficam claramente ofuscados, postos em uma segunda linha.

Inclusive, é mais fácil colocar na lista de intelectuais da Escola alguém como Walter Benjamin, que nunca fez parte de maneira oficial do Instituto, que o próprio Marcuse. É que, como bem detalha a longa introdução de Douglas Kellner a esta coletânea de trabalhos dos anos 1940, Marcuse passou de próximo ao diretor do grupo, Horkheimer, a ser lentamente substituído pela ingerência de Theodor Adorno. Resultado, está claro, dessas clássicas conspirações que não isenta nenhum espaço acadêmico.

Rompido seu vínculo com Horkheimer e Adorno, e estando em solo norte-americano, em razão da fuga destes intelectuais da Alemanha nazista, Marcuse se dedica, durante um número importante de anos, a trabalhar como analista sênior dentro do Escritório de Informação de Guerra (OWI, na sigla inglesa). Ingressando em 1942, sua principal tarefa foi a de analisar a sociedade fascista alemã em termos sociológicos e filosóficos, para poder construir uma campanha de contrapropaganda, tanto nos Estados Unidos como na Europa.

O papel de “informante” sempre pesou a alguém que, depois, seria um autor obrigatório para os movimentos da Nova Esquerda dos anos 1960-1970, mesmo que, é necessário dizer, incomodou mais a seus defensores que ao próprio Marcuse. Ele compreendeu que, nesse contexto, a guerra era contra o fascismo, e estava orgulhoso de ter tido seu lugar dentro da contenda. A partir dessa posição, suas análises se tornaram documentos vitais para a ação da inteligência dos Aliados contra o fascismo, o que revela a ideia que Marcuse tinha a respeito de uma filosofia apegada a certo modo da práxis. Algo que para Adorno resultaria um ato da mais pura e perigosa barbárie.

A análise de Marcuse da sociedade fascista ressalta a importância do vínculo com certos elementos do capitalismo para poder entender a emergência deste tipo de lógica política. O nazismo não seria, então, a rejeição do livre mercado e a concorrência, mas um modo de consumação, de cristalização dessa característica.

Em Algumas implicações sociais da tecnologia moderna, único texto deste livro publicado em vida, Marcuse distingue “tecnologia” e “técnica” para poder compreender Hitler e companhia. A “tecnologia” seria tanto a “técnica” (o “aparato técnico da indústria, o transporte e a comunicação”), como os próprios indivíduos e a ordem social que rege seus vínculos. Ou seja, “tecnologia” é tanto as coisas como o pensamento que faz que as coisas encontrem seu lugar no mundo, seu modo de ser operadas ou a ordem política na qual emergem.

É assim que, em um sentido estrito, a centralidade da “eficiência”, que parece própria do mundo das máquinas, torna-se um princípio de organização social que apresenta mudanças no conjunto e em nível individual. Em prol dessa eficiência, cada sujeito precisa abandonar traços de sua personalidade e se moldar a uma correta operacionalidade geral: a ideia da “máquina social” tomou forma.

Esse tipo de construção ideológica se contrapõe à defesa dos ideais da autonomia próprios do iluminismo e a razão ocidental: a racionalidade se converte no irracional, na barbárie fascista, por seguir seus próprios mandatos, desatenta à capacidade crítica do humano e abraçando o tipo de racionalidade tecnológica que se impõe no fascismo.

Assim, o Estado se torna um meio para poder chegar a sua própria anulação. Na sociedade fascista, existe um domínio direto da burguesia poderosa sobre o restante dos indivíduos, que agora se encontram submetidos à ideia de sobrevivência do mais apto, própria dos princípios da concorrência do livre mercado. A burocracia é menos uma parte central da ordem estatal que um grupo de especialistas que cumprem as ordens desse capital imperialista, transnacional e selvagemente sistemático.

Para Marcuse, esse panorama não irá mudar com o fim da Segunda Guerra. No clima da Guerra Fria, anota em um trabalho inédito, quase um apontamento, simplesmente denominado 33 teses, uma visão horrorosa do mundo que se abriu com a queda do fascismo. Por um lado, o bloco soviético tende à restrição de qualquer tipo de desenvolvimento individual dos sujeitos, com a finalidade de se organizar contra o inimigo, ao passo que os países que formam o lado contrário, mais cedo ou mais tarde, adotam modos próprios de um “neofascismo”, o que comprova a dialética repressora da ordem capitalista. Nada ou quase nada restou do melhor das democracias liberais, repartidas suas características entre dois lados que, por diversas razões, ficam alheios a qualquer ideia de revolução.

Artigos, cartas, anotações. O material reunido em Tecnologia, guerra e fascismo permite ver um Herbert Marcuse prévio a seus textos mais recordados (como Eros e civilização, de 1955, O homem unidimensional, de 1964), mas com um conjunto de observações que chegam a uma clareza surpreendente a respeito de uma paisagem por demais obscura. O fascismo não é um acontecimento, mas algo que habita no capitalismo: um e outro se necessitam e, a longo prazo, derivam no mesmo, a sociedade tecnológica. Valores como a eficiência, a ordem, a correta execução e a concorrência, tomados como algo “natural”, não são coisas novas em nosso atribulado mundo de extrema direita. Tudo faz parte do mesmo jogo, do mesmo tipo de pensamento, da mesma penumbra.

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