A violência da extrema direita não para de aumentar. Por que não gera indignação?

Revista ihu on-line

Diálogo interconvicções. A multiplicidade no pano da vida

Edição: 546

Leia mais

Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

Edição: 545

Leia mais

Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

Edição: 544

Leia mais

Mais Lidos

  • Pedro descansa onde ele sonhou, na beira do Araguaia, entre um peão e uma prostituta

    LER MAIS
  • Covid-19: Estudo indica como a pandemia do novo coronavírus chegou e se disseminou pelo Brasil

    LER MAIS
  • “A pandemia econômica será de uma brutalidade desconhecida”. Entrevista com Ignacio Ramonet

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


27 Agosto 2019

“A extrema direita se sente encorajada, legitimada e mais violenta do que nunca, e os crimes de ódio não param de aumentar. Quando falamos de terroristas islamistas fundamentalistas, perguntamo-nos: quem são os religiosos que os radicalizam nas mesquitas ou na internet? É necessário que se gere um debate semelhante em torno do terrorismo da extrema direita por uma razão muito simples: aqueles que encorajam esse tipo de violência são políticos, analistas e meios de comunicação hegemônicos”, escreve Owen Jones, colunista, comentarista e ativista político britânico, em artigo publicado por El Diario, 25-08-2019. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

Mohammed Saleem foi assassinado por um terrorista e, no entanto, o mais provável, é que você não tenha ouvido falar dele. Isso aconteceu em abril de 2013, quando este homem de 82 anos voltava para casa, após passar a tarde rezando em uma mesquita, em Small Heath, Birmingham. Um terrorista neonazista ucraniano, que já havia colocado bombas em três mesquitas, o esfaqueou três vezes nas costas. "Era um homem bonito e muito educado, que incentivou suas cinco filhas - e também seus filhos - a estudar. Amava e agradecia tudo o que o Reino Unido lhe deu", diz Maz Saleem, uma de suas filhas. "Passei seis anos lutando, sem descanso, para que o reconheçam nos grandes meios de comunicação".

Três semanas depois, o assassinato de Lee Rigby, por fundamentalistas islâmicos, indignou o país e provocou uma reunião de emergência do Gabinete de Crise. Nada disso aconteceu por Saleem. "O tema foi escondido debaixo do tapete", disse-me Maz.

E o que aconteceu com o assassinato de Mushin Ahmed, um avô de 81 anos, pelas mãos de dois racistas britânicos, em agosto de 2015, quando a vítima ia rezar na mesquita de Rotherham? Um de seus agressores o chutou com tanta força que fez estourar a dentadura e deixou a marca do tênis em seu rosto. Também podemos falar do homem negro de 32 anos, do leste de Londres, que precisou se arrastar pela estrada A12 para escapar de um ataque racista: havia sido apunhalado cinco vezes.

No último sábado de manhã, o atacado fui eu: sofri ferimentos leves e meus amigos foram espancados por me defenderem. Contudo, como sou um homem branco com acesso aos meios de comunicação, o que aconteceu comigo gerou muito mais interesse do que assassinatos racistas ou crimes de ódio com consequências muito piores do que golpes na cabeça e algumas contusões.

A extrema direita se sente encorajada, legitimada e mais violenta do que nunca, e os crimes de ódio não param de aumentar. Quando falamos de terroristas islamistas fundamentalistas, perguntamo-nos: quem são os religiosos que os radicalizam nas mesquitas ou na internet? É necessário que se gere um debate semelhante em torno do terrorismo da extrema direita por uma razão muito simples: aqueles que encorajam esse tipo de violência são políticos, analistas e meios de comunicação hegemônicos.

Pensemos na escalada da ameaça. A extrema direita sempre teve dois inimigos principais: as minorias e a esquerda política. Nada mudou. Oito anos atrás, o terrorista de direita norueguês, Anders Breivik, assassinou dezenas de pessoas, a maioria jovens socialistas, na ilha de Utøya. Seus motivos? A luta da esquerda contra o racismo representava, para ele, o motor do que descreveu como "islamização" e, portanto, a destruição da Europa cristã.

Essa foi uma expressão especialmente violenta de uma teoria conspiradora que persiste na extrema direita e, embora muitos adolescentes tenham morrido naquela ilha norueguesa, essa narrativa não pereceu. De acordo com essa mentalidade, as pessoas de esquerda traem suas nações, procurando destruí-las pela imigração em massa de pessoas culturalmente hostis, e são consideradas aliadas de um inimigo altamente odiado: o Islã como uma religião demonizada e os muçulmanos como povo.

Os terroristas de extrema direita se alimentam de ódio e isso é muitas vezes alimentado pelas elites, quando lhes convém. O recente ataque terrorista em El Paso, no qual pessoas de origem latino-americana morreram, não pode ser dissociado da sistemática demonização dos imigrantes mexicanos realizada pelos meios de comunicação e os políticos republicanos, e que agora o presidente dos Estados Unidos leva adiante, de forma feroz, chamando-os de estupradores e criminosos.

Há menos de um ano, em Pittsburgh, morreram e foram mutilados quase uma dúzia de judeus, em uma comunidade que é alvo da extrema direita há dois mil anos. O suposto terrorista acusou os judeus de tentarem colocar muçulmanos "malvados" nos Estados Unidos. Temos aqui um ódio ancestral combinado com uma manifestação mais moderna de ódio racista: os judeus representados como desleais e desenraizados, procurando destruir a civilização ocidental, importando muçulmanos perigosos. De forma assustadora e com declarações abertamente antissemitas, esta semana, Donald Trump acusou os judeus americanos que votaram no Partido Democrata de uma "enorme deslealdade".

O ataque terrorista de extrema direita de 2015 contra uma igreja da comunidade afro-americana, em Charleston, não pode ser analisado sem levar em conta que a escravidão, que deixou um extenso legado racista, foi abolida há pouco mais de 150 anos, o equivalente a apenas dois períodos vitais. No massacre de Christchurch, na Nova Zelândia, morreram mais de 50 muçulmanos, pessoas cuja religião tem sido alvo não apenas da extrema direita, mas também de muitos meios de comunicação e políticos de partidos importantes.

No Reino Unido, a parlamentar trabalhista Jo Cox foi assassinada por um terrorista branco da extrema direita, que quando se apresentou perante o tribunal proclamou "morte aos traidores, liberdade para o Reino Unido". O que aprendemos com isso?

Como é possível que Nigel Farage pôde se gabar de que o referendo do Brexit triunfou "sem disparar uma única bala" e, em seguida, declarar que “colocaria uma roupa camuflada, pegaria um rifle e marcharia para a frente de batalha”, caso o Brexit não fosse executado, sem que sua vida política e sua imagem pública tenham sido afetadas?

Como é que o país não ficou horrorizado quando um terrorista de extrema direita planejou assassinar a parlamentar trabalhista Rosie Cooper com um facão? Como isso não gerou a decisão de aniquilar a ideologia política que promove esse tipo de violência? O que aconteceu com o terrorista de extrema direita que assassinou um grupo de muçulmanos, de Finsbury Park, e falou sobre seu desejo de matar Jeremy Corbyn e Sadiq Khan por considerá-los defensores dos terroristas?

Aqueles que alimentam o ódio que radicaliza os extremistas de direita não estão gritando nas esquinas. Estão nas primeiras páginas dos jornais. Utilizam a retórica como "inimigos do povo" e "esmagar os sabotadores", distorcem os fatos, criam mitos, contam meias verdades e mentem para alimentar o ódio contra muçulmanos, migrantes e refugiados, e para transformá-los em bodes expiatórios por crimes cometidos pelos poderosos.

Depois de um confronto entre fascistas e antifascistas, em Charlottesville, Trump declarou que "havia pessoas boas dos dois lados" e, assim, iniciou a teoria "dos dois lados": a ideia de que defender a supremacia branca é moralmente equivalente a lutar contra o racismo e querer que os ricos paguem mais impostos. No entanto, essa equivalência moral - que inclui a alegação de que a esquerda é igualmente violenta - é muito perigosa.

Enquanto a extrema direita realiza sangrentos ataques terroristas contra as minorias, um tio jogou um milkshake de banana e caramelo na roupa favorita de Nigel Farage! É verdade que existem pessoas pertencentes a grupos minoritários mortos nas ruas por extremistas de direita e não saem na mídia, mas no neonazista estadunidense Richard Spencer deram um soco. Sendo assim, quem pode garantir que uma coisa seja pior que a outra?

Existe uma campanha sistemática para deslegitimar as poucas vozes da esquerda na política e nos meios de comunicação, e é orquestrada não apenas pela direita, mas também por algumas pessoas que se dizem "moderadas" ou "de centro". A tentativa de construir uma falsa equivalência entre a extrema direita que ataca as minorias e seus aliados e uma esquerda comprometida em resistir ao ódio e à violência é realmente perversa.

Políticos de grandes partidos e vários meios de comunicação legitimam as noções que alimentam o terrorismo de extrema direita e os ataques racistas. Muito mais pessoas ficarão feridas e morrerão, e como não são brancas, nem possuem representação em uma plataforma nacional, provavelmente você nunca saberá seus nomes.

Leia mais

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

A violência da extrema direita não para de aumentar. Por que não gera indignação? - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV