Trump presidente. "Devemos nos preparar para enfrentar a intolerância", afirma editorial de National Catholic Reporter

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02 Dezembro 2016

"O caso mais urgente em jogo exige que a sociedade mobilize todos os esforços possíveis para reduzir as tensões e fazer do discurso de ódio uma resposta impensável. As congregações, as paróquias, as mesquitas, os templos e as sinagogas precisam tomar medidas extraordinárias para demonstrar que a linguagem da discriminação, o discurso e as atividades que reificam e pintam o outro como indesejável ou perigoso, não é uma prática da ampla maioria dos americanos", comenta o editorial da revista  National Catholic Reporter, 30-11-2016. A tradução é de Isaque Gomes Correa

Segundo o editorial, "entre os escombros e danos causados, permanecemos na incerteza. Eis um momento em que o equilíbrio se faz necessário para não exagerarmos nem sermos ingênuos quanto ao que está se desencadeando".

Eis o editorial.

Levará um bom tempo e serão necessários muita vontade e esforço público para retirar os detritos e as camadas de resíduos que caíram sobre o corpo político desde a mais recente corrida presidencial. Na história recente do país, não há um momento em que ele esteve tão necessitado da verdadeira religião – aquilo que as nossas tradições de fé têm a nos oferecer para mitigar o pior dos danos causados.

Independentemente da nossa preferência para a presidência, somos uma comunidade a olhar uma paisagem alterada no rescaldo de uma tempestade furiosa. A principal vítima foi a civilidade; essa ilha de barreira essencial, porém delicada, foi golpeada com ondas de retórica severa e implacável, alimentada pela frustração e raiva de pessoas que se sentiam desprezadas e ignoradas.

Quando a civilidade desaparece, não há impedimento à inundação do discurso de ódio e aos ataques àqueles que não podiam controlar ou alterar aquilo que lhes tornava alvos fáceis: a cor da pele, seus sotaques, a fé que professavam.

O ódio do outro, desencadeado no calor da batalha política, é o resíduo mais tóxico da campanha. Os “comos” e os “porquês” de nossa situação atual irão, sem dúvida, ser estudados extensivamente em todos os fóruns imagináveis. E esse exame é essencial para a compreensão final.

Mas o caso mais urgente em jogo exige que a sociedade mobilize todos os esforços possíveis para reduzir as tensões e fazer do discurso de ódio uma resposta impensável. As congregações, as paróquias, as mesquitas, os templos e as sinagogas precisam tomar medidas extraordinárias para demonstrar que a linguagem da discriminação, o discurso e as atividades que reificam e pintam o outro como indesejável ou perigoso, não é uma prática da ampla maioria dos americanos.

Há uma curiosidade decorrente do que está acontecendo: as despertaram para a necessidade da solidariedade e para agir de um modo que demonstre a melhor natureza da maioria dos americanos.

No fim de semana após a eleição, numa seção predominantemente hispânica em Silver Spring, Maryland, uma placa avisando a hora de uma cerimônia religiosa em língua espanhola a ocorrer em uma igreja episcopal estava rasgada, com uma legenda: “Trump Nation, Whites Only” (nação de Trump, brancos somente). Segundo o The Washington Post, o incidente foi um entre outros onde igrejas foram vandalizadas por racistas usando graffiti.

A resposta da igreja local foi imediata. O Rev. Robert Harvey, reitor da congregação, disse que mensagens de apoio chegaram de todo o país. Falou que concedeu entrevistas para a imprensa do Japão, da República Checa, da Espanha e do Brasil.

Embora palavras, gestos de solidariedade e compaixão são essenciais, também o é a vigilância. Pois naquele mesmo fim de semana em que os fiéis se reuniram na igreja para o culto regular, mais de 200 pessoas – a maioria rapazes – reuniram-se a alguns quilômetros de distância dentro do edifício Ronald Reagan, em Washington, para ouvir propaganda política de supremacia branca.

No fim de um longo dia de discursos que acenavam a tolerância para com os não brancos, a multidão ouviu Richard Spencer, descrito num artigo do The New York Times como o principal ideólogo do movimento de direita alternativa (“alt-right”, grupo de ideologia de extrema direita nos EUA). Spencer descartou quaisquer pretensões de inclusividade, “criticou os judeus e, com um sorriso, citou a propaganda nazista no original alemão”.

Disse que os Estados Unidos pertenciam aos brancos, a quem chamou “filhos do sol” e que, no resultado da eleição de Donald Trump, estavam “despertando para a própria identidade”.

Estamos diante de uma das imagens mais arrepiantes e perturbadoras daquilo que as pessoas estão se sentindo livres para expressar à medida que a transição para a presidência do Trump começa a dar os seus primeiros passos. Essa linguagem é um ataque direto à premissa fundante da igualdade humana deste próprio país – com certeza vivida imperfeitamente, mas sempre sendo a medida do nosso progresso enquanto povo.

Spencer dissipou qualquer dúvida que poderia haver sobre se a “direita alternativa” – “alt-right”, frase cunhada por ele – é racista em seu seio. “Os Estados Unidos foram, até esta última geração, um país branco projetado para nós e para a nossa posteridade”, disse ele em seu discurso. “É criação nossa, é herança nossa, e a nós este país pertence”.

Na conclusão de sua fala, “vários membros entre o público tinham o braço estendido em uma saudação nazista”, informa o The New York Times. Segundo se lê no artigo, “alguém na frente do salão gritava: ‘Heil o povo! Heil a vitória!’”. E os demais respondiam nos mesmos termos.

Devemos ter cuidado, nestes dias após as eleições mais estranhas da história moderna dos Estados Unidos, para não ficarmos presos em voltas intermináveis de raiva inútil e discussões improdutivas. Precisamos, nós de ambos os lados da divisão, ouvir uns aos outros e entender por que aqueles de quem discordamos votaram como fizeram. Devemos procurar realmente entender não para fins de debate, mas pelo bem da compreensão.

Ao mesmo tempo, não podemos deixar de lado a responsabilidade de estarmos vigilantes. A nossa fé e a nossa cidadania nos clamam a proteger os vulneráveis e marginalizados, aqueles a quem alguns gostariam de separar marcando-os como diferentes, como outros, como de alguma forma inferiores. Não podemos permitir que isso aconteça.

Entre os escombros e danos causados, permanecemos na incerteza. Eis um momento em que o equilíbrio se faz necessário para não exagerarmos nem sermos ingênuos quanto ao que está se desencadeando.

Recomendamos que os fiéis busquem, na prática, outros que estejam comprometidos com a paz. Quais as estratégias humanas e não violentas para lidar com os supremacistas brancos e os que buscam dividir as famílias com deportações em massa ou com registros de pessoas baseadas na etnia e nas crenças religiosas?

As denominações religiosas devem se preparar para enfrentar esses desafios.

Certamente seria bom ouvir dos nossos líderes religiosos. Os bispos recentemente fizeram declarações sobre os imigrantes e trouxeram a solidariedade da Igreja junto a este povo. No entanto, precisamos mais. Precisamos que eles informem o novo governo dos limites de nossa tolerância para com a intolerância e atos discriminatórios.

Se a liberdade religiosa deve ir além dos temas sexuais que aquecem os debates em nosso país, então os bispos precisam falar abertamente sobre a preocupação deles com os nossos irmãos e irmãs muçulmanos e sobre a necessidade de protegê-los da discriminação e do pior que possa vir.

Reivindicar a civilidade pode ser uma tarefa longa e difícil. Ela envolve bondade e ação em relação aos outros, respeitando as diferenças e buscando compreender aqueles com quem temos discordâncias.

Mas reivindicar a civilidade também significa – e talvez isto seja o mais importante ainda – colocarmo-nos contra aquele tipo de fanatismo cru e retórica discriminatória manifestados no encontro em Washington. Significa colocar-nos no lugar entre o ódio e os alvos do ódio.

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