EUA. Depois de uma campanha presidencial virulenta, o que fazer?

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10 Novembro 2016

"Trump foi, em quase todos os aspectos, um candidato desprezível que não mostrou nenhuma consideração pelo – ou conhecimento do – processo democrático, da política básica ou das exigências que a governança apresenta às autoridades eleitas. Mas uma coisa de valor surgiu do “movimento” que criado por ele: uma visão crua de quão desprotegidos estão alguns americanos, o quão distante do processo político alguns se sentem e o quão furioso e frustrado ficaram tais parcelas da população. O establishment político, o establishment jornalístico e os formadores de opinião subestimaram a raiva intensa da América branca componente da classe trabalhadora. Trump conduziu esta raiva à vitória", constata o editorial da revista  National Catholic Reporter, 09-11-2016. A tradução é de Isaque Gomes Correa

Segundo o editorial, "Vivemos um momento profundo da história de nosso país e da história da nossa Igreja neste mesmo país. A questão agora é se temos nós a coragem e a liderança de confrontar estas feridas, trabalhar por justiça e começar o processo de cura".

Eis o editorial.

Acabamos de passar por uma das campanhas presidenciais mais amargas, virulentas e desmoralizantes da história moderna. Ainda que os votos tenham sido contabilizados e um vencedor foi declarado, a república ficou gravemente ferida, divisões se aprofundaram e se alargaram, grandes parcelas do país beberam em níveis elevados da mistura tóxica de intolerância e ódio, desprezo e difamação.

O que nós católicos americanos devemos fazer?

As questões divisoras, as tensões e atitudes que se ampliaram durante a campanha não passarão tão cedo. A chave para a vitória de Donald Trump foi a sua promessa de trazer mudança a Washington, explodir o status quo. Nada em sua campanha nos leva a crer que ele poderá unir partidos diferentes. Trump venceu a campanha, mas desconhece-se como irá governar. Ele sequer tem o apoio pleno das lideranças congressistas republicanas. Os republicanos, hoje com o controle da Casa Branca e das duas câmaras do Congresso, terão de agir com muito mais responsabilidade do que nos últimos anos, quando a única pauta deles era a oposição ao presidente Barack Obama. Não se pode prever o que virá nestes próximos quatro anos.

A nossa única esperança é a crença de que a Constituição e o povo americano são fortes o suficiente para resistir a esta tempestade. Em tempos difíceis de sua história, este país se uniu, deixou de lado diferenças e ultrapassou crises tão ruins, e mesmo piores, do que a que enfrentamos atualmente. E, para que fique claro, a crise que enfrentamos não é a eleição de Trump em si, mas um sistema político quebrado e uma nação dividida.

Gostaríamos de dizer que como católicos – uma igreja com números quase iguais de democratas e republicanos, mas com muitas pautas comuns por causa da nossa tradição pela justiça social –, poderíamos desempenhar um papel importante de levar a cura à sociedade, mas infelizmente os católicos parecem tão divididos quanto a sociedade em geral.

A Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unidos, que se reúne em assembleia na próxima semana em Baltimore e que estará escolhendo as suas novas lideranças, está tão dividida quanto o próprio país. Em vez de fechar feridas e anunciar um caminho de justiça, os bispos não conseguem alcançar um consenso entre si a respeito de como seguir em frente unidos. Muitos resistem às iniciativas do Papa Francisco e encontram-se mergulhados em um ambiente de guerras culturais, o que tem transformado muitos deles em partidários políticos. Talvez os bispos possam pôr de lado as diferenças, e deixar claro que os católicos, ao longo de todo o espectro político, podem trabalhar, em boa consciência, para o bem comum. Mas quatro dias antes de eles se reunirem, algo assim não parece provável.

Trump foi, em quase todos os aspectos, um candidato desprezível que não mostrou nenhuma consideração pelo – ou conhecimento do – processo democrático, da política básica ou das exigências que a governança apresenta às autoridades eleitas. Mas uma coisa de valor surgiu do “movimento” que criado por ele: uma visão crua de quão desprotegidos estão alguns americanos, o quão distante do processo político alguns se sentem e o quão furioso e frustrado ficaram tais parcelas da população. O establishment político, o establishment jornalístico e os formadores de opinião subestimaram a raiva intensa da América branca componente da classe trabalhadora. Trump conduziu esta raiva à vitória.

Se na maior parte dos casos a intimidação de Trump fosse fácil de descartar, uma pequena parte de sua análise soaria verdadeira.

Eleição após eleição, os democratas reencontram-se com a América branca de classe trabalhadora, um de seus eleitorados históricos, apenas para ignorar estes eleitores e a situação deles no período posterior à eleição, motivo pelo qual essa amizade se desgastou em anos recentes e que, neste ano, rompeu-se totalmente. Os hispânicos, reagindo à retórica de Trump sobre os imigrantes, votaram em números recordes, mas não o suficiente para eleger Hillary Clinton.

Temos vivido verdadeiramente uma época que exige um novo tipo de política neste país. Parcelas dele estão descontentes e se sentem marginalizadas. O que se precisa agora é trazer de volta estas pessoas junto de si e direcionar novamente esta fúria em iniciativas políticas. Temos pouca confiança de que Trump possa fazer algo nesse sentido.

Para seguirmos em frente, iremos precisar de líderes políticos que vão às áreas daqueles estados habitados pela maioria das pessoas destituídas de direitos, em sua maior parte furiosa, a fim de ouvi-las e saber de suas preocupações. Precisamos compreender melhor e conhecer melhor a face humana das transformações sociais importantes em andamento. Precisamos absorver parte desta raiva em nossas regiões como um primeiro passo para convencer as pessoas de que elas não foram esquecidas.

“Toda a política é local” ainda é uma sabedoria relevante. Talvez seja no nível local onde os católicos também têm condições de começar o trabalho árduo de reparo dos laços rompidos e de redefinição dos compromissos comuns. No livro “Hope for Common Ground: Mediating the Personal and the Political in a Divided Church”, a teóloga moral Julie Hanlon Rubio, da Universidade de St. Louis, defende uma “priorização do local” como o locus para a ação em nome da justiça social, porque, escreve ela, “a força e o coração do ensino social católico, em sua antropologia, que caracteriza os seres humanos como profunda e inescapavelmente sociais, realiza-se nas conexões delas com os outros e na prática de autodoação, tanto no nível pessoal quando no nível social. É aí onde os cristãos trazem algo distintivo ao debate público, uma alternativa à ideia do indivíduo isolado e a uma versão do humano que floresce focado na liberdade, na felicidade e no sucesso”.

Talvez, em nossa comunidade, agora seja a vez dos planos grandes e dos gestos radicais. Talvez o que os católicos necessitam neste momento seja um tempo para o trabalho silencioso interior, que vai nos levar de volta ao centro das nossas tradições. Talvez agora seja o momento de invocar o bálsamo e curar as promessas de nossos sacramentos. Nisso, nossos bispos e pastores podem liderar o caminho.

Àqueles que têm prestado atenção, independentemente de opiniões políticas pessoais, este ciclo eleitoral prolongado expôs feridas profundas e prejuízos duradouros que os membros negligenciados da nossa sociedade vêm sofrendo – sejam negros em centros urbanos, ou brancos em regiões rurais (ou no cinturão da manufatura). O perigo à frente, além do que pode ocorrer dada a imprevisibilidade própria do presidente-eleito, é que esta vitória pode simplesmente substituir um grupo desamparado por outros.

Vivemos um momento profundo da história de nosso país e da história da nossa Igreja neste mesmo país. A questão agora é se temos nós a coragem e a liderança de confrontar estas feridas, trabalhar por justiça e começar o processo de cura.

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