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16 Novembro 2016

O muro entre o México e os Estados Unidos é a pedra angular da ideologia extremista europeia obcecada com a ideia de obstruir as fronteiras e esvaziar os países de migrantes. Marine Le Pen foi a primeira a saudar o republicano.

A reportagem é de Eduardo Febbro publicada por Página /12, 15-11-2016. A tradução é de Henrique Denis Lucas.

Os Monstros começam a desfilar em Washington. Os inventores europeus do populismo de extrema-direita e, por conseguinte, os verdadeiros progenitores do trumpismo, contorcem-se de satisfação com a eleição de sua prole e com a nomeação do ideólogo norte-americano do radicalismo branco, Steve Bannon, como conselheiro e estrategista-chefe da Casa Branca. O resultado das eleições nos Estados Unidos logo de cara é interpretado como um incentivo para as próximas eleições na França, Alemanha, Holanda e Áustria. A líder da extrema direita francesa, Marine Le Pen (da Frente Nacional), foi a primeira liderança a saudar Donald Trump após a sua vitória e "ao povo norte-americano livre". Sinal inequívoco da filiação entre a linhagem dos ultradireitistas dos dois continentes, o britânico Nigel Farage, o principal impulsor do Brexit na Grã-Bretanha, foi o primeiro dirigente a ser recebido por Trump após sua vitória, no último dia 8 de novembro. As ultradireitas do Velho Continente sonham com um "mundo novo" forjado nas urnas norte-americanas, que viria a pôr fim ao reinado das "elites desconectadas da realidade que se recusam a ver e ouvir o povo" (Marine Le Pen).

Com a Frente Nacional francesa liderando o movimento, os populismos cinzentos apostam em uma reconfiguração planetária a partir de Washington. Como um fio condutor, isso acontecerá através de uma onda mundial, decididamente antimulticultural, antiterceiro-mundista e propensa à defesa até as últimas consequências do terreno contra a globalização e as fronteiras abertas. Nessa dinâmica, "o mundo novo" almejado por Marine Le Pen estaria sob o signo das extremas-direitas.

O muro entre o México e os Estados Unidos é a pedra angular da ideologia extremista europeia obcecada com a ideia de obstruir as fronteiras e esvaziar os países de imigrantes, vistos como contribuições tóxicas e destrutivas das culturas nacionais. É permitido reconhecer que esses movimentos populistas de cara lavada colheram dois êxitos contundentes: o Brexit e a eleição de Trump.

No primeiro dos casos, a totalidade da ultradireita europeia fez corpo comum a favor da saída do Reino Unido da União Europeia. Ao contrário, o resto dos partidos da Europa,tanto da esquerda, quanto da direita, fizeram campanha contra. O segundo é a própria vitória de Donald Trump. O espectro político tradicional reuniu filas por trás de Hillary Clinton, pois a extrema direita apostou em Trump.

A Frente Nacional não é a única que vê seu horizonte se iluminar. As intenções de voto de Marine Le Pen hoje são de arrepiar: ela está confiante de passar para o segundo turno e de deixar os socialistas sem nenhum candidato na votação final. E, em caso de enfrentar o atual presidente socialista, François Hollande, seria eleita presidente com 51 por cento dos votos. Na Áustria, as perspectivas são ainda mais animadoras.

A Áustria escolhe o próximo chefe de Estado no dia 4 de dezembro. Heinz-Christian Strache, presidente do Partido da Liberdade da Áustria (FPÖ), de extrema-direita, é um trumpista confesso. Quando o magnata norte-americano ganhou, Strache escreveu: "a esquerda política, assim como o establishment desconectado e em clãs, foram castigados pelos eleitores". Ele, ao contrário, espera o efeito oposto. O FPÖ já garantiu a chefia do governo e a presidência após as eleições presidenciais e legislativas. Seu candidato, Norbert Hofer, está em primeiro lugar nas intenções de voto.

A dinâmica trumpista também impregnou o partido populista Alternativa para a Alemanha (AFD). O presidente desta formação de extrema-direita, Jörg Meuthen, interpretou como uma "grande vitória" o acesso de Trump à presidência. Meuthen tem certeza de que haverá um "efeito Trump" na Alemanha e que isso lhe abrirá as portas do Bundestag nas eleições nacionais de 2017. Ainda mais convicto ao trumpismo é o extremista holandês Geert Wilders, líder do PVV, Partido para a Liberdade. Geert Wilders não apenas qualificou de "revolucionária" a eleição de Donald Trump, mas chegou inclusive a copiar o slogan da campanha eleitoral do republicano (Make America Great Again): Make the Netherlands Great Again. Com os olhos nas eleições legislativas de 2017, Wilders, que já participou da convenção do Partido Republicano em Cleveland (Ohio), em julho do ano passado, se colocou sob a sombra protetora do recém-chegado rei dos neorreacionários.

O populismo nacional norte-americano se prepara semeando seus ideais na Europa. A chegada de Steve Bannon à Casa Branca é a confirmação da expansão ideológica com a qual as ultradireitas europeias contavam. Bannon dirigiu a campanha de Trump, é um especialista em redes sociais e era a cabeça à frente de Breitbart News, um portal atrelado à supremacia branca, à xenofobia e ao antissemitismo. Breitbart News está atualmente se expandindo para o Reino Unido, Alemanha e França. Este personagem e seus aliados europeus agora compartilham de valores carnais. Steve Bannon é uma das figuras mais representativas da chamada "alt right", a direita alternativa cujas crenças são semelhantes às da Frente Nacional francesa, do PVV holandês, do FPÖ austríaco e do AFD: estão contra as elites, o establishment, os partidos históricos de governo, a imigração e o pluralismo cultural. Seu termo preferido é "fronteiras"; e eles vão globalizá-lo. Em uma das poucas entrevistas que deu, Bannon disse: "nosso movimento tem uma característica global porque, através do mundo, as pessoas querem o retorno das fronteiras e mais soberania".

Com Bannon fluindo sobre os tapetes da Casa Branca, os discursos da extrema-direita ingressam no prado do poder mais dinâmico e influente. As margens extremistas se moveram em direção ao centro do império. Sua primeira parceira pública é uma das mulheres políticas membro da família Le Pen, Marion Marechal-Le Pen, que através do Twitter, respondeu "sim ao convite de Stephen Bannon para trabalharmos em conjunto".

Os neorreacionários nunca puderam sonhar com uma alternativa mais propícia. Em primeiro lugar, desde os anos 80, cultivaram as terras de sua renascida legitimidade na Europa, principalmente na França, onde removeram suas jaquetas pretas e suásticas, para colocar ternos e gravatas. Eles limparam sua imagem na Itália, Hungria, Áustria, Holanda, Grécia, Suécia, Alemanha, Bélgica e na Grã-Bretanha. Finalmente, com o Brexit e com Trump, tomaram as rédeas do império.

O trumpismo deixou de ser um empecilho na história para se tornar uma aliança de alcance global.

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