USA, massacre de negros na igreja-símbolo – a raiva de Charleston – “Nós golpeados no coração”

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23 Junho 2015

“Sinto dor e raiva. Demasiadas vezes tive que fazer discursos como este. A América abra os olhos: estes massacres, com esta frequência, não sucedem em outras nações avançadas. O povo americano deve enfrenta a questão das armas. Barack Obama é constrangido uma vez mais a intervir após uma tragédia racista; e uma hecatombe de armas de fogo. “Mataram-nos num lugar de preces, numa igreja construída por negros quando lutavam pela liberdade: foi queimada e arrasada porque os seus fiéis queriam por fim ao escravismo; quando as leis proibiam reuniões de negros numa igreja, vinham celebrar missa ocultamente”.

A reportagem é de Federico Rampini, publicada no jornal La Repubblica, 19-06-2015. A tradução é de Benno Dischinger.

Nove inocentes, vítimas, recorda o presidente “precisamente como as quatro garotas negras exterminadas há 50 anos numa igreja negra em Birmingham, no Alabama”. Também desta vez foi atingida uma igreja – símbolo: as nove vítimas de quarta-feira à noite estavam reunidas para um curso sobre a Bíblia dentro da Emanuel African Methodist Epíscopal Church, um lugar tão amado por negros que a chamam Mamma Emanuel. Esteve ali Martin Luther King, o líder das batalhas pelos direitos civis nos anos sessenta. Foi “um crime de ódio racista”, pouco antes que Obama fale à nação, e confirma isto o chefe da polícia de Charleston, Greg Mullen. “Prendemos o autor – diz o oficial – após 14 horas de caça ao homem. Ele se chama Dylann Roof e tem 21 anos. Prendemo-lo na cidadezinha de Shelby, a quatro horas de automóvel daqui, graças à sinalização de cidadãos que haviam visto sua Hyundai preta. Estava armado, mas não opôs resistência”.

A crônica do massacre a faz pouco antes Sylvia Johnson, prima do reverendo Clementa Picney, aquele que estava dando o curso sobre a Bíblia: “O rapaz branco entrou na igreja, perguntou pelo pastor e foi sentar-se exatamente ao lado dele. Por uma hora escutou, antes de começar a disparar. Disse: vocês negros violentam as nossas mulheres. Vocês estão conquistando a América. Vocês devem ir embora”. Uma particularidade macabra: “Não matou todos os fiéis, eram onze. A uma mulher ele disse: te deixo viva porque deves contar isso”. A polícia revela que a arma do delito é um calibre 45, “presente do pai no 21º aniversário de Roof”.

Na página Facebook do rapaz há uma foto que não deixa dúvidas. Ele encara o objetivo com ar ameaçador, e veste uma jaqueta com as bandeiras da África do Sul e da Rodésia nos tempos d apartheid: emblemas do movimento “White supremacist”, pela supremacia branca. Os agentes também tinham uma foto identificadora dele, de cor alaranjada; tinham prendido Roof diversas vezes por delitos menores, entre os quais a posse de um poderoso fármaco opiáceo. Ele habita na cidadezinha de Eastover, onde a maioria da população é afro-americana. Paradoxo: dos 888 “amigos” que ele tem no Facebook muitos são negros. Seu companheiro de liceu, John Mullins, o recorda “drogado e racista, mas não o levavam a sério”. Por que o seu ingresso numa igreja na quarta-feira à noite não suscitou alarme? Responde Dot Scott, presidenta da associação afro-americana Naacp: “Esta igreja é um lugar histórico, um emblema da nossa comunidade, está nos guias turísticos, passam aí também tantos visitantes brancos”.

Histórica o é toda a Charleston, pequena cidade – museu do profundo Sul, uma das mais antigas, melhor preservadas, orgulhosa das suas tradições também quando são ignóbeis. Intitulada por Rei Carlos II da Inglaterra em 1670, permaneceu uma joiazinha de somente 120 mil habitantes, com a arquitetura colonial bem restaurada. Cultiva a reputação de sua gentileza, os modos refinados de “cavalheiros do Sul” que remontam às plantações e ao escravismo. Por trás da cartolina ilustrada da Via com o vento há uma realidade retrógada obtusa e carola. Interpreta-a bem a governadora republicana da Carolina do Sul, Nikki Haley, chegada aqui para falar às TVs, que agora continuam a enviar em onda as imagens de sua comoção. “O nosso coração está despedaçado”, disse com a voz quebrada pelo pranto. Mas o seu Estado está na vanguarda na liberdade de aquisição e de uso das armas de fogo. Ela mesma sempre se distingue pela sua obediência ao lobby das armas. Os resultados são totalmente desastrosos – uma hecatombe anual, Carolina do Sul é um dos Estados USA com a mais alta taxa de homicídios com armas de fogo – que até a National Rifle Association (a principal associação pro-armas) põe a surdina sobre um “modelo” tão inapresentável. A comunidade afro-americana de Charleston não quer regulamentos de contas, não agora. Acolhe também Nikki Haley quando se apresenta ao meio-dia na igreja do massacre, Mamma Emanuel.

Negros e alguns brancos se dão as mãos, cantam em coro We Shall Overcome, nós venceremos, o hino de Martin Luther King. Acorreram tantos, lotam também as galerias, na igreja onde poucas horas antes o seu pastor foi assassinado. “Esta tragédia não é somente de Charleston, fala a toda a América, há demasiado ódio neste país”, diz David Mack, deputado negro da assembleia estatal de Carolina do Sul. Um fiel recém-saído da cerimônia de luto recorda as violências da polícia sobre os negros em tantas cidades: “Quando nós afro-americanos somos notícia por protestos e desordens, os bem-pensantes reagem dizendo: em vez de estar nas ruas, ide trabalhar, sede bons cidadãos, ide à igreja. Aqueles estavam na igreja quando os massacraram”. Kent Williams, primo do pastor morto, recorda que, “como senador de Carolina do Sul, o reverendo Pinckney estava promovendo uma lei local sobre as body-camera, a obrigação para os agentes de usar videocâmaras para documentar os métodos usados nos aprisionamentos; queria uma mudança no comportamento das forças da ordem; era um homem devoto, não violento, recordai-o nas vossas preces”.

Outro pastor amigo da vítima, o reverendo Thomas Dixon, confia os medos que agora serpeiam na comunidade: “Muitos dos meus fiéis se perguntam se realmente Roof estava sozinho, ou se por trás dele há uma organização, um plano, uma conspiração; são tantos os que têm a ver conosco”. O próprio Obama, malgrado seu, é “parte” deste problema. Na dureza e na amargura do presidente, junto com o desgosto por uma cultura racista da Ku Klux Klan (o íncubo ancestral das “mulheres brancas estupradas por negros”) se sente o eco das outras palavras pronunciadas pelo vigésimo primeiro branco antes de disparar na igreja: “Estais conquistando a América”.

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