Montini entre Marcuse e Camus. O cerne da modernidade

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12 Junho 2018

"O olhar de Paulo VI nesse mundo em decomposição é severo e, ao mesmo tempo, apaixonado. Se a morte e o mal são para o homem em revolta as questões que justificam a sua blasfêmia contra Deus, para Montini são justamente a sintaxe misteriosa do discurso amoroso entre criador e criatura", escreve Giacomo Scanzi, graduado em história contemporânea, jornalista, diretor editorial do "Giornale di Brescia" e autor de várias obras, entre elas "Paulo VI, fiel a Deus fiel ao homem" (Studium 2014); em artigo publicado por L'Osservatore Romano, 09 e 10-06-2018. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo. 

"É contra o homem que é preciso defender o homem, o homem ameaçado de não ser mais que uma parte de si mesmo, reduzido, como já foi dito, a uma única dimensão (ver, por exemplo, Herbert Marcuse, O homem Unidimensional)”. Em 10 de junho de 1969, Paulo VI fazia sua intervenção em Genebra, no Bureau international du travail, com uma passagem singular que se referia a uma obra fundamental do grande pensador ocidental Herbert Marcuse, grande teórico da crise, inserindo-se em uma linha de leitura do século XX que não estava muito distante do quanto estava sendo elaborado pelos pensadores da Escola de Frankfurt. Trata-se de uma consonância de diagnóstico, evidentemente não no plano das respostas concretas, que, no entanto, destaca a grande atenção de Montini para a inversão dos paradigmas antropológicos e culturais que o século XX havia introduzido sob o nome, bastante vago e ambíguo, de modernidade.

A questão tinha sido tratada de forma igualmente radical por outro grande escritor francês, que certamente Montini poderia ter lido dada as extraordinárias consonâncias, embora em sua biblioteca pessoal não haja qualquer vestígio da obra: falamos de Albert Camus e de seu Homem Revoltado. O enfoque crítico de Montini aponta diretamente sobre a questão central que caracteriza tais investigações: a questão da modernidade como subversão da própria natureza do homem, caracterizado por uma ansiedade da libertação indefinida, abstrata, portanto, bastante perigosa por ser geradora de universos vazios.

Não se trata certamente para Montini de desvarios sobre um antigo mundo impossível de ser perpetuado: a questão é, no máximo, manter na irreversível passagem do tempo, as características, as dimensões, que são justamente próprias do ser humano.

A questão afunda no passado distante, naqueles extraordinários e terríveis anos da década de 1930, que haviam lançado a semente da revolução copernicana e que no Maritain dos Três reformadores tornava-se convicção da periculosidade do pensamento moderno, ou se quisermos da modernidade como categoria antropológica: absolutizando a sociedade mundana (secularização) chega-se à própria subversão da natureza da religião, isto é, à sua laicização.

Uma experiência religiosa secularizada, que Marcuse descrevia como "formas de transcendência [que] não mais contradizem o status quo e não têm um caráter negativo". Pelo contrário, era mais "a parte cerimonial do behaviorismo prático, a sua negação inofensiva" e, portanto, tranquilamente assimilada "pelo status quo como parte de sua dieta higiênica".

É nesse quadro que se prende o preocupado apelo jovem Montini para não cair em "equívocos": tudo se resolve, escreveu Montini em Consciência Universitária em "atos de consciência" que, sob o império da chamada contemporaneidade, apresentam-se como algo que é “em nada diferente do sonho, da alucinação, da ilusão". Falar de Cristo para Montini requer um método e uma clareza: "Melhor falhar do que equivocar-se", escreverá nas páginas de “Studium" na década de 1930, vislumbrando o perigo da transformação da experiência da Igreja em uma pseudo-igreja, inclinada ao sentimentalismo, adaptada às exigências do bem-estar existencial, tentada pelos infinitos desvios semânticos que reduzem a Palavra à sua caricatura, sempre dobrada ao interesse do momento.

A questão volta de forma insistente durante a primeira experiência pastoral de Montini, na direção da diocese de Milão, em contato direto com a experiência religiosa do povo, "A educação para a liberdade, o raciocínio, a personalidade deveria excluir a realização de um ato religioso, extremamente exigente e pessoal como é a observância do preceito pascal, que não seja consciente, interior, sério e moralmente renovador (...). Nós não queremos pessoas arrastadas e empurradas; não queremos pessoas presentes porque controladas; não queremos cristãos inconscientes".

Em suma, até mesmo dentro da Igreja Montini percebe os sinais daquela transcendência enfraquecida, asfixiada, anêmica que é o produto da revolta metafísica subterrânea que Camus apontava como uma substancial blasfêmia, a não ser confundida com o ateísmo.

A pergunta de Montini é clara: o terreno sobre o qual se desenrola a substancial luta pela libertação do homem moderno é profundamente religioso.

"A religião do Deus que se fez Homem encontrou-se com a religião (porque é exatamente isso) do homem que se faz Deus" diria na homilia da conclusão do Concílio Vaticano II, em 7 de dezembro de 1965. A modernidade é, portanto, questão religiosa que se resolve, para colocá-la nos termos de Camus, em uma simples e dramática equação: "Se os homens não podem se referir a um valor comum, reconhecido por todos em cada um, então o homem é incompreensível para o homem".

Então o homem, aquele homem que para Camus é "a única criatura que se recusa a ser o que é" é central no pensamento de Montini em relação ao tema da modernidade, não só porque "para conhecer Deus, é preciso conhecer o homem”, mas porque a modernidade, para Montini, de forma alguma é o terreno de um embate, mas sim a ocasião de um encontro.

A esperança de Montini, que tem seu momento mais alto justamente no evento conciliar, terá que sofrer muitas decepções que lhe causariam tantos sofrimentos. Por um lado, a sociedade unidimensional marcusiana e, do outro, a revolta camusiana, parecem inexoravelmente prosseguir, arrasando, através do desenvolvimento da tecnologia e da euforia de uma libertação ilusória, qualquer sinal de um bom humanismo.

O olhar de Paulo VI nesse mundo em decomposição é severo e, ao mesmo tempo, apaixonado. Se a morte e o mal são para o homem em revolta as questões que justificam a sua blasfêmia contra Deus, para Montini são justamente a sintaxe misteriosa do discurso amoroso entre criador e criatura. Questões, portanto, que se atém a um discurso: no caso do mal que tem a sua expressão máxima na palavra - Satanás, diria Paulo VI durante os exercícios espirituais de 1976, é um "ser real: contra a aliança entre Deus e o homem, é a antipalavra” - isso se tornou "não mais apenas uma deficiência, mas uma eficiência, um ser vivo, espiritual, pervertido e pervertedor". No caso da morte, a palavra, ao contrário, assume o traço da poesia, até quase se tornar uma poética da vida, que tem, no Pensamento da morte, o momento mais alto e mais belo.

E isso apesar do quadro ser opaco, no final daqueles anos 1970 que se abre para a última fase do século XX, com sinais inquietantes sobre as condições de um homem que no ocidente parece agora, para citar Marcuse, mercantilizado e cada vez mais submetido ao domínio de uma ciência que se transformou em tecnologia, que por sua vez se tornou política; acorrentado a uma "consciência feliz em que não há espaço para os sentimentos de culpa, e o cálculo se encarrega de manter calada a consciência", impedindo-lhe assim, a partir de dentro, qualquer forma de rebelião; sem mais palavras para poder dizer coisas pertinentes ao Absoluto. Nesse quadro Montini confia justamente à palavra substanciada sua esperança inabalável, a sua fé profunda, o seu amor mais delicado: "Essa vida mortal é, apesar de suas dificuldades, seus sofrimentos e sua fatal caducidade, uma coisa maravilhosa, um prodígio sempre original e comovente; um evento digno de ser cantado em alegria e em glória: a vida, a vida do homem".

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