50 anos da ''Ecclesiam suam'' de Paulo VI: o diálogo com a modernidade

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08 Agosto 2014

Um duplo aniversário no dia 6 de agosto: em 1964, a primeira encíclica de Paulo VI, "conversa epistolar" que lançava o diálogo com o mundo, sem exclusões; em 1978, a morte de Montini.

A reportagem é de Domenico Agasso Jr., publicada no sítio Vatican Insider, 06-08-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O dia 6 de agosto é uma data-símbolo para o Papa Paulo VI, que, no dia 19 de outubro, se tornará bem-aventurado. Nesse dia de 1964 – há 50 anos – ele assinava a sua primeira encíclica, Ecclesiam suam. Em 1978, ele morria, quase aos 81 anos, depois de um pontificado de 15 anos (ele havia sido eleito no dia 21 de junho de 1963).

Neste dia 6, o seu quarto sucessor no sólio de São Pedro, Francisco, também o recordou: na audiência geral, na sala que traz justamente o nome do Papa Giovanni Battista Montini, ele disse: "Recordamos Paulo VI com afeto e admiração, considerando como ele viveu totalmente dedicado ao serviço da Igreja, que ele amou com todo o seu ser. O seu exemplo de fiel servidor de Cristo e do Evangelho seja de encorajamento e estímulo para todos nós".

Montini terminou de escrever a encíclica – à mão – no dia 11 de julho de 1964. Ela foi publicada na festa da Transfiguração do Senhor. Ele a definiu como "conversa epistolar" e avisou que não pretendia afirmar conteúdos novos e completos: seria quase um paradoxo; de fato, estava em andamento o Concílio Ecumênico Vaticano II, que estava trabalhando justamente para essa tarefa.

A encíclica é uma confirmação do projeto do Papa Paulo VI, que afirma: a Igreja deve, acima de tudo, verificar e reforçar a sua própria e total fidelidade a Cristo. Portanto, não deve ter medo de se renovar, de mudar.

Paulo VI não teve medo de falar de reforma, palavra geralmente pouco usada nos documentos pontifícios. Reforma que, no entanto, não pode consistir principalmente na "adaptação dos sentimentos e dos costumes aos mundanos", com sacerdotes que "se adaptam buscando popularidade, e com os fiéis que acreditam que o conformismo é fatal e sábio".

Então – lê-se no livro Le chiavi pesanti (Ed. San Paolo) – bem consciente de si mesma e disposta à renovação contínua, salvando a doutrina em sua integridade, eis a Igreja pronta para o dever enraizado na fidelidade a Cristo: o diálogo com o mundo moderno. Aquele próximo, aquele distante, aquele adverso, sem exclusões.

De fato, "com imensa simpatia". E com honestidade: descobrir, entender e respeitar com generosidade e boa-fé, onde quer que se encontre; e ao mesmo tempo mostrar-se pelo que se é, sem enganar, sem nunca esquecer ou camuflar os limites para além dos quais a Igreja Católica não pode avançar.

Um exemplo da relação entre firmeza nos princípios e disponibilidade ao diálogo é encontrado em uma passagem da encíclica, relacionado com o que aconteceria pouco depois da publicação.

Na Ecclesiam suam, Paulo VI repete a condenação dos seus antecessores aos "sistemas ideológicos negadores de Deus e opressores da Igreja, sistemas muitas vezes identificados com regimes econômicos, sociais e políticos, e entre estes de maneira especial o comunismo ateu".

E acrescenta: "Poder-se-ia dizer que, rigorosamente, não somos nós que os condenamos, mas que esses sistemas e os regimes que os personificam se colocam em oposição radical de ideias conosco e praticam atos de opressão. A nossa queixa é, afinal, mais que sentença de juiz, lamentação de vítima. (…) A Igreja do silêncio, por exemplo, cala-se falando apenas com o seu sofrimento; e faz-lhe companhia a amargura de uma sociedade inteira, deprimida e aviltada, em que os direitos do espírito são dominados pelos direitos dos que discricionariamente lhe impõem a sorte".

Mais tarde, foram iniciados contatos com o governo da Tchecoslováquia, com um resultado estrondoso: no dia 20 de fevereiro de 1965. podia chegar em Roma o arcebispo de Praga, Josef Beran, que por muitos anos figurava no Anuário Pontifício como "impedido". Os impedimentos eram cárcere e prisão domiciliar. Paulo VI decidiu torná-lo cardeal. Assim que chegou em Roma, ele o recebeu imediatamente, ainda atordoado com o salto repentino da condição de prejudicado ao de "príncipe da Igreja".

Quatorze anos depois da publicação da encíclica, no domingo, 6 de agosto de 1978, Paulo VI deixou de viver. Chegavam peregrinos e turistas a São Pedro; o papa deveria se assomar à sacada para saudá-los e rezar o Ângelus. Mas isso não aconteceria.

O texto que Paulo VI pronunciaria, diz:

"A Transfiguração do Senhor, recordada pela liturgia na solenidade de hoje, lança uma luz resplandecente sobre a nossa vida cotidiana  e nos faz voltar a mente ao destino imortal que esse fato em si mesmo prenuncia. No cume do Tabor, Cristo revela por alguns instantes o esplendor da sua divindade e se manifesta a testemunhas escolhidas como ele realmente é, o Filho de Deus, 'a irradiação da glória do Pai e a marca da sua substância'; mas também faz ver o destino transcendente da nossa natureza humana, que ele assumiu para nos salvar, destinada, também ela, porque redimida pelo seu sacrifício de amor irrevogável, a participar da plenitude da vida, da 'herança dos santos na luz'.

Aquele corpo, que se transfigura diante dos olhos atônitos dos apóstolos, é o corpo de Cristo, nosso irmão, mas é também o nosso corpo chamado à glória; aquela luz que o inunda é e também será a nossa parte de herança e de esplendor. Somos chamados a compartilhar tanta glória, porque somos 'partícipes da natureza divina'. Um destino incomparável nos espera. se honrarmos a nossa vocação cristã: se vivermos na lógica consequencialidade de palavras e de comportamento, que os compromissos do nosso batismo nos impõem.

Que o tempo corroborante das férias seja propício a todos para refletir mais a fundo sobre essas estupendas realidades da nossa fé. Mais uma vez, desejamos a todos vocês aqui presentes e aqueles que podem desfrutar de uma pausa restauradora neste período de férias que as transformem em uma ocasião de amadurecimento espiritual. Mas também, neste domingo, não podemos nos esquecer daqueles que sofrem pelas particulares condições em que se encontram, nem podem se unir àqueles que desfrutam o tão merecido repouso.

Queremos dizer: os desempregados, que não conseguem prover as crescentes necessidades dos seus entes queridos com um trabalho adequado à sua preparação e capacidade; os famintos, cuja fileira aumenta diariamente em proporções assustadoras; e todos aqueles que, em geral, se esforçam para encontrar um lugar satisfatório na vida econômica e social".

Paulo VI morreu como sempre tinha desejado e pedido com orações especiais: em um domingo tranquilo, sem ter se esquecido por um só dia do seu trabalho, sem incomodar.

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