Paulo VI, atual como poucos outros

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21 Outubro 2014

É realmente sem sentido considerar casual que a beatificação de Paulo VI ocorra somente algumas horas após a conclusão da primeira fase de um Sínodo que sobre temas centrais não consegue exprimir uma maioria adequada. Talvez Paulo VI seja tratado como o “Papa esquecido”, porque é absolutamente atual. Um pouco esta absoluta atualidade emergia já com o fato de que, a querer sua beatificação fosse um Pontífice, Francisco, cuja biografia é por tantos aspectos muitíssimo distante daquela de João Batista Montini.

A reportagem é de Luca Diotallevi, publicada pelo jornal  Corriere della Sera, 20-10-2014. A tradução é de Benno Dischinger.

Um respirou a cultura do peronismo, o outro o populismo sturziano: longe aquele e muitíssimo próximo este da alma mais genuinamente liberal da modernidade. Um conheceu o laicato carismático e pentecostal, o outro havia servido e proposto o laicato de Ação católica e Fuci: expressividade e espontaneidade contra pesquisa, medida e combatividade. Em Giovanni Battista Montini há uma profecia que ainda reluz, e agora até mais de quanto aparecia nos anos 70. Qual? E: para quem?

Na Ecclesiam Suam (1964) havia escrito: “a vida cristã (...) exigirá de nós cristãos modernos não menores, talvez até maiores energias morais do que exigia dos cristãos de ontem”. Nestes termos indicou um daqueles misteriosos privilégios da Graça. O Vaticano II, por ele conduzido ao porto, (“verdadeiro catecismo para o nosso tempo”) havia indagado os traços essenciais de uma reforma na continuidade necessária a uma obediência realmente fiel e “hoje não menos necessária do que no passado e talvez mais difícil”.

Por várias razões, tentada em direções opostas, a Igreja das décadas subseqüentes ao Concílio procurou de vários modos reduzir os custos da fidelidade: a recuperação de algum recurso material, a exibição de certo vigor mundano, a utilização do meio televisivo, e outros mais. Não funcionou e não podia funcionar. Também por isso a profecia de Paulo VI tem hoje a mesma atualidade de então, e uma urgência ainda maior. Fala-nos de uma estrada para o futuro que não parte da negação da modernidade, mas de seu centro, lá onde ela se revela como abertura, crise, reflexão e escolha: reconhecimento e solicitação de responsabilidade.

De vários tipos são os custos que Paulo VI colocava em conta, justificados pela obtenção de uma liberdade maior e de uma alegria mais profunda. Custos intelectuais, acima de tudo. O Papa quis a Dignitatis humanae, com a qual o Concílio reconhecia e ensinava a liberdade religiosa, solenemente condenada até poucas décadas antes: e escreveu a Humanae Vitae, na qual contestava a idéia de uma zona da conduta humana moralmente irrelevante. Paulo VI não pontificou sobre valores abstratos: embocou e indicou como única uma estrada complexa.

Quem segue o texto da Humanae Vitae encontra aí a fadiga e a paciência de distinguir e de pôr em relação as leis “natural”, “evangélica”, “moral natural”, “moral”, “positiva” e outras mais, para apresentar com franqueza instâncias que, ao invés de encastoar a consciência, a alimentam e orientam. E incrível que ainda passe para o texto com o qual a Igreja delegou a conduta do batizado ao algoritmo de uma mecânica lei de natureza. Sem contar o que seja entendido por “natureza”, quando a usar o termo é um Pontífice que julgava De Lubac (o desconstrutor da tardia escolástica) como o maior teólogo do século vinte. Não são suficientes sequer as tantas palavras que Bento XVI dedicou àquele conceito.

Custos espirituais não menores estão implicados pelas mesmas exigências de reforma.

Em tempo Paulo VI havia compreendido que na modernidade, como nunca antes, “não mole e vil é o cristão, mas forte e fiel”. Isto vale atualmente para todos, na Igreja. Entre custos intelectuais e custos espirituais não se pode escolher. É ingênuo ou arrogante pensar que se podem manter uns evitando os outros. É somente para os cristãos esta profecia? Não: entende-se isso quando se media sobre o ponto ao qual chegou a expressão do crer em Montini. Na Missa de Exéquias para Aldo Moro (maio de 1978) uma Igreja e um País inteiro, atônitos, o ouviram dirigir-se a Deus com a Escritura: “Tu não ouviste a palavra da nossa súplica”.

A fé é certamente louvor, glória, alegria, agonismo: mas somente se a gente sabe reconhecê-lo no abismo do abandono, se pode dizer de modo crível – como Paulo VI disse – que a Igreja é perita em humanidade. Somente se compreendemos que regularidade a humanidade é mistério, podemos realmente intuir a relação essencial entre mistério humano e mistério de Deus (Gaudium et spes 22). Paulo VI jamais escondeu sua maior vizinhança espiritual a tanta mutilada consciência artística e literária do século vinte, antes que à ostentada – efêmera e violenta – certeza doutrinária.

No final do século que foi de João Batista Montini, 1914/2014, século do fim irreversível de um mundo, não se pode impor a alguém que aceite a sua profecia, mas se pode reconhecer que esta foi oferecida a todos: “com doçura e respeito, com reta consciência” (1 Pd 3, 15b-16a).

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