Steve Bannon, o mister Marshall que não conseguiu unificar a extrema direita europeia e que pode acabar despejado da Itália

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14 Junho 2019

Steve Bannon chegou à Europa como mister Marshall: cercado de pompa, boato e deslumbrando. Diferente do americano de Luis García Berlanga, Bannon se instalou na Europa após romper com Donald Trump, a quem assessorou em sua campanha presidencial. O sonho de Bannon era construir uma Internacional da extrema direita, unificar os diferentes movimentos e aproveitar as eleições europeias para formar uma grande frente que se tornasse um poderoso grupo parlamentar na Eurocâmara.

A reportagem é de Andrés Gil, publicada por El Diario, 12-06-2019. A tradução é do Cepat.

Mas, não aconteceu. Longe de tudo isso, o mapa de famílias de 2019 é como o de 2014. Os húngaros de Viktor Orbán permanecem, nesse momento, no Grupo Popular, apesar de ter sido suspensos temporariamente pelo Partido Popular Europeu (PPE).

Em novembro passado, Bannon anunciou que colaboraria com Orbán na campanha, mas nada mais se soube depois desse anúncio. Nenhuma viagem, nenhuma campanha, nenhuma pesquisa. Nada. “Zero. Zilch”.

Bannon anunciou com trombones a filiação de Matteo Salvini para o seu The Movement, uma associação criada em Bruxelas como um clube ultradireitista. Mas, conforme demonstrou Axios para HBO, Salvini renegou Bannon: “Só falei com ele algumas vezes”, disse o líder da Liga. Ao que o próprio Bannon respondia: “Talvez três ou quatro”.

Talvez por isso, porque Bannon não pôde recrutar de forma ativa mais que ao líder do extraparlamentar Partido Popular belga - 1,1% dos votos nas últimas eleições legislativas -, nunca conseguiu fazer essa grande apresentação prometida na capital comunitária.

Por isso, e por causa do revés de Fidesz não ter saído do PPE, apesar dos problemas que está tendo, apesar de Salvini agir como se não conhecesse a Bannon, o certo é que ninguém lhe contratou e que as direitas ultras, extremas e populistas continuarão divididas no Parlamento Europeu nesta legislatura, estilhaçando o projeto de Bannon de unir o Leste - Orbán e os poloneses do PiS - com o Oeste - Le Pen e inclusive Pablo Casado -; o sul - Salvini - com o norte - Sebastian Kurz, AfD e os direitistas nórdicos.

Bannon também anunciou que queria viajar até a Espanha, porque se supunha que teria relações com Vox, mas nunca concretizadas. E nessa viagem à Espanha planejavam se encontrar com Casado e Albert Rivera. Contudo, esse plano, assim como outros, foi pelos ares.

O maior revés de todos é o que está ocorrendo na Itália de Salvini. O Ministério da Cultura italiano afirmou que revogará o contrato de arrendamento de um mosteiro de titularidade estatal onde o instituto católico e de extrema direita do ex-assessor da Casa Branca de Trump foi instalado para formar dirigentes políticos.

O Ministério afirmou que irá revogar a concessão das propriedades, a 70 km de Roma, conferida ao Instituto Dignitatis Humanae, por supostas violações a várias obrigações contratuais, entre elas a falta de pagamento da concessão – por 100.000 euros anuais, durante 19 anos – e do trabalho de manutenção.

Benjamin Harnwell, diretor do instituto com sede no mosteiro de Certosa di Trisulti (Collepardo), disse à Reuters, em setembro, que Bannon estava ajudando a elaborar o plano de estudos para um curso de liderança dirigido a políticos católicos de direita a ser realizado no mosteiro de 800 anos de história. Bannon também esteve arrecadando fundos para o instituto, disse Harnwell.

No entanto, um porta-voz do Ministério da Cultura italiano, dirigido pelo Movimento 5 estrelas (M5S), Gianluca Vacca, insiste em que as inspeções ordenadas pelas autoridades encontraram uma série de irregularidades na concessão: “Proceder com a revogação é, portanto, um dever”.

O projeto de uma academia de liderança de extrema direita foi criticado pelos partidos de esquerda na Itália, e os meios de comunicação locais expuseram dúvidas sobre se o instituto cumpria os requisitos de seu acordo com o Governo. E, para complicar tudo, alguns quiseram ver a mão de Bannon – e Salvini – e seus aliados eclesiásticos em manobras para desestabilizar o Papa Francisco.

Vacca, membro do partido M5S que governa a Itália com a Liga, desde o ano passado, disse que não havia motivos políticos por trás da decisão de revogar a permissão para o instituto e recordou que o procedimento para conferir a concessão à associação de Harnwell, cujo conselho de assessores é presidido pelo cardeal Raymond Burke, um importante conservador do Vaticano, se completou no governo anterior de centro-esquerda do Partido Democrata (PD). O instituto de Bannon anunciou sua intenção de recorrer do despejo.

Uma pesquisa do jornal The Guardian revelou que Bannon teria dificuldades para atuar de forma significativa em 9 dos 13 países, segundo as autoridades eleitorais nacionais e ministérios relacionados com a matéria. Bannon, um ex-banqueiro investidor, com uma fortuna calculada em 44 milhões de euros, prometeu investir milhões de dólares para oferecer aos partidos europeus nativistas (aqueles que defendem os direitos dos nativos acima dos estrangeiros) e ultraconservadores acesso gratuito à informação de pesquisas especializadas, análises de dados, assessoramento sobre redes sociais e ajuda na seleção do candidato.

Contudo, fontes institucionais que trabalham nas leis eleitorais e especialistas independentes de muitos países afirmam que este tipo de assessoramento poderia ser considerado uma doação em espécie.

Na França, Espanha, Polônia, República Tcheca, Hungria e Finlândia são proibidos serviços profissionais de pagamento oferecidos por fontes estrangeiras. Na Alemanha e Áustria, é preciso colocar um valor às doações em espécie e são incluídos nas somas limitadas que os partidos podem receber de doações estrangeiras.

Sendo assim, um ano após se instalar na Europa de forma sonora, Bannon não só não conseguiu unificar a extrema direita europeia e melhorar exponencialmente seus resultados eleitorais, como também pode acabar despejado na Itália.

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