Especialista à frente da cúpula do Papa sobre abusos adverte que não há uma solução que sirva para todos

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12 Fevereiro 2019

Um dos maiores especialistas no campo da proteção infantil afirmou que apesar de um dos objetivos do Vaticano na próxima cúpula sobre prevenção de casos de abuso ser deixar os bispos do mundo todo em sintonia, não existe uma solução única para a questão do abuso clerical.

A reportagem é de Elise Harris e John L. Allen Jr., publicada por Crux, 11-02-2019. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

Em entrevista ao Crux, o padre jesuíta Hans Zollner disse acreditar que a cúpula antiabuso, que deve acontecer de 21 a 24 de fevereiro, foi convocada porque "é um momento muito urgente e desafiador para a Igreja, uma questão urgente que o Santo Padre priorizou para si e para a Igreja ao convocar este encontro único”.

Hans Zollner é presidente do Centro para a Proteção de Menores da Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma, e membro da Pontifícia Comissão para a Tutela dos Menores. Além disso, faz parte da comissão organizadora da reunião de fevereiro, juntamente com o Cardeal de Chicago, Blase Cupich, o Cardeal da Índia, Oswald Gracias, e o arcebispo de Malta, Charles Scicluna, ex-promotor do Vaticano de crimes de abuso sexual.

Líderes das conferências dos bispos do mundo todo participarão da reunião, bem como membros das Igrejas Católicas Orientais e superiores religiosos.

Reforçando as palavras do Papa Francisco, Hans observou que a cúpula será uma reunião de "pastores", reunidos para rezar, "ouvir e receber informações sobre o que precisam fazer, para se apropriarem disso”.

Apesar de uma reunião de três dias não ser suficiente para mergulhar em questões complexas como as implicações para o direito canônico, é preciso haver acompanhamento do que é discutido, disse ele. Mencionou, ainda, que um dos objetivos será alcançar alguma uniformidade global em práticas recomendadas para prevenção e punição por casos de abuso.

“E, ao mesmo tempo, não pode haver diretrizes que sirvam para toda a Igreja, porque os idiomas não traduzem determinados conceitos, os sistemas jurídicos são completamente diferentes, as situações políticas e sociais são muito diversas”, disse.

“Se Roma instituir uma única diretriz para todo mundo, podem pensar que tudo está resolvido”, mas não é o caso, observou. "É preciso garantir que os responsáveis façam o que precisa ser feito.”

Eis a entrevista. 

Como está a agenda para a reunião por enquanto?

Estamos progredindo. A reunião terá como base a oração e os sacramentos, bem como uma liturgia penitencial e uma missa de encerramento. Será uma reunião de pastores que vão ouvir os testemunhos de sobreviventes, concentrando-se nos temas da responsabilidade, da responsabilização e da transparência por meio de sessões plenárias e grupos de trabalho. O Santo Padre estará presente em todo o evento.

Haverá uma lista com os nomes dos que vão falar, inclusive dos sobreviventes?

Vamos disponibilizar os nomes, mas, claro, respeitando os desejos dos sobreviventes em relação a divulgar ou não seus nomes.

A reunião tem como objetivo tomar decisões? Em termos de recomendações para as decisões que o Papa tem de tomar, isso será abordado?

Como disse o Papa, é uma reunião em que os pastores vão ouvir e receber informações sobre o que precisam fazer, para se apropriarem disso. Nesse sentido, a reunião certamente vai levar a decisões, porque precisam definir seu papel e sua responsabilidade. Mas não se toma decisões sobre questões complexas de direito canônico em uma reunião de três dias. Não é o órgão competente.

Mas é possível falar sobre essas questões. Acha que isso vai acontecer?

Claro, claro.

Para o senhor, qual foi o sentimento por trás da convocação dessa reunião?

O sentimento de que é um momento muito urgente e desafiador para a Igreja, uma questão urgente que o Santo Padre priorizou para si e para a Igreja ao convocar este encontro único.

O Santo Padre disse que será como uma catequese...

Os temas dos três dias referem-se ao funcionamento institucional. O próprio Papa colocou isso em pauta desde a carta aos bispos chilenos, a carta ao Povo de Deus, em agosto, e a carta aos bispos de Mundelein, em janeiro. Portanto, será uma instrução sim. Mas principalmente sobre a forma de governar: quase todos têm diretrizes, mas a base de tudo é que elas precisam ser implementadas.

Diria, portanto, que um ponto importante desta cúpula é promover algum tipo de uniformidade global da abordagem a esse problema?

Certamente. E, ao mesmo tempo, não pode haver diretrizes que sirvam para toda a Igreja, porque os idiomas não traduzem determinados conceitos, os sistemas jurídicos são completamente diferentes, as situações políticas e sociais são muito diversas. E se Roma instituir uma única diretriz para todo mundo, podem pensar que tudo está resolvido.

É preciso garantir que os responsáveis façam o que precisa ser feito, e essa é a parte boa de o CDF pedir a participação de todas as conferências dos bispos. As normas fundamentais têm de estar claras. O que se faz em termos práticos pode ser um pouco diferente em cada país, dentro dos limites das diretrizes fundamentais. É por isso que na minha opinião as forças-tarefa serão um resultado importante.

Forças-tarefa?

Falei sobre isso na entrevista ao Vatican News: no final, espero, haverá forças-tarefa regionais para analisar as políticas das conferências dos bispos e ajudar na implementação. Várias conferências episcopais - todas em países muito pobres ou com poucos recursos - ainda não enviaram a primeira versão das políticas, e queremos ajudar quem precisar de apoio.

Apenas seis ou sete?

Exato. Quase todas enviaram e receberam feedback da CDF.

Até agora, tanto o cardeal Parolin como o Papa Francisco já falaram sobre o perigo de criar expectativas altas demais para a cúpula. O senhor concorda? De forma realista, o que acha que podemos esperar?

Essa reunião é um passo importante na nossa longa jornada em resposta ao grave problema do abuso sexual clerical.
Estamos trabalhando para que, ao retornar para casa, os participantes tenham uma compreensão completa da tragédia de abuso sexual do clero e dos profundos efeitos que teve sobre as vítimas. Assim, poderão se responsabilizar para que as falhas da Igreja não se repitam. Queremos que os participantes tenham recursos para fazer isso, trabalhando para que entendam as leis e os processos de prevenção de casos de abuso e acobertamento e consigam implementá-las de maneira eficaz.

Muitos acreditam que o que está incompleto na recuperação dos escândalos de abuso é a responsabilização por parte dos bispos, não por atos pessoais, mas por não terem respondido adequadamente às acusações contra outras pessoas. A questão da responsabilização será discutida?

Vamos dedicar um dia inteiro de reunião para discutir sobre responsabilização.

Os católicos estadunidenses estão ansiosos para a divulgação do Vaticano do que e quando ficou sabendo das acusações de abuso contra o ex-cardeal Theodore McCarrick. Há algum motivo legítimo para essa informação não ser divulgada?

No meu entendimento, o caso envolvendo o ex-cardeal Theodore McCarrick está prosseguindo rapidamente.

Ao analisar a situação - sei do dano pastoral que o caso McCarrick causou nos EUA -, qual é a saída estratégica? A prova irrefutável que as pessoas querem provavelmente não existe. Como seguir adiante?

Acredito que haverá um veredicto sobre o caso McCarrick em breve... mas sei que isso não basta para as pessoas.

Após o escândalo de Theodore McCarrick e a divulgação do relatório da Suprema Corte da Pensilvânia, muitas dioceses nos EUA e em outros países estão tornando públicos os nomes de todos os sacerdotes acusados de abuso sexual. Será que é uma boa prática?

O aumento da transparência é crucial para os esforços de combater o abuso sexual clerical. Vamos dedicar um dia inteiro de reunião a questões de transparência, e estou aguardando ansiosamente nossas discussões sobre algumas questões específicas nesse dia.

Na sua opinião, ser mais transparente sobre o problema do abuso ajudaria a curar a ferida dos católicos após os escândalos divulgados no ano passado, como o caso McCarrick?

Acho que poderia contribuir. Acredito que só é possível reconstruir a confiança trabalhando de forma consistente sempre que houver um erro, seja lá o que for. Admitir, ir a público, lançar mão de todas as medidas para lidar com o problema de acordo com suas normas. É preciso agir de acordo com isso consistentemente. Assim também se aprende o que envolve essa responsabilidade.

Nos Estados Unidos, os especialistas dão conselhos muito bons, mas isso falta em outras partes do mundo. As pessoas ficam sozinhas com os próprios meios, tendo tempo e energia limitados, e não têm especialistas por perto para quem possam perguntar nem irmãos bispos que já lidaram com isso antes. Ficam sozinhas.

Para mim seria excelente se todo mundo estivesse nessa conferência conosco, se todos entendessem o que está em jogo e o que precisam fazer, para que, juntos, pudéssemos enfrentar esse grave e urgente problema.

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