Reunião dos bispos em fevereiro é o início da "abordagem global" de combate ao abuso sexual, diz Scicluna

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25 Novembro 2018

Em uma decisão para destacar a importância atribuída à cúpula de fevereiro sobre a "proteção dos menores na Igreja", para a qual convocou os presidentes de todas as conferências dos bispos, o Papa Francisco nomeou um comitê poderoso para guiar e supervisionar o projeto.

O comitê é composto por dois cardeais, Cupich Blase (de Chicago) e Oswald Gracias (de Mumbai, Índia) e dois especialistas da Igreja na área: o arcebispo Charles Scicluna (de Malta) e o padre Hans Zollner, jesuíta alemão e presidente do Centro de proteção à Criança e diretor e professor de psicologia da Universidade Gregoriana, em Roma, que será o coordenador. O Vaticano fez este anúncio no dia 23 de novembro.

A entrevista é de Gerard O’Connell, publicada por America, 23-11-2018. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

Nesta entrevista exclusiva para a revisa América, o arcebispo Scicluna, a quem o Papa recentemente nomeou secretário adjunto da Congregação para a Doutrina da Fé, e que é também presidente do tribunal de recursos, fala sobre a importância e objetivos da reunião de fevereiro e sobre como será conduzida.

Em sua visão, será "um encontro sinodal, o primeiro do tipo a abordar a questão do abuso sexual de menores na Igreja". É "bastante significativo" porque reúne os presidentes de mais de 100 conferências episcopais de todo o mundo e os chefes de todas as igrejas católicas de rito oriental. Além disso, é "um sinal muito importante do que tecnicamente chamamos 'colegialidade afetiva', que significa reunir bispos de todo o mundo com o Santo Padre para discutir questões importantes e para que fiquem em sintonia com ele".

Ele diz que Francisco convocou esta reunião de cúpula porque "percebe que o problema" [da proteção infantil e de prevenir e resolver o abuso sexual do clero] "tem de ser prioridade nas pautas da Igreja". O Papa percebe que “é uma questão global, não é uma questão de critérios geográficos ou culturais, mas um problema global que a Igreja deve abordar em união, respeitando as diferentes culturas, mas com uma solução definitiva em conjunto, com pessoas em sintonia".

Apesar de reconhecer sua curta duração (21 a 24 de fevereiro) e que "certamente não vai resolver tudo", o arcebispo Scicluna enfatizou que "é um começo muito importante de um processo global que levará algum tempo para se aperfeiçoar". Como resultado desse processo, ele espera que "várias iniciativas em nível continental comecem a acontecer, recriando a atmosfera de resolução e determinação, mas também de objetividade, que eu espero que marque a reunião de Roma". Além disso, ajudará "a abordar as questões em diversas culturas diferentes, com suas próprias restrições, seus próprios aspectos positivos, mas também falhas que têm de ser discutidas em nível continental e nível”.

O arcebispo Scicluna considera a reunião de fevereiro "o início de uma nova abordagem que espero que seja global, porque diz respeito a toda a Igreja, mas também terá um contexto local muito importante, porque a proteção não é distante, não pode ser algo abstrato, tem que ser vivida em cada paróquia, em cada escola, em cada diocese. Por isso é importante ter efeitos em nível local, caso contrário não será eficaz”.

Ele explicou que os “principais objetivos” da reunião "são fazer os bispos perceberem e discutirem juntos o fato de que o abuso sexual de menores não é apenas um fenômeno flagrante e criminoso, mas também um sintoma muito grave de algo mais profundo, que é uma crise no modo de abordar o ministério. Alguns chamam de clericalismo, outros chamam de perversão do ministério".

Ele lembrou que o Papa Francisco "falou muito sobre a forma como podemos continuar com a administração da comunidade, não apenas no papel de bispos, mas também de sacerdotes," e disse que "a questão não diz respeito apenas aos casos trágicos individuais de má conduta e o impacto do crime nos mais vulneráveis, as crianças, mas também como se administra a questão quando somos confrontados, ou seja, como tratamos os criminosos, as vítimas, a comunidade”. Tudo isso será discutido em fevereiro.

"A responsabilização faz parte da administração”, ou seja, da mordomia cristã, afirmou o arcebispo. "Não se trata apenas da responsabilidade com Deus e nossa consciência, mas também com a nossa comunidade", explicou. "Mordomia significa fazer o que deve ser feito e fazer bem, principalmente em relação a cuidados”, enquanto o “acobertamento” é “a antítese da mordomia cristã”. Quando se acoberta um problema, não se resolve, mas se decide não o abordar, esconder consequências importantes e evitar as demandas da justiça, que certamente não é uma boa mordomia”. Ressaltou ainda que "temos de nos afastar de políticas que geram pânico e colocam o nome da instituição acima de tudo” e "no fim, essas políticas causam danos à sua reputação; e na verdade também são contraproducentes, e não se deve ir por esse caminho". Ele insistiu que "é preciso resistir a qualquer tentação de encobrir qualquer crime. Só a verdade nos libertará."

O arcebispo Scicluna declarou que "se temos uma doença no corpo da Igreja, precisamos enfrentá-lo, não esconder, para que não aumente e cause ainda mais danos". Ele lembrou que o Papa Francisco "abordou a questão da responsabilidade em uma lei promulgada em 2016", no decreto  “Como uma Mãe Amorosa”, que "cria um procedimento para que os bispos negligentes ou que não estejam nos padrões da mordomia sejam excluídos". Na verdade, ele disse, "há uma antiga tradição segundo a qual se o bispo causar problemas a Sé de Roma tem o direito o dever de exclui-lo".

Neste contexto, enfatizou que "não podemos evitar o importante aspecto teológico de que nós bispos temos o papel de cuidar da comunhão hierárquica juntamente com o Santo Padre. Portanto, há uma jurisdição dele sobre todos nós, bispos, que temos de respeitar ao falar de responsabilidade no âmbito da Igreja Católica".

Para ele, a reunião de fevereiro visa fazer os bispos e os superiores religiosos "perceberem a gravidade da situação", aceitar que têm o problema em suas mãos e "abordar questões da mordomia", ou seja, "não apenas de como nos preocupamos com nossos filhos, mas também como lidamos com casos [de abuso]. Por isso, questões de transparência e responsabilidade são de extrema importância" e serão discutidas na reunião.

Neste contexto, disse, "nós, bispos, temos que abordar a questão do abuso sexual de menores juntos como igrejas e adotar o que Papa Francisco está denominando 'abordagem sinodal', ou seja, não podemos fazer nada sozinhos em nossa comunidade, precisamos também capacitar os leigos para que possamos ser bons mordomos".

Ele acredita que a reunião transmitirá a "importante mensagem" de que "a prevenção de abusos e a proteção e salvaguarda das nossas crianças e jovens não é uma questão apenas dos bispos, mas sim uma questão sinodal; é algo que envolve toda a Igreja e todas as pessoas que fazer parte dela no mundo todo; diz respeito a todos nós".

Insistindo no "aspecto sinodal", segundo o arcebispo Scicluna, a reunião "não apenas reúne os bispos, mas aborda as questões em nível local, como comunidade, num processo sinodal. É preciso uma aldeia inteira para educar uma criança, e é preciso uma aldeia inteira para evitar abusos e abordá-los adequadamente onde quer que infelizmente aconteçam."

Ele revelou que o Papa Francisco quer que a Igreja avance nessa questão de forma sinodal, seguindo a doutrina do Concílio Vaticano II. Explicou, ainda, que "sinodalidade significa que apreciamos os diferentes carismas, dons e conhecimentos dos leigos e que os autorizamos a participarem do papel de mordomia com os bispos”. Ele acrescentou que "não é uma questão de ter controle sobre a hierarquia, é a hierarquia capacitar e facilitar a partilha de carismas que o Espírito Santo também concede aos leigos, porque há dons que ajudarão em questões de prevenção e salvaguarda tão necessárias e que precisamos propiciar como bispos".

Além disso, lembrou que o Papa Francisco destacou este aspecto sinodal ao confrontar o abuso na "Carta para o Povo de Deus" antes da visita a Dublin, em agosto: "ele quer que isso esteja na pauta de todas as Conferências dos Bispos do mundo" e, na reunião de Roma, quer que os bispos "ouçam as vítimas, falem com especialistas, escutem uns aos outros e ao que a questão suscita".

Ele espera que a reunião de fevereiro seja semelhante a um sínodo em processo e estrutura, pois "vai haver sessões plenárias, grupos divididos por língua trabalhando e depois reportando, grupos de oração, escuta a diferentes interessados. Será uma mistura de informação, formação, discussão. A ideia é que certos valores não sejam apenas acordados, mas também que certas prioridades sejam apresentadas e adotadas pelos bispos."

Vai haver "uma liturgia penitencial" durante a reunião, algo que "o Papa Francisco quer", disse Scicluna, "e as vítimas também farão parte da liturgia, assim como serão consultadas antes e ouvidas durante a reunião".

Alguns têm falado sobre a necessidade de mudanças na lei canônica para lidar com a questão do abuso de forma adequada. A respeito disso, o arcebispo Scicluna disse que o "direito canônico sempre segue a realidade. Em certa medida forma pessoas em um determinado contexto, como o código de 1983 formou uma geração na implementação do Concílio Vaticano II." Como o direito canônico segue a realidade, disse, "será preciso mudar em resposta às novas questões e novas prioridades da Igreja". Para ele, poderia haver, por exemplo, a possibilidade de certas mudanças que dariam "um papel mais forte aos bispos metropolitanos" e "um papel maior para as vítimas nos processos penais canônicos". Ele não acha que a reunião de fevereiro "entrará em detalhes sobre tais reformas do direito canônico", mas espera que haja “uma importante contribuição que iniciará um processo que pode chegar a uma reforma da lei canônica".

O arcebispo Scicluna espera "que o espírito da reunião seja positivo e proativo e que ajude a dar um sinal de esperança para os bispos, para toda a Igreja, para o povo de Deus e para a liderança da Igreja em todos os níveis".

O Vaticano anunciou que além dos presidentes das conferências de bispos e os chefes das igrejas católicas de rito oriental, também haverá outros participantes na reunião de fevereiro, incluindo os prefeitos da Congregação para a Doutrina da Fé e das congregações para a evangelização dos povos, as Igrejas orientais, os bispos, os institutos de vida consagrada e as sociedades de vida apostólica e do dicastério para os leigos, a família e a vida. Também são convidados representantes da União Internacional dos Superiores Religiosos.

O arcebispo maltês destacou a importância da presença desses superiores, porque "eles cuidam de centenas de religiosos, em sua maioria sacerdotes, mas também leigos, e eles também têm um papel importante na educação, na formação e no cuidado pastoral. Também estarão presentes Superioras Gerais. É muito importante que os superiores estejam presentes e façam parte deste processo."

Na declaração do dia 23-11-2018, o Vaticano revelou que, além dos quatro membros do comitê diretivo, muitas outras pessoas estão envolvidas na preparação da reunião, incluindo leigos especialistas e duas leigas que são subsecretárias do Dicastério para os leigos, a família e a vida: Gabriella Gambino e Linda Ghisoni. A Comissão para a Tutela de Menores, chefiada pelo cardeal Sean O'Malley, também está envolvida e, ainda mais importante, também "algumas vítimas de abuso clerical”.

Referindo-se ao comitê diretivo, o arcebispo Scicluna disse que o Papa Francisco escolheu seus quatro membros para serem "responsáveis pela organização" e "para aconselhá-lo" e aconselhar a Secretaria de Estado. Sua tarefa é supervisionar a preparação da reunião e garantir que tudo seja feito corretamente. Ele ressaltou que a escolha do padre Zollner para o cargo de coordenador do comitê é "um lembrete importante" de que a reunião não se trata apenas da "mordomia, mas também de uma mordomia reflexiva". Ele traz "o conhecimento da psicologia e as práticas recomendadas na prevenção, que devem ser parte integrante da função de mordomia da Igreja".

Ele concluiu repetindo que a reunião é apenas "o início de um processo" e quando acabar "caberá ao Santo Padre e seus colaboradores mais próximos quaisquer decisões para futuras reuniões continentais de forma mais descentralizada. É o início de um processo, não o início e o fim”.

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