Como ler a ''rejeição'' ao nome de O’Malley para planejar a cúpula antiabusos em Roma

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26 Novembro 2018

Teve-se um sinal de como o cardeal Sean P. O’Malley se tornou um sinônimo dos esforços da Igreja Católica para se recuperar dos seus escândalos clericais de abuso sexual quando o Papa Francisco nomeou um comitê organizador para uma cúpula de alto escalão em Roma, entre os dias 21 e 24 de fevereiro, sobre o assunto, e O’Malley não estava na lista, e a pergunta imediata foi: “Por que não?”.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada em Crux, 23-11-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Em vez disso, Francisco nomeou indiscutivelmente o seu mais próximo aliado entre os bispos estadunidenses, o cardeal Blase Cupich, de Chicago, como parte de um grupo que irá preparar um encontro entre os dias 21 e 24 de fevereiro para os presidentes das conferências episcopais de todo o mundo, assim como para as altas lideranças vaticanas.

Outros membros do grupo de planejamento são o arcebispo Charles Scicluna, de Malta, o principal promotor vaticano no combate aos abusos infantis; o padre jesuíta Hans Zollner, membro da Pontifícia Comissão para a Proteção dos Menores liderada por O’Malley e diretor do Centro de Proteção Infantil da Universidade Gregoriana de Roma; e o cardeal Oswald Gracias, de Mumbai, na Índia, que atua no conselho “C9” de cardeais conselheiros de Francisco.

Nomear Scicluna pode tranquilizar os sobreviventes, já que provavelmente não há um homem da Igreja no mundo que tenha passado mais tempo ouvindo-os e tentando fazer algo sobre a crise. O comunicado vaticano também disse que a Pontifícia Comissão para a Proteção dos Menores, liderada por O’Malley, assim como vítimas não identificadas estarão envolvidas.

A escolha de um estadunidense é natural, já que o Vaticano pediu recentemente que os bispos dos Estados Unidos atenuassem seu posicionamento em relação aos escândalos de abuso que têm assolado a Igreja desde junho, quando o ex-cardeal Theodore McCarrick foi suspenso e, no fim, renunciou ao Colégio dos Cardeais por denúncias de abuso, instruindo-os a esperar até fevereiro.

O que chamou a atenção de muitos observadores da Igreja, no entanto, foi o fato de trocar O’Malley por Cupich, que sempre se aliou à causa da reforma, mas não tem a reputação do cardeal de Boston como seu líder inquestionável.

Essa omissão sinaliza uma perda de favor em relação a Francisco ou uma mudança de direção em termos do esforço antiabusos na Igreja?

Aqui está a explicação para o “não”: em virtude de incluir a Pontifícia Comissão para a Proteção dos Menores, O’Malley está efetivamente a bordo. Além disso, dada a sua relação muito próxima com Scicluna e Zollner, ninguém acredita que ele não estará seriamente envolvido. E mais, a cúpula de fevereiro foi originalmente uma proposta da comissão pontifícia de O’Malley, que foi endossada pelo conselho dos cardeais C9 ao qual ele também pertence.

Em um comunicado na sexta-feira, O’Malley confirmou que estará disponível em fevereiro e disse que espera ser um “recurso”. Até agora, ele e Cupich são os únicos que não são presidentes de conferências episcopais, nem representantes das Igrejas dos Oriente, nem autoridades vaticanas na lista de convidados, embora outros oradores especialistas ainda não tenham sido nomeados.

Mesmo assim, é difícil não perceber que Francisco não incluiu O’Malley pelo seu nome. O que isso poderia significar?

Teoricamente, isso poderia refletir uma irritação prolongada sobre o modo como O’Malley se distanciou de Francisco em sua resposta inicial à crise dos abusos no Chile. Também poderia ser uma mancha para a reputação de O’Malley, deixada pelas revelações de que o padre Boniface Ramsey, de Nova York, enviou uma carta a ele em 2015, quando ele era presidente da Comissão para a Proteção dos Menores, alertando O’Malley sobre as denúncias contra McCarrick, que passaram despercebidas.

Mais tarde, O’Malley se desculpou, dizendo que deveria ter visto a carta, porque ela envolvia acusações contra um colega arcebispo.

Há também uma leitura política: o painel sinaliza um afastamento da confiança em respostas paralelas e lideradas pelas vítimas à crise simbolizadas por O’Malley e pelo arcebispo Diarmuid Martin, da Irlanda (também não nomeado), em direção uma abordagem mais “sinodal” e liderada por bispos, favorecida por Francisco, e na qual Cupich tem estado entre os seus líderes de referência.

“Sinodal” significa que os bispos se unam para resolver problemas, e Francisco demonstrou seu entusiasmo por isso, mais recentemente com um Sínodo dos bispos sobre os jovens em Roma, em outubro passado – uma assembleia que não chegou a reafirmar uma “tolerância zero” em relação aos abusos, dizendo que isso seria inapropriado antes da reunião de fevereiro.

Por fim, nomear Cupich também pode ser uma indicação da tendência Francisco em termos de como impor uma responsabilização aos bispos, já que Cupich assumiu a liderança de uma proposta de confiar na estrutura tradicional dos bispos metropolitanos da Igreja, em vez de criar uma comissão leiga independente, assim que ficou claro na reunião dos bispos de novembro em Baltimore que essa última opção pode ser difícil de enquadrar com a lei da Igreja.

Qual é o resultado final para O’Malley?

Nas próximas semanas, veremos qual o papel que sua comissão desempenhará na organização do evento, especialmente porque é a sua equipe que está em Roma. Entre outras coisas, ficaremos sabendo se as vítimas nomeadas para o grupo de planejamento são o tipo de defensores da reforma destemidos e francos, preferidos por O’Malley e Martin.

Com certeza, é difícil não ler o fato de ser deixado de fora do comitê organizador, pelo menos pelo nome, como um desprezo. No entanto, ele dificilmente está fora do jogo, e, dependendo do que vai acontecer, fevereiro poderá se tornar um momento de coroação. O’Malley tem pressionado por uma responsabilização significativa não apenas pelo crime, mas também pelo acobertamento dos abusos sexuais há décadas e agora parece estar prestes a alcançar isso.

Tudo isso faz com que as apostas para a cúpula de fevereiro sejam ainda mais altas – algo que alguém poderia ter pensado que não seria possível, considerando-se tudo o que já estava montado para a Igreja Católica naqueles três dias em Roma.

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