Magnifica Humanitas: um mapa das primeiras reações à encíclica sobre IA

Gif: IHU | Animado com IA

26 Agosto 2026

Magnifica Humanitas. Do latim, humanidade magnífica. O título resume a aposta de Leão XIV em sua primeira encíclica, dedicada aos desafios da inteligência artificial (IA): a humanidade é magnífica mesmo quando quase tudo ao redor parece testar essa convicção, seja nos laboratórios onde se ensinam máquinas a produzir linguagem humana, seja na pessoa que atravessa a cidade de motocicleta sob chuva, entregando comida por um valor que um algoritmo calculou em frações de segundo.

Custa acreditar nisso. Basta olhar em volta: trabalhadores vigiados por algoritmos, pessoas reduzidas a dados, atenção transformada em mercadoria e novas formas de escravidão digital. Diante desse panorama, não é difícil suspeitar que “magnífica” seria a última palavra para descrever essa humanidade cansada e monitorada. É precisamente contra essa suspeita que o Papa escreve. Onde o nosso tempo aprendeu a falar a linguagem do desempenho, do cálculo e da eficiência, ele propõe outra: “Nenhum sistema de cálculo, por mais sofisticado que seja, gera um coração que se entrega” (MH 233).

A palavra “entrega” carrega um duplo sentido. Na economia de aplicativos, ela descreve o trabalho precarizado de quem roda pela cidade em um prazo contado em minutos e avaliado em estrelas. Na tradição cristã, porém, “entrega” nomeia o gesto mais alto da experiência humana: doar-se, sem cálculo, a outra pessoa. O primeiro sentido, a inteligência artificial já organiza e otimiza sem descanso; o segundo, nenhuma IA consegue verdadeiramente realizar.

Esta página especial acompanha o modo como a carta encíclica Magnifica Humanitas foi lida, ampliada e tensionada nos primeiros meses após seu lançamento, a partir de análises veiculadas pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU. Mais do que apresentar o conteúdo deste documento, reconstruímos o debate que ele suscitou.

A novidade da Magnifica Humanitas

A publicação da encíclica Magnifica Humanitas (MH), em 25-05-2026, marca um acontecimento de especial relevância para a Doutrina Social da Igreja (DSI), tanto pelo conteúdo abordado quanto pela forma inédita de sua apresentação pública. Trata-se da primeira encíclica de Leão XIV e foi dedicada à relação entre inteligência artificial e dignidade humana. Assinado em 15 de maio, exatamente 135 anos após a promulgação da Rerum Novarum (1891), o documento estabelece um paralelo deliberado entre dois momentos de profundas transformações civilizacionais. Se Leão XIII respondeu aos desafios éticos, sociais e econômicos da Revolução Industrial, Leão XIV volta-se para as implicações antropológicas, políticas e culturais da revolução digital impulsionada pela inteligência artificial.

Além do documento em si, sua apresentação pública configurou um marco sem precedentes na história recente da Igreja Católica. Pela primeira vez, o próprio pontífice participou da coletiva oficial de lançamento de uma encíclica social, assumindo pessoalmente sua apresentação ao lado de Christopher Olah, bilionário do Vale do Silício, ateu declarado, cofundador e pesquisador de inteligência artificial da Anthropic, empresa responsável pelo modelo de linguagem Claude. A presença de Olah era, afirmou Leão XIV, um sintoma da “gravidade do momento”, que exigia um esforço conjunto para “decifrar coisas novas”. O gesto, ao mesmo tempo simbólico e estratégico, sinalizava a disposição da Igreja de participar diretamente do debate sobre a inteligência artificial, colocando-se em interlocução com seus próprios construtores, cujos sistemas podem ampliar horizontes de igualdade ou aprofundar novas formas de conflito e concentração de poder.

Boa parte do discurso de Olah foi dedicada a admitir os próprios limites de empresas de Inteligência Artificial: os incentivos comerciais e geopolíticos que, disse, distorcem até as melhores intenções dentro de qualquer laboratório de IA, o seu incluído. Mas foi num ponto mais inesperado de sua fala que a inquietação ficou mais visível, ao admitir ter encontrado, nas próprias estruturas neurais que ajuda a treinar, algo misterioso, por vezes perturbador: “Encontramos estruturas que espelham descobertas da neurociência humana. Encontramos evidências de introspecção. Encontramos estados internos que refletem funcionalmente alegria, contentamento, medo, pesar e inquietação”. Olah não soube dizer o que isso significa, mas defendeu que perguntas sobre que tipo de sistema construir não cabem apenas à engenharia; questões assim pedem também a crítica de instâncias de fora, como a própria Igreja.

Christopher Olah, cofundador da Anthropic, em discurso no lançamento da encíclica Magnifica Humanitas, em 25 de maio de 2026 (Foto: Vatican Media)

Mas por que justamente a Igreja, então? A Magnifica Humanitas não representa uma incursão inédita da Igreja em assuntos tecnológicos, afirma Elvis Rezende Messias, mas a continuidade de um magistério voltado às transformações sociais desde a Rerum Novarum, passando pelo Concílio Vaticano II e pela Laudato Si’. A Doutrina Social da Igreja, diz Messias, “não oferece orientações técnicas ou soluções prontas” para a inteligência artificial. Ela oferece dignidade humana, bem comum, solidariedade, desenvolvimento humano integral – princípios nascidos no Evangelho que, há mais de cem anos, se exercem continuamente sobre novos objetos.

Scott Hurd chama atenção para o momento em que Leão XIV intervém. “Quando a Rerum Novarum foi publicada, em 1891, a primeira revolução industrial já estava em curso há décadas, gerando imenso sofrimento humano”, afirma. “Por mais profético que tenha sido, o apelo da Rerum Novarum pelos direitos dos trabalhadores chegou tarde demais para muitos”. Publicada enquanto a revolução algorítmica ainda está se formando, Rerum Novarum tenta participar do debate antes que suas estruturas se consolidem. O documento chega, para se apropriar de uma expressão que a própria encíclica usa com frequência, em um momento que o “canteiro de obras” está a todo vapor.

No entanto, Giovanni Salmeri nota que a Magnifica Humanitas, tão cuidadosa ao reconstruir a genealogia da Doutrina Social da Igreja, quase não menciona os passos mais recentes da própria Santa Sé sobre a inteligência artificial. Uma nota de rodapé isolada lista os textos vaticanos produzidos a partir de 2024 sobre o tema, entre os quais vale destacar o discurso do Papa Francisco no G7, sua mensagem para o Dia Mundial da Paz 2024 e os documentos Antiqua et Nova e Quo Vadis Humanitas? Salmeri lembra, porém, que a encíclica deixou de mencionar o Apelo de Roma para a Ética da IA, de 2020, o documento que primeiro reuniu empresas de tecnologia, governos e representantes religiosos em torno de princípios éticos para sistemas de inteligência artificial.

Outra falta, ainda mais significativa, diz Salmeri, é que a encíclica trata a inteligência artificial generativa como um fenômeno sem passado, e omite os precedentes tecnológicos e culturais mais amplos da IA, a começar pelo nascimento da informática contemporânea, com Alan Turing, em 1936. O envolvimento da Igreja Católica com a tecnologia é ainda mais antigo que o documento papal sugere: data de 1964, sessenta anos antes da Magnifica Humanitas, quando Paulo VI discursou à equipe do padre Roberto Busa, pioneiro das humanidades digitais, e via naquele trabalho “um novo e imenso horizonte da cultura humana”, chegando a especular se não seria possível reconhecer ali os “gemidos” das dores de parto de toda a criação.

Giovanni Maria Vian insiste na continuidade do documento na tradição da Doutrina Social da Igreja. Para ele, a encíclica prolonga um caminho inaugurado pela Rerum Novarum, atualizando para o século XXI uma “teologia da comunhão na história”. Guillem Martínez concorda apenas em parte. Para ele, o documento é “uma continuação da DSI, que fixou a descontinuidade”. A diferença está no tipo de argumento usado para defender a dignidade humana. Leão XIII, ao escrever a Rerum Novarum, recorreu à lei natural e ao tomismo do século XIII, usando categorias antigas para um problema novo. Leão XIV, diante da inteligência artificial, não faz o mesmo: em vez de buscar amparo na filosofia escolástica, ele estabelece a dignidade humana como um limite estrutural do próprio conhecimento computacional, algo que nenhum sistema, por mais avançado que seja, é capaz de capturar ou substituir. Dessa virada nasce, na leitura de Martínez, um conceito de soberania cognitiva, em que a dignidade humana deixa de ser apenas valor moral e passa a funcionar como um limite que o próprio cálculo, por mais avançado, não consegue atravessar. A novidade da encíclica, portanto, está em reorganizar a DSI em torno dessa nova fronteira.

Para Marcelo Chiavassa, o documento oferece algo que nenhum tratado intergovernamental consegue oferecer, uma narrativa de sentido: seu texto nomeia o paradigma tecnocrático, a não neutralidade da tecnologia e a concentração privada do poder digital, um debate que a encíclica desenvolve sobretudo no capítulo final, dedicado à cultura do poder, com uma linguagem que os textos regulatórios evitam. Thomas Massaro destacou o esforço da encíclica para oferecer uma orientação moral à inteligência artificial sem cair em um discurso antitecnológico. Para ele, Leão XIV sustenta que mesmo a IA mais avançada permanece fundamentalmente distinta da pessoa humana, argumento que a encíclica constrói, em boa parte, no terceiro capítulo, sobre técnica e domínio.

A interlocução do documento com o presente também chamou a atenção dos comentaristas. Para Anna Rowlands, uma das participantes da apresentação da Magnifica Humanitas no Vaticano, a força da encíclica está em ter criado uma linguagem comum para que pesquisadores, desenvolvedores, jovens e leitores comuns pudessem pensar juntos “um futuro mais humano”. Leonardo Boff identifica nela “não mais o estilo eclesiástico clássico, com suas numerosas referências aos primeiros pensadores cristãos, mas um novo estilo contemporâneo que dialoga com diversos campos do conhecimento e autores”. Essa mudança de linguagem aparece, por exemplo, no diálogo da Magnifica Humanitas com referências como Hannah Arendt e J.R.R. Tolkien. Johannes Hoff reconhece ali uma espécie de “ética hobbit”: a responsabilidade que se constrói em pequenos atos coletivos, não pela ilusão de dominar o destino do mundo inteiro. Alberto Melloni observa algo semelhante por outro ângulo: diferentemente de muitas primeiras encíclicas pontifícias, a Magnifica Humanitas não funciona como um texto programático destinado a apresentar a agenda de um novo pontificado. Na verdade, reafirma o direito e o dever da Igreja de enfrentar, à luz da fé, os desafios do próprio tempo.

Nem todos os comentaristas viram na encíclica uma novidade propriamente conceitual. Norbert Paulo observou que muitos dos princípios mobilizados pelo documento – dignidade humana, necessidade de regulação, concentração de poder e transparência – já eram amplamente consensuais no debate sobre ética da tecnologia. A contribuição do texto estaria menos na originalidade das ideias do que no peso que a autoridade do papado lhes empresta. Além disso, argumenta Paulo, embora diagnostique com precisão os riscos da inteligência artificial, a encíclica permanece em um plano de grande abstração e pouco indica como preencher a distância entre princípios éticos e respostas políticas concretas.

O que o mundo leu na Magnifica Humanitas

Chefes de Estado latino-americanos e europeus, a Casa Branca e o Vale do Silício leram a encíclica cada um a seu modo. Na América Latina, a presidente mexicana Claudia Sheinbaum comentou trechos do texto em uma de suas coletivas de imprensa matinais (mañaneras) e convidou famílias e escolas a debaterem o uso das redes sociais. Gustavo Petro, então presidente da Colômbia, compartilhou a encíclica no X (antigo Twitter) advertindo que a automação deixará centenas de trabalhadores sem emprego. O espanhol Pedro Sánchez parabenizou o papa e defendeu que só o multilateralismo garante que a tecnologia sirva à humanidade. A Comissão Europeia declarou compartilhar plenamente a visão de Leão XIV, lembrando que o continente já possui seu próprio arcabouço regulatório.

Nos Estados Unidos, a leitura se polarizou. O vice-presidente J.D. Vance, católico, chamou o documento de “profundo”. Doug Burgum, colega de governo, ironizou: disse-se surpreso ao descobrir que opinar sobre tecnologia também cabe ao ofício papal e defendeu os centros de dados de IA como um bem para a humanidade, em contraste com o apelo de Leão XIV para que a inteligência artificial seja desarmada. Peter Thiel, investidor e cofundador da Palantir, que recentemente esteve em Roma promovendo uma série de palestras sobre o Anticristo, acusou o Papa de, ao criticar a corrida armamentista em IA, servir aos interesses do Partido Comunista Chinês.

Enquanto Thiel acusava Leão XIV de tentar paralisar o progresso da ciência e da tecnologia, os donos das Big Techs ficavam em silêncio. Sundar Pichai, Mark Zuckerberg e Elon Musk não comentaram a encíclica. Já Sam Altman, executivo da OpenAI, afirmou, no mesmo dia do lançamento do documento, imaginar um futuro em que a inteligência é um serviço público, vendido por medição, como eletricidade ou água, cenário contra o qual a Magnifica Humanitas se insurge. O padre Brendan McGuire preferiu ler esse silêncio como sinal de um diálogo antigo, e não de indiferença: dez anos de conversas discretas entre cientistas, engenheiros e a Santa Sé tornaram possível, disse, que a encíclica nascesse dentro dessas conversas, não apenas comentada de fora. Assim, em poucas semanas, a encíclica passou a integrar a disputa global pelo significado da IA.

O que ainda chamamos de humano

Curiosamente, a Magnifica Humanitas não procura definir a inteligência artificial. Ela reconhece que “não é possível dar uma definição unívoca e completa da IA”. Prefere cercá-la por seus limites. A IA pode calcular, aprender, combinar informações e superar o ser humano em inúmeras tarefas. Mas “não vive uma experiência”, “não amadurece nas relações”, “não conhece internamente o que significa amor, trabalho, amizade [ou] responsabilidade”, afirma Leão XIV. Seu aprendizado continua sendo “uma adaptação estatística a partir de dados e resultados”. Para compreender a máquina, a encíclica acaba obrigada a perguntar, antes de tudo, o que ainda chamamos de humano.

A resposta nunca aparece como uma definição fechada. Antonio Spadaro encontra na “liberdade do significado” aquilo que nenhum processamento captura. Um sistema de IA pode reconhecer um rosto, classificá-lo e até prever suas emoções; o que lhe escapa é o próprio ato de olhar, de encontrar naquele rosto um mistério que não se deixa reduzir a dados. Lucia Santaella possui uma intuição semelhante ao destacar a “integridade” como palavra central da encíclica. A questão, longe de se reduzir à inteligência das máquinas, passa a ser a preservação de uma experiência humana capaz de permanecer inteira precisamente quando linguagem, julgamento e afeto se tornam tecnicamente simuláveis.

Moisés Sbardelotto vai um passo além. O humano, sugere ele, não se distingue por uma faculdade exclusiva que a máquina jamais alcançará. Define-se por um movimento de sair de si. É isso que chama de “mais-do-que-humanismo”. A pessoa realiza sua humanidade ao superar a autorreferência e se orientar para o outro, para o mundo e para Deus. Nesse horizonte, a transcendência muda completamente de significado. Ela não coincide com o sonho de superar biologicamente os próprios limites, como imagina o transumanismo. Surge precisamente da aceitação da fragilidade, porque é nela que se tornam possíveis o cuidado, a comunhão e o amor.

Em vez de perguntar o que a inteligência artificial jamais conseguirá fazer, Slavoj Žižek pergunta o que aconteceria se ela finalmente realizasse o sonho da perfeição: um mundo sem erro, sem fracasso, sem vulnerabilidade. Restaria ainda algo reconhecível como experiência humana? Sua leitura da Magnifica Humanitas gira em torno de uma frase decisiva: “o humano não floresce apesar dos limites, mas, muitas vezes, através dos limites”. O erro deixa de ser um defeito a corrigir e passa a ser a condição da transformação; a finitude deixa de aparecer como atraso evolutivo e torna-se abertura ao imprevisível, àquilo que escapa à lógica da otimização prometida pelo transumanismo.

Giovanni Salmeri e Noreen Herzfeld devolvem o humano à sua condição encarnada. O pensamento humano não existe fora do corpo, dos afetos, da vulnerabilidade e da experiência vivida. Vittorio Gallese alerta: o verdadeiro risco já não é que a inteligência artificial se torne humana, mas que os seres humanos passem a se imaginar como máquinas. Quando desempenho, otimização e previsibilidade se convertem no horizonte da existência, a questão torna-se antropológica, antes de ser tecnológica. Nesse sentido, Francesco Cosentino complementa: “não devemos temer as máquinas, mas quando as usamos para mascarar nossas fragilidades, ultrapassar nossos limites e apagar nossos erros”.

Mesmo que por caminhos distintos, Prevost, Spadaro, Santaella, Sbardelotto, Žižek e Salmeri concordam que há uma dimensão da experiência humana que resiste à tradução algorítmica. Virginia Dignum discorda desse consenso. Sua objeção recai sobre a linguagem empregada para defender a singularidade humana. Ao dizer que a IA “simula” empatia, sabedoria ou relações, argumenta, a encíclica antropomorfiza a tecnologia e isso produz um efeito político preciso. Se a máquina aparece como sujeito da ação, desaparecem de cena aqueles que realmente respondem por ela: Big techs, governos e desenvolvedores.

Ilia Delio recusa essa mesma premissa a partir do horizonte teológico. Inspirada em Teilhard de Chardin, ela identifica o verbo que organiza a Magnifica Humanitas: permanecer. Permanecer humano diante da tecnologia. O problema, sugere Delio, é que esse verbo já pressupõe uma humanidade acabada, cuja tarefa consiste apenas em proteger uma identidade já dada. Teilhard de Chardin responde com outro verbo: tornar-se. O humano não seria uma essência a resguardar, mas uma realidade ainda em gestação, continuamente produzida pela própria história da vida e da consciência. Sendo assim, a tecnologia deixa de poder ser vista como ameaça externa, porque ela já integra o drama da evolução.

A Magnifica Humanitas, escreve Delio, pensa um Deus que permanece diante do mundo mais do que nele; uma transcendência que protege a criação sem atravessar inteiramente o seu movimento. O resultado seria uma “cisão psíquica”: o divino é retirado da interioridade humana, e esse vazio acaba sendo ocupado pela própria tecnologia. Talvez seja por isso, sugere, que tanta gente busque na inteligência artificial companhia, conselho ou até salvação. “A IA se torna uma fonte de significado religioso precisamente porque a tradição ensinou as pessoas a buscarem Deus fora de si mesmas”. O problema, então, já não reside apenas na máquina, mas na imagem de Deus que aprendemos a cultivar.

Rodrigo Karmy Bolton desmonta a própria ideia cristã de pessoa a partir da filosofia de Averróis. Enquanto o tomismo faz da pessoa um sujeito soberano, “senhor de seus próprios atos”, Averróis concebe o pensamento como uma potência comum, impessoal e compartilhada. A inteligência não pertence inteiramente a ninguém, apenas nos atravessa. É justamente esse intelecto comum que a IA ameaça substituir por um código totalizante: uma linguagem sem lacunas, uma potência convertida em poder, uma imaginação reduzida à gestão.

Por isso, para Karmy, a inteligência artificial não rompe com o humanismo. Ela é seu ponto de culminação, onde sua lógica finalmente se realiza por inteiro. “A IA não é uma tecnologia”, afirma Karmy em entrevista ao IHU. “É uma religião. E, como diria Furio Jesi, uma religião da morte”. Seu horizonte é eliminar toda distância entre corpo e pensamento, linguagem e código, potência e operação. A resposta exige desantropologizar o debate e imaginar um “comunismo das formas de vida”, onde pensar deixa de ser propriedade individual para reaparecer como experiência de interdependência.

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Babel e Neemias: metáforas ambíguas

Duas figuras acompanham Leão XIV ao longo da Magnifica Humanitas: Babel e Neemias. São, para o pontífice, duas maneiras antagônicas de construir o futuro. Babel simboliza a pretensão de uma tecnologia que concentra poder, uniformiza a experiência humana e acredita bastar-se a si mesma; Neemias encarna a reconstrução paciente de uma comunidade fundada na corresponsabilidade. “A Igreja, portanto, não se apresenta como uma instituição que observa o drama tecnológico à margem. Na carta do Papa, ela se apresenta como uma comunidade que deseja ajudar a guiar o curso da história. E o faz com uma proposta clara: não arquitetos da Torre de Babel, mas construtores da comunhão”, sintetiza José Manuel Vidal ao comentar a encíclica.

As narrativas bíblicas, porém, oferecem menos estabilidade do que essa oposição sugere. “A advertência mais relevante de Babel talvez não seja contra o orgulho, mas contra a fantasia da concentração do poder humano em um único sistema”, escreve Cathleen Chopra-McGowan. Nessa leitura, a multiplicidade das línguas é uma punição e um limite ao poder: uma língua única torna um povo mais previsível e governável. Lida assim, Babel não enfraquece a crítica de Leão XIV; ela a amplia. A ameaça da inteligência artificial ultrapassaria a soberba tecnológica: estaria na possibilidade de reduzir pessoas, decisões e diferenças a uma mesma arquitetura de linguagem: “a pretensão de que uma única linguagem, ainda que digital, possa traduzir tudo, inclusive o mistério da pessoa, em dados e desempenho”.

Neemias também resiste ao papel de contraponto moral perfeito. Flávio Lazzarin lembra que sua reconstrução de Jerusalém depende de um administrador que legitima a própria autoridade, transforma os que permaneceram na terra em adversários e impõe obediência para preservar a identidade do grupo. Chopra-McGowan complementa: Babel também narra uma extraordinária cooperação humana; Neemias, formas de coerção e centralização do poder. As metáforas escolhidas por Leão XIV são vigorosas, mas não deixam de ser complexas. A linguagem com que a encíclica procura moralizar a técnica carrega tanta ambivalência quanto a própria técnica que pretende moralizar.

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Quem pode conter o poder da técnica?

Na economia digital, olhar torna-se trabalho. A exploração já não começa apenas na fábrica, no escritório ou no aplicativo de entregas, temas centrais do quarto capítulo da encíclica. Ela se infiltra no tempo diante das telas, nas escolhas aparentemente banais, na atenção que plataformas aprenderam a converter em valor. É assim que Eugênio Bucci lê a primeira encíclica de Leão XIV: o diagnóstico de uma nova forma de exploração, na qual até os proprietários das plataformas passam a trabalhar para a própria técnica, tornando-se “capital encarnado”.

Donald Trump reúne executivos das principais empresas de tecnologia em um encontro na Casa Branca. A aproximação entre governo e líderes da indústria da inteligência artificial tornou-se um dos símbolos da crescente influência das Big Techs na formulação de políticas públicas (Foto: Daniel Torok | White House)

Se o mercado já não consegue mais limitar o próprio poder que produz, Maurício Abdalla devolve essa tarefa à política. Cabe ao Estado, escreve, assumir uma responsabilidade “própria e insubstituível” na regulação das tecnologias digitais: fiscalizar empresas de inteligência artificial, sim, mas sobretudo reafirmar que o bem comum não pode ser delegado aos interesses privados nem confundido com a lógica do mercado.

Flávio Lazzarin, porém, contesta essa visão. Para povos indígenas, negros, camponeses e pobres, o Estado raramente apareceu como guardião do bem comum; foi, inúmeras vezes, o braço institucional da expropriação, da violência e da exclusão. Já não basta saber quem pode limitar o poder das plataformas. Antes disso, é preciso interrogar também as instituições que reivindicam o direito de regulá-las.

Se a encíclica denuncia estruturas de poder concentradas, Mario Trifunovic lembra que a Igreja também precisa enfrentar suas próprias formas de concentração decisória. “Não basta apenas ouvir os fiéis”, escreve o teólogo. O critério que Leão XIV dirige às plataformas, aos mercados e aos Estados retorna, então, à própria Igreja: a partilha do poder que Leão XIV cobra de plataformas, mercados e Estados vale também para quem a proclama?

A Magnifica Humanitas leva esse impasse para dentro da própria Igreja. O pedido de perdão pela cumplicidade histórica do Vaticano com a escravidão rompe um silêncio antigo e admite que a instituição também participou das estruturas de dominação que agora denuncia. Alisson da Costa observa que o gesto é um reconhecimento de que, durante séculos, a missão evangelizadora serviu de sustentação moral para a espoliação de povos inteiros.

Para Rachel Swarns, o pedido de desculpas é uma nova forma de habitar a dívida histórica da Igreja. A memória da escravidão impede que a violência seja tratada como um acidente superado e obriga a reconhecer suas permanências, mesmo quando assumem outras linguagens. O poder que ontem encontrou justificativa na missão civilizatória ou religiosa pode, hoje, apresentar-se sob a promessa da inovação, da eficiência ou do progresso.

Guerra justa, armas autônomas e o desaparecimento da responsabilidade

A guerra reaparece na Magnifica Humanitas como um dos lugares em que a inteligência artificial testa seus limites éticos. Imagine, por um instante, uma decisão de matar tomada em frações de segundo por um sistema que nunca sentiu medo, e que por isso mesmo jamais poderá respondê-lo. É esse o território em que a encíclica se insere: condena a corrida armamentista, declara moralmente inaceitáveis os sistemas capazes de selecionar e atacar alvos sem intervenção humana, convida a ultrapassar a teoria clássica da guerra justa.

O Cardeal Víctor Manuel Fernández lê esse movimento como resposta ao esgotamento de uma tradição cujos critérios passaram a ser invocados para legitimar guerras em vez de contê-las. Se a legítima defesa pode justificar quase tudo, já não funciona como limite moral, mas como linguagem disponível para o exercício da força.

Após um ataque aéreo atingir a Escola Primária Feminina em Minab, no Irã, investigações apontaram o uso de sistemas automatizados de seleção de alvos alimentados por dados de inteligência desatualizados. O episódio reacendeu o debate sobre responsabilidade humana em operações militares assistidas por inteligência artificial (Foto: Abbas Zakeri | Mehr News Agency | Wikimedia Commons)

Essa leitura encontra resistência em Tobias Winright e Manfred Spieker. A encíclica endurece seu tom contra a guerra, concordam, mas não abandona os fundamentos da tradição. Permanecem critérios como a legítima defesa, a proporcionalidade e a proteção dos inocentes. Para Spieker, o texto produz uma ambiguidade ao sugerir a superação da guerra justa sem revogar explicitamente a doutrina que, em circunstâncias muito restritas, ainda admite o recurso às armas.

Charles Camosy identifica um problema de outra ordem. Armas autônomas não são apenas uma nova tecnologia militar, porque elas eliminam da decisão de matar aquilo que toda a tradição ética sempre pressupôs: um agente humano moralmente responsável por seus atos. A pergunta sobre quando a guerra é justa pressupõe outra. Antes disso, torna-se necessário perguntar se ainda existe alguém a quem essa justiça possa ser atribuída. A inteligência artificial não desafia somente os critérios da guerra justa; ela desafia a condição sobre a qual eles foram construídos.

Quem educa na era algorítmica?

Em sua leitura da Magnifica Humanitas, o Cardeal José Tolentino de Mendonça alerta para a urgência da formação humana diante da tecnologia, “pois se não nos educarmos como seres humanos, livres, conscientes e responsáveis, a máquina logo acabará nos educando como usuários e nos manipulando como algoritmos, sem que o percebamos”. A disputa, antes de qualquer coisa, é pela formação do olhar, da atenção, do discernimento.

Em uma cultura fascinada pela promessa de aperfeiçoamento ilimitado, Valéria Andrade Leal recorda que “a plenitude não nasce da eliminação da fragilidade, mas da capacidade de habitá-la com sabedoria”. Se, para um algoritmo, o erro é algo a corrigir, para uma pessoa ele pode ser o início de uma mudança profunda. Inspirada na Magnifica Humanitas, a autora propõe uma pedagogia da finitude, que educa não para o desempenho, mas para aceitar a vulnerabilidade e incompletude próprias da experiência humana.

Isso pressupõe compreender os algoritmos. Renan Dantas insiste que eles não são neutros, mas condensam escolhas, interesses e valores de quem os projeta. É dessa constatação que nasce a algorética: a tentativa de inscrever responsabilidade, transparência e bem comum no próprio desenvolvimento da inteligência artificial. Compreender seu funcionamento deixa de ser uma habilidade técnica para tornar-se uma forma contemporânea de cidadania. Phyllis Zagano acrescenta um dado incômodo: os grandes modelos de inteligência artificial foram treinados majoritariamente com dados produzidos por homens e desenvolvidos por equipes igualmente masculinas. Sua proposta é trazer para dentro dos sistemas de IA a reciprocidade sinodal, para que mais vozes participem de sua construção.

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“O verdadeiro trabalho ainda está por vir”

Se há consenso nas primeiras impressões da Magnifica Humanitas, ele mora menos nas respostas que o texto oferece do que na qualidade das perguntas que ela obriga a fazer. Marcelo Chiavassa observa que o documento é mais convincente no diagnóstico do que na prescrição. Thomas Massaro relativiza essa cobrança. Leão XIV, lembra Massaro, não pretende escrever um código regulatório para a inteligência artificial, mas formar consciências capazes de orientar decisões futuras.

Norbert Paulo vê precisamente aí a principal insuficiência. A distância entre princípios como dignidade, solidariedade e justiça social e o funcionamento concreto dos sistemas de IA permanece enorme. “O verdadeiro trabalho ainda está por vir”, resume. Não por acaso, um dia depois de assinar a Magnifica Humanitas, Leão XIV aprovou a criação de uma comissão interdicasterial dedicada à inteligência artificial, reunindo dicastérios e academias pontifícias que até então tratavam do tema de forma dispersa. O gesto sugere que a encíclica inaugura um trabalho que não se esgota na publicação de um documento e que exige acompanhamento permanente. Peter Kirchschlaeger, em sua primeira reação à encíclica, aponta saídas: regulamentação internacional, supervisão independente, mecanismos permanentes de responsabilização e uma agência global para sistemas baseados em dados, nos moldes da Agência Internacional de Energia Atômica.

Nem todos se convencem de que essa passagem do princípio à instituição seja suficiente. Eugênio Bucci observa que, mesmo que os agentes das grandes plataformas acolhessem sinceramente a ética proposta pela Magnifica Humanitas, a concorrência entre empresas, a pressão dos investidores e a lógica permanente da expansão não se interrompem por conversão moral. “A técnica não para”, escreve, “mesmo que seus agentes se convertam ao catolicismo”. Peter Singer introduz outra inquietação: se animais sencientes ou futuros sistemas conscientes também exigirem consideração ética, talvez a própria comunidade moral desenhada pela encíclica ainda seja estreita demais.

Giovanni Salmeri prefere começar por uma tarefa menor. Se nenhuma instituição consegue reformar sozinha a arquitetura tecnológica do mundo, ainda é possível optar por software livre, fortalecer redes sociais descentralizadas (entre as quais ela cita Mastodon, Friendica, Peertube e Pixelfed), e preservar escolas e universidades como lugares onde escrever, pensar e julgar continuem sendo exercícios humanos. Isso não altera a lógica que organiza a técnica, mas lembra, ao menos, que mesmo quando o mundo parece distante de um referencial ético, o princípio moral não deixa, por isso, de nos orientar.

O que as primeiras reações revelam sobre o nosso tempo?

Paradoxalmente, a Magnifica Humanitas acabou demonstrando que a inteligência artificial nunca é apenas inteligência artificial. Basta seguir as primeiras reações para ver que o debate migra para outro lugar: o poder escondido nas infraestruturas técnicas, a guerra conduzida por máquinas, a crise da responsabilidade, a disputa pelo significado do humano. A maioria das leituras deslizou da encíclica e acabou discutindo o mundo que a tornou inevitável.

Ao tentar pensar a desumanização algorítmica, esse debate reencontrou questões antigas e persistentes: quem exerce o poder, quem responde por ele, que vidas merecem proteção e quais limites uma sociedade ainda consegue impor àquilo que ela mesma produz. No fim, a pergunta decisiva já não é sobre as máquinas, mas sobre quem permanece vulnerável quando elas passam a organizar o mundo.

Glossário

Algorética: neologismo que une as palavras algoritmo e ética. O termo designa a reflexão moral e a aplicação de princípios éticos ao desenvolvimento e uso de inteligências artificiais. Foi popularizado pelo Apelo de Roma por uma Ética da Inteligência Artificial, em 2020.

Averróis (Ibn Rushd): filósofo árabe nascido em Córdoba, na Espanha, em 1126. Comentarista de Aristóteles, sua filosofia defende que o intelecto possível não pertence de forma individual a cada pessoa; mas é potência única e impessoal compartilhada por toda a humanidade. Sua teoria se contrapõe à visão tomista do sujeito soberano e individual.

Doutrina Social da Igreja: corpo de ensinamentos da Igreja Católica sobre questões sociais, econômicas e políticas, inaugurado com a publicação de Rerum Novarum (1891) e desenvolvido por encíclicas sucessivas, que abordaram temas como economia, paz, ecologia integral e direitos humanos.

Rerum Novarum: encíclica de Leão XIII, publicada em 1891, sobre a questão operária na Revolução Industrial. Marco fundador da DSI e referência direta da Magnifica Humanitas.

Teilhard de Chardin: jesuíta, teólogo e paleontólogo francês que buscou reconciliar a teoria da evolução com a fé cristã. Para ele, a criação não é uma realidade concluída, mas um processo em contínua transformação, no qual a matéria, a vida e a consciência evoluem em direção a uma crescente complexidade e comunhão.

Teoria da guerra justa: tradição ética clássica (com base em Agostinho e Tomás de Aquino) que estabelece critérios para entrar em um conflito armado (jus ad bellum) e quais regras devem ser seguidas durante a sua execução (jus in bello).

Nota sobre o uso de inteligência artificial

Esta página foi produzida com uso das ferramentas de inteligência artificial Claude e NotebookLM. Estas ferramentas auxiliaram na organização das informações e na elaboração de versões preliminares do texto. A concepção, a edição final e a responsabilidade pelo conteúdo são do autor. Em coerência com o tema desta publicação, o uso dessas ferramentas é aqui explicitado como parte do processo editorial.

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