10 Junho 2026
"Assim como o Papa Francisco antes dele — que na Laudato si' alertou para as graves deficiências de uma racionalidade tecnocrática estreita —, o Papa Leão não pode ser pintado como um mero ludita que rejeitaria toda inovação de plano."
O artigo é de Thomas J. Massaro, teólogo jesuíta e professor de Ética Social na Escola de Teologia Fordham, publicado por America, 04-06-2026.
Eis o artigo.
A extensa cobertura na imprensa católica da primeira encíclica do Papa Leão XIV dificilmente surpreendeu. Particularmente impressionante, contudo, foi o interesse e a cobertura que o documento obteve na mídia secular. Horas após o lançamento — com um "evento de lançamento" dramático e inédito, com o próprio Papa Leão e Christopher Olah, cofundador da empresa de tecnologia Anthropic —, o New York Times impresso publicou dois artigos separados sobre a encíclica. O primeiro ("Pope, In Encyclical, Offers a Map for Navigating the Perils of A.I.") foi colocado na primeira página; o segundo, escrito pelo jornalista do Vale do Silício David Streitfeld, trouxe um subtítulo maldoso: "O pontífice quer rebaixar a inteligência artificial. Ele está desafiando as empresas de tecnologia, ou a tecnologia vai tomar conta do papado?"
Independentemente de se aprovar integralmente a mensagem e o projeto de Leão, é inegável que o pontífice americano enfrentou de frente a tarefa sugerida pelo subtítulo do documento: "Sobre a Salvaguarda da Pessoa Humana na Era da Inteligência Artificial". Para ser uma força construtiva, a IA exige uma mão humana firme que a guie e direcione, fornecendo limites para que não concentre ainda mais o poder econômico e político em cada vez menos mãos. Sempre o deliberado líder moral, Leão formula julgamentos ponderados sobre as características, as promessas e os riscos associados à revolução tecnológica que está reformulando rapidamente os modos como nos comunicamos, trabalhamos e governamos.
A quem necessite de um lembrete de que o uso da tecnologia envolve questões morais além das meramente técnicas, Leão formula seu argumento de modo firme e direto: a inteligência artificial deve ser colocada a serviço da humanidade e de seus nobres modos de trabalhar e amar; os algoritmos não podem ser autorizados a fomentar exclusão, dominação e conflito armado. Em estilo, Leão encontra o ponto médio entre o idealismo do testemunho profético e o realismo da atenção prudente ao funcionamento das instituições estabelecidas.
Assim como o Papa Francisco antes dele — que na Laudato si' alertou para as graves deficiências de uma racionalidade tecnocrática estreita —, o Papa Leão não pode ser pintado como um mero ludita que rejeitaria toda inovação de plano. Leão não é antitecnológico em nenhum sentido simples. Antes, reconhece inúmeras nuances do desafio contemporâneo de submeter os avanços científicos a padrões de responsabilização moral. Por um lado, afirma que "a tecnologia não deve ser considerada, em si mesma, como uma força antagonista à humanidade"; por outro, adverte contra prioridades distorcidas, como "a busca de maiores lucros [que] não pode justificar escolhas que sacrificam sistematicamente empregos".
Acima de tudo, Leão é empenhado em destacar as muitas maneiras pelas quais mesmo a mais avançada inteligência artificial permanece fundamentalmente diferente da humanidade — destituída de consciência e incapaz de substituir maravilhas como a criatividade humana, o cuidado e o amor. Ele insiste:
"As chamadas inteligências artificiais não vivem experiências, não possuem um corpo, não passam pela alegria e pela dor, não amadurecem nas relações, não conhecem internamente o que significa amor, trabalho, amizade ou responsabilidade."
A humanidade é, bem, magnífica — de maneiras únicas. Nossas ferramentas não chegam perto de nossas almas e de nossa dignidade dada por Deus.
Fazer intervenções morais sérias alertando para novas ameaças à dignidade humana faz parte do repertório papal há pelo menos 135 anos, desde que o anterior Papa Leão (XIII, este) expôs em 1891 uma variedade de preocupações morais associadas à Revolução Industrial de seu tempo: salários de fome, longas e inflexíveis jornadas de trabalho, condições laborais perigosas, a impossibilidade de os trabalhadores se beneficiarem de negociações coletivas com seus gananciosos empregadores. Os novos desafios provocados pelos rápidos avanços da inteligência artificial são ainda mais graves e ainda mais urgentemente necessitados de orientação moral.
Seguindo o padrão das encíclicas sociais em geral, Leão não está tanto fornecendo conclusões definitivas sobre programas específicos de regulação robusta quanto levantando questões salientes sobre os valores que devem orientar nossas respostas coletivas à introdução de novas tecnologias que mudam radicalmente a forma do nosso mundo. O projeto de Leão é nos ajudar a formar nossas consciências sobre como optaremos por nos relacionar com as novas tecnologias — no local de trabalho, nas escolas, em nossas escolhas na vida cívica e mesmo no entretenimento. Para invocar um par de verbos empregados com bom efeito por São João Paulo II, Leão busca propor abordagens construtivas, não impor soluções pré-embaladas para novos desafios sociais.
Quaisquer deficiências que surjam neste documento dizem respeito à sua ambição e extensão; talvez o Papa Leão esteja simplesmente tentando realizar demais e com extensão maior (42 mil palavras, em 245 parágrafos, com 224 notas de rodapé) do que seria ótimo. Mas isso também pode nos levar a duas reflexões adicionais sobre a natureza do documento.
Primeiro, Leão passa cerca de 60 parágrafos (a maior parte dos dois primeiros capítulos, dos cinco do documento) recapitulando a herança da doutrina social católica anterior, percorrendo a tradição documento por documento e depois cobrindo grande parte do mesmo terreno por tema. Naturalmente, os papas adoram demonstrar a continuidade de seus ensinamentos com expressões anteriores. No entanto, Leão não está meramente se aquecendo ao rever as contribuições de seus predecessores. Sua longa revisão de onde a Igreja esteve na "questão social" lhe fornece alavancagem para lançar sua crítica dos efeitos potencialmente deletérios da inteligência artificial se não for contida por salvaguardas prudentes. Ao longo do caminho, ele explica princípios altamente relevantes como subsidiariedade, solidariedade social, desenvolvimento humano integral e destinação universal dos bens criados — cada um dos quais deve desempenhar um papel fundamental na orientação de nossa consciência no projeto de conter novas tecnologias.
Segundo, documentos longos como a Magnifica Humanitas tendem a enterrar parte do melhor material em um fluxo prolongado de palavras. Os primeiros comentadores do texto ficaram surpresos com duas mensagens momentosas que merecem atenção particular. Uma é o papa qualificar a teoria da guerra justa como "ultrapassada" (n. 192). Isso representa um desenvolvimento significativo na forma como a Igreja expressa sua oposição de longa data à guerra, embora o texto continue reconhecendo o direito de autodefesa. A segunda mensagem surpreendente é uma apologia cabal (e pedido direto de perdão) pelo papel secular da Igreja Católica em permitir (e até promover) o tráfico de escravos e a escravidão (n. 176). Cada uma representa um desenvolvimento significativo das posições papais anteriores, declarado com mais direção e convicção do que nunca, e cada uma certamente merece seu próprio documento papal. A colocação dessas declarações históricas nas seções finais deste texto muito longo tem o infeliz efeito de diminuir seu impacto.
Mas e o impacto mais amplo da encíclica? Leão certamente reconhece que os rápidos avanços tecnológicos têm a capacidade de desencadear forças disruptivas sobre tudo que tocam. Para que as sociedades humanas se adaptem com êxito e minimizem os danos resultantes, precisa-se de regulação robusta. Enquanto nenhum líder religioso pode sozinho projetar e impor políticas detalhadas sobre a IA, Leão chegou ao papado bem posicionado para ser o líder moral de que tanto precisamos neste momento crucial. Ele tem a sorte de ter herdado dois ativos promissores: primeiro, uma admirável seriedade de propósito e orientação ética informada por suas raízes espirituais agostinianas; segundo, uma década plena de estudo e consideração vaticana dessas questões. A Santa Sé já anunciou a criação de uma comissão de altos funcionários católicos de vários dicastérios para continuar o estudo e a conversa sobre os desafios colocados pela IA. Isso augura bem para ensinamentos sociais momentosos no decorrer do papado de Leão nos próximos anos.
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