A Igreja e o Estado. Artigo de Flávio Lazzarin

Foto: Brian McGowan/Unsplash

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24 Junho 2026

"Por isto, participar da política na atualidade é se converter ao ‘além” de Jesus, ao Reinado que vai além da pequena cabotagem das acomodações conjunturais, além das posições ideológicas, que sempre tendem à captura da religião, para reduzi-la à ferramenta em defesa do status quo ou a patéticas estratégias eleitorais"

O artigo é de Flávio Lazzarin, padre italiano fidei donum que atua na Diocese de Coroatá, no Maranhão, e agente da Comissão Pastoral da Terra (CPT).

Eis o artigo.

Faz quatro décadas que vivo no Brasil e só recentemente consegui entender um pouco as dinâmicas nem sempre harmônicas dos diálogos pastorais e políticos tecidos com irmãs, irmãos, companheiros, camaradas e parentes. De fato, a avaliação desta colaboração é positiva, mas sempre existiu em mim a necessidade de criticar ações e atitudes em nome de uma radicalidade, que, quase sempre, para mim aparece ser adiada ou até esquecida.

Talvez o fato de ter chegado durante a chamada transição democrática tenha influído sobre uma não perfeita sintonia política e teórica com a companheirada que tinha enfrentado a ditadura e elaborado estratégias de reconstrução.

Acho, porém, que esse meu jeito, que pode resultar arrogante e antipático, não o considero imputável à minha origem italiana, com a carga de inconscientes e insanáveis preconceitos eurocêntricos e, tampouco, ser reduzido aos meros excessos do meu temperamento.

Foi a partir do mergulho nas ‘lutas caboclas’ por terra e dignidade, no interior do Maranhão, nos anos 80, que amadureci uma radicalidade extrema acolhendo e incorporando em minhas análises a contraposição existencial e política do campesinato às elites oligárquicas e ao latifúndio. Cantava-se e concretizava-se o refrão-bandeira! -: “Quem fica de cá é de cá, quem fica de lá é de lá. Cuidado, na luta para não misturar”. Obviamente, tinha também a companhia dos teólogos da libertação, dos grandes sociólogos intérpretes do Brasil, e dos mártires e profetas da nossa Igreja. E, sempre, foi prioritária a busca da companhia e da inspiração do Jesus e a escuta da sua Palavra que ilumina a vida e a história.

Sem me dar conta, o anarquismo que marcou a minha juventude, com certeza, encontrou nas lutas populares uma realidade e um conjunto de ideias que convalidavam em boa parte minhas antigas convicções.

Com efeito, o Estado se revelava como o inimigo jurado dos pequenos, dos pobres, dos indígenas, dos negros e dos excluídos em geral. Não se tratava de um princípio libertário, ou uma espécie de opção ideológica. Era o que, de fato, se constatava e acontecia. O Estado, enquanto Estado, era, e é, o inimigo.

O País tinha acabado de encerrar de forma inadequada e injusta a conta pesada deixada pela ditadura civil-militar e a maioria dos que tinham lutado contra a tirania pensava que a questão do Estado estivesse resolvida com a eleição de novos governos, ditos democráticos que, supostamente, teriam o poder de redimir um antigo regime até então violento e opressor. As conjunturas, porém, a meu ver, desmentiam, na prática, esta ilusão, porque, de fato, sobretudo no campo, as questões fundiárias e agrárias permaneciam marcadas pela violência privada e estatal. A ditadura continuava ativa, apesar dos novos arranjos e maquiagens institucionais.

A insistência e a permanência das reivindicações e lutas dos povos originários e do campesinato, no contexto de uma sistêmica violência ecogenocida, associada à memória da prática e da mensagem de Jesus em seus conflitos e confrontações com os representantes do Templo e do Império, continuam a me convencer, definitivamente, sobre a constitutiva inimizade que o Estado exerce contra o povo e os pequenos. Enterrei, de vez, em mim, - se é que algum dia, existiu, - a ingênua ideia de um Estado visto como provedor, protetor e garantidor do ‘Bem Comum’.

Uma pergunta, entretanto, continua a me pressionar: por que Jesus enfrentou radicalmente estas instituições? Não teria sido melhor, mais sábio e mais prudente em vista do sucesso da sua missão, tentar uma mediação de cunho mais diplomático e reformista? Uma espécie de acordo negociado para ter outro jeito, mais humanizado e justo, de exercício do poder? As críticas ao jeito teimosamente voluntarista de Jesus, reaparecem quando irmãos queridos repetem as mesmas críticas à postura e às decisões tomadas por padre Josimo Tavares e por padre Ezequiel Ramin.

Estas críticas escancaram a onipresente tentação da religio licita que encontramos descrita no Evangelho de Marcos (Mc 3,21). Neste versículo, Jesus é definido como ‘louco e irresponsável’ pelos seus parentes. É, no fundo, o conflito presente, de forma paradigmática, na comunidade de Roma que, nos anos de 65-70, se deparava com a tensão entre a perigosa radicalidade dos mártires e a prudência dos defensores de um cristianismo aceito e tolerado pelo Império.

Esta tensão, que pertence à teologia normativa dos Evangelhos, nos alerta sobre um desafio permanente e constitutivo da história da Igreja, antes do pacifismo do papa Clemente Romano, nos anos 90, e antecipação da definitiva aliança da Igreja com os imperadores Constantino e Teodósio, no IV século.

Com a vitória dos ‘prudentes e negociadores’, se estabilizou – em figura inegavelmente dogmática - a Igreja como aparato essencialmente institucional, que se relaciona constitutiva e permanentemente com o Estado, qualquer Estado.

Aliás, para fazermos um exemplo bem recente, sem a adoção do referencial estatal perderiam o seu sentido todas as orientações nas possibilidades reformistas expressas nos documentos da Doutrina Social da Igreja. E, mais radicalmente, sem o paradigma Estado não subsistiriam sequer as próprias teologias da libertação que lutam por uma mudança estrutural, porém, sem levar em conta a irredutível oposição do Estado ao projeto messiânico do Reino.

Enrique Dussel parece-me uma exceção entre os intelectuais da libertação e não só pela figura que ele apresenta de um “Estado obediente”, mas sim por toda a arquitetura filosófico-teológica sobre o protagonismo alternativo dos povos da Abya Ayala.

Seria impróprio e ingênuo ficar surpreendido e escandalizado por esta herança católica. Esta é a Igreja que herdamos e com ela devemos lidar. Ela não poderia mudar padrões e expectativas contratuais estabelecidas quando, outrora, os ‘prudentes’ da religio licita inauguraram este estilo.

Este comprometimento católico com o Estado não é característica exclusiva da Igreja de Roma. Também a submissão da Ortodoxia aos nacionalismos estatais faz parte da traição. E os protestantes, que o diga Dietrich Bonhoeffer, também não brincaram no serviço.

O que podemos fazer? Confiando e nos inspirando a partir das opções de Jesus Libertador nos identificamos com a caminhada das “minorias abraâmicas”, pequenas comunidades, às vezes escondidas e combatidas, mas comprometidas com o Reinado de Jesus.

Ele é o Bom Pastor que enfrenta aqueles que massacram e perseguem o seu rebanho, porque são lobos, pastores mercenários, ladrões e assassinos. São as autoridades do sistema político do tempo de Jesus. São também os inimigos de hoje.

Meditamos o conto paradigmático do endemoninhado de Gerasa, no Evangelho de Marcos (Mc 5,1-20), onde a diabólica legião (a X Legião Fretense?), parece simbolizar o Império romano que mora num cemitério, e é representado por um bando de porcos impuros que é lançado em um abismo e acolá se acaba.

Como o Templo, também o Império é o inimigo por excelência, e o anti-Reino.

Paulo tem esta clareza quando escolhe definir Jesus κύριος, kurios, Senhor, em clara e polêmica oposição ao único kurios reconhecido divinamente como tal, que era o Imperador romano. E foi por esta infidelidade política e por esta adesão ao único kurios, Jesus, que os primeiros passos do movimento cristão foram tempos de profetas e mártires.

Por isto, participar da política na atualidade é se converter ao ‘além” de Jesus, ao Reinado que vai além da pequena cabotagem das acomodações conjunturais, além das posições ideológicas, que sempre tendem à captura da religião, para reduzi-la à ferramenta em defesa do status quo ou a patéticas estratégias eleitorais.

Um ‘além” que é também um “contra”, sobretudo quando o cristianismo é manipulado para servir de suporte aos novos fascismos e tenta se reproduzir como cristofascismo.

O catolicismo identifica-se necessariamente com Estado?

Torcer por este processo de desconstrução destas inúmeras heranças do passado, que desmentem o Evangelho, não comporta uma ruptura da comunhão eclesial, mas nos ressignifica como católicos, fiéis desta Igreja que, apesar de tudo, vem de longe, do começo, do poder da Vida e da Páscoa de Jesus de Nazaré.

Os dois Francisco, o de Assis e o “do fim do mundo” nos ensinam que este caminho tem legitimidade e incidência profética. A tensão do “come se” de Francisco, que escolhe a comunidade animada e conduzida pelo Evangelho, “como se” os direitos civis e canônicos não existissem, repete o “como se” dos padres e madres da Igreja, que optaram pela contestação radical monástica na Tebaida, como se a traição constantiniana não existisse. E Papa Francisco, no coração da instituição, ousou enfrentar e visibilizar a tensão permanente e sem solução entre fidelidade à sequela de Jesus e o sistema eclesiástico, entre fidelidade ao Evangelho e a civilização ocidental, de que a Igreja foi construtora, mentora e defensora. Ocidente que hoje não consegue mais esconder a sua constitutiva identidade anticristã, imperialista e colonizadora.

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