01 Junho 2026
"São camponeses, pescadores, pequenos artesãos, curtidores de pele, coveiros, diaristas, pobres e oprimidos em geral, e não simplesmente 'menos judeus, menos puros, menos instruídos'. Por isso, naquele ano de 538 a.C., o conflito não era simplesmente social e religioso, mas era luta de classe: camponeses que bem sabiam quão letal era o poder do Templo para a sua vida. E quão perigosa se torna a religião quando controlada pelas elites nos processos políticos."
O artigo é de Flávio Lazzarin, padre italiano fidei donum que atua na Diocese de Coroatá, no Maranhão, e agente da Comissão Pastoral da Terra (CPT), enviado ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU.
Eis o artigo.
Nestes dias relembrei uma exegese fascinante de Sandro Gallazzi, que, anos atrás, nos convidava à leitura atenta de alguns versículos dos livros de Esdras e Neemias. De fato, ali encontramos vários indícios de que a volta do exílio das elites judaicas e o projeto de reconstrução do Templo e de Jerusalém não foram processos harmoniosos de uma sociedade unida e solidária num projeto comum, mas revelaram conflitos estruturais através de numerosos episódios de tensão e de ameaças recíprocas entre os ʿam ha'āreṣ, o "povo da terra" e os judeus que voltaram em 538 a.C.
Quando, em 586 a.C., a Babilônia destrói Jerusalém, a elite é deportada, mas "os mais pobres da terra", sobretudo camponeses, — uma mistura de israelitas remanescentes e de outros povos-etnias, — permanecem no território, reconstruindo suas vidas, ao longo de várias décadas, com significativa autonomia. É neste contexto que surgem novas identidades híbridas, como o povo que aparecerá mais tarde: os samaritanos.
Quando se fala em exílio não podemos pensar que todo o povo foi levado para a Babilônia; tratou-se de apenas poucas centenas de pessoas: a elite dirigente, os artesãos, os sacerdotes e escribas. E, quando, finalmente, termina a angústia do exílio, o retorno não será um reencontro pacífico com a terra mãe e com os que haviam permanecido nela. E a própria decisão de reconstruir Jerusalém comportará um inevitável conflito interno entre os diferentes grupos judeus.
O texto redigido pelos repatriados tenta apresentar este conflito tendo como causa algo externo, mas não consegue ocultar que se trata, na realidade, de uma disputa de poder: a definição de "quem é Israel e quem a ele pertence" e "quem tem o direito de decidir e de mandar". O grupo de Esdras/Neemias define Israel como "a nação dos retornados da Babilônia", ignora e exclui outros grupos locais. Autolegitima sua própria liderança e retrata os demais povos e etnias que haviam permanecido na terra como adversários, desfigurando-os e taxando-os como opositores externos. É um claro conflito de identidade religiosa e de poder. A questão fundamental é sobre quem tem o direito e a legitimidade de ser Israel, e isso envolve, simbólica e efetivamente, o controle do templo, a liderança-autoridade dos sacerdotes e escribas, e o estabelecimento das relações formais com o Império Persa.
É necessário entender que a iniciativa política do "povo da terra" de não reconhecer o protagonismo e liderança dos repatriados não foi rebeldia confusa e desorganizada, mas uma construção estratégica e sequencial. O acirrado e extenso conflito nos mostra uma resistência ativa do "povo da terra", os camponeses, incluindo a paradigmática sabotagem à construção do Templo. Os textos mostram um padrão estratégico de oposição:
- Tentativa de infiltração do "povo da terra", que se oferece para ajudar na construção do templo. Recusa por parte do povo de Judá que desconfia "dos adversários" (Esdras 4,1–3);
- Campanha para semear desânimo e intimidação entre os construtores do Templo: "Então o povo da terra incutia medo no povo de Judá a fim de parar a construção" (Esdras 4,4);
- Pressão política mediante o envio de vários ofícios ao Império Persa (Esdras 4,6–16);
- Ridicularização dos repatriados (Neemias 4);
- Ameaças dirigidas ao próprio Neemias, líder e porta-voz dos repatriados, e conspiração sistemática (Neemias 4–6).
O fato de que o rótulo "povo da terra" seja uma designação criada pelos judeus repatriados nos proíbe de entendê-la como uma autodefinição camponesa. Por isso, neste contexto, poderia ser considerado simplório e perigoso sugerir de imediato uma leitura de classe rígida e sem as necessárias nuances esclarecedoras. Faz mister, porém, lembrar que nem sempre as novidades das definições identitárias são fruto da iniciativa popular. Pensemos, como exemplo, o rótulo "cristãos", que foi criado pela burocracia do Império Romano, nos anos 90, em Antioquia, para distinguir os seguidores de Cristo dos judeus. E a designação imperial perdura até hoje.
"Povos da terra" não nasce de um processo de autodefinição do campesinato que não foi deportado. Não é um termo neutro, mas uma categoria construída, que expressa a perspectiva e o preconceito dos repatriados da Babilônia. O mecanismo da rotulação por parte dos deportados é por eles utilizado como tentativa de deslegitimar outros grupos, que — repare bem a diferença — não são apelidados de גויים, goyim, termo usado para gentios, não-judeus, mas עם הארץ, ʿam ha'āreṣ. O termo ʿam ha'āreṣ, originalmente, na Bíblia, era um termo neutro, mas a partir de Esdras-Neemias se transformou em figura ideológica para estabelecer quem é "herege e cismático", ou seja, quem está fora da comunidade legítima. O conflito se apresenta como religioso e social, mas não é um conflito étnico. São habitantes da região de Judá-Benjamin, que se opõem à reconstrução do templo e são inimigos, mas apesar de tudo são judeus.
Sucessivamente, no período do Segundo Templo e na literatura rabínica, os "povos da terra" eram os judeus rurais e pouco instruídos, vistos pelos fariseus como ignorantes da Lei, negligentes em pureza ritual, ignorando dízimos e outras práticas religiosas. Ou seja, a sua condição de classe, a sua identidade camponesa era encoberta por um rótulo preconceituoso usado pelas elites religiosas para marcar quem estava fora do padrão de observância ritual e doutrinal exigido. É por isso que, séculos depois, na Mishná, ʿam ha'āreṣ vira sinônimo de judeu ignorante, infiel e não confiável.
No primeiro século, no tempo de Jesus, um termo equivalente era "galileu", que, no entanto, não significava "não judeu". A Galileia era judaica, mas longe de Jerusalém, menos exigente em pureza ritual, misturada com gentios e desprezada pela elite sacerdotal e farisaica da Judeia. Por isso, em João 7,52, os fariseus dizem: "Da Galileia não surge profeta." Galileu, embora judeu, era visto como um cidadão de segunda categoria pelos olhos da elite, exatamente como os ʿam ha'āreṣ.
O termo "Nazareno" é ainda mais forte como rótulo social. Nazaré era uma aldeia minúscula, irrelevante, sem prestígio. Não aparece no Tanakh, nem no Talmude. Era um nada, um Bacurau, lugar de ninguém. Por isso Natanael pergunta: "Pode vir algo bom de Nazaré?" (Jo 1,46). "Nazareno" é termo preconceituoso que define Jesus como filho de um vilarejo insignificante e como um indivíduo que, além de ter um sotaque insuportável, não pertence à elite religiosa e não tem partido.
Concluindo, quero insistir sobre a legitimidade de uma interpretação que considera inegável a rotulação preconceituosa do poder sacerdotal e dos escribas com relação ao povo da terra, mas reduzir a leitura a esse único aspecto significa esquecer que o Templo é uma realidade marcada pelo poder, pelo controle do dinheiro, pelo latifúndio, pelo monopólio dos animais para o sacrifício e pelo comércio, e que os pobres religiosamente julgados e desprezados constituem, antes de qualquer rótulo, uma classe economicamente explorada. São camponeses, pescadores, pequenos artesãos, curtidores de pele, coveiros, diaristas, pobres e oprimidos em geral, e não simplesmente "menos judeus, menos puros, menos instruídos". Por isso, naquele ano de 538 a.C., o conflito não era simplesmente social e religioso, mas era luta de classe: camponeses que bem sabiam quão letal era o poder do Templo para a sua vida. E quão perigosa se torna a religião quando controlada pelas elites nos processos políticos.
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