Uma magnífica humanitas sem humanitas. Artigo de Anita Prati

Foto: Vatican Media

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11 Agosto 2026

"Devo dizer que, diante daquele magnífico título, antes mesmo de ler uma única linha da encíclica, tive um sobressalto. Humanitas é uma das palavras mais belas e importantes que nos chegam da cultura latina, uma daquelas palavras que, sozinhas, desvelam mundos, permitindo-nos captar a intensidade e a profundidade de um pensamento que chega até nós como uma corrente fecunda que atravessa séculos de história".

O artigo é de Anita Prati, professora de Letras no Instituto Estatal de Educação Superior Francesco Gonzaga, em Castiglione delle Stiviere, Itália, publicado por Settimana News, 09-08-2026.

Eis o artigo.

Uma magnífica humanitas sem humanitas

Já se passaram quase três meses desde a publicação de Magnifica Humanitas, e no site oficial do Vaticano ainda não apareceu a tradução em latim. Não tem problema, é desde a Laudato Si' do Papa Francisco que começamos a lidar com o desaparecimento do latim como língua da oficialidade para a Igreja Católica.

Sendo justa a praxe de intitular as encíclicas a partir das duas primeiras palavras do texto, tanto Laudato Si' quanto Fratelli Tutti, com aquele seu título em italiano, haviam explicitado com clareza a escolha de elaborar o conteúdo da reflexão diretamente em italiano (ou talvez em espanhol?), para passar ao latim apenas num segundo momento. É apenas uma questão de tempo, dir-me-ão, e depois chegará a tradução em latim também para Magnifica Humanitas.

Será… No entanto, vocês entendem, causa-me estranheza que hoje, no Vaticano, seja difícil encontrar alguém que tenha familiaridade com a língua de Cícero e Tomás, enquanto as versões de Magnifica Humanitas em russo e árabe apareceram em vatican.va com absoluta pontualidade, em concomitância com o lançamento em italiano e nas demais línguas europeias.

E depois… E depois, se para Laudato Si' e para Fratelli Tutti a tradução retroativa para o latim se justificava justamente a partir daquela titulação em italiano que declarava explicitamente a precedência do texto em italiano em relação ao texto em latim (título em italiano a partir de texto em italiano), Magnifica Humanitas apresenta, ao contrário, um título em latim para um texto que do latim não viu nem sequer a sombra. Por quê? Por que Magnifica Humanitas foi intitulada Magnifica Humanitas, e não "A magnífica humanidade" ou "Humanity, created"? Por que há latim no título, se depois um texto em latim não existe?

A humanitas em Roma

Devo dizer que, diante daquele magnífico título, antes mesmo de ler uma única linha da encíclica, tive um sobressalto. Humanitas é uma das palavras mais belas e importantes que nos chegam da cultura latina, uma daquelas palavras que, sozinhas, desvelam mundos, permitindo-nos captar a intensidade e a profundidade de um pensamento que chega até nós como uma corrente fecunda que atravessa séculos de história.

Quando, após o biênio de preparação linguística e gramatical, os meninos e as meninas (sobretudo as meninas) que frequentam o liceu clássico, chegando ao triênio, começam a dar os primeiros passos no percurso de estudo da literatura clássica — que uma longa tradição define como studia humanitatis —, um dos conceitos fundamentais com que, como professora, os convido a se confrontar é justamente o de humanitas. Em uma das páginas introdutórias de nosso livro de história da literatura latina, lê-se:

"A humanitas latina e a paideía grega. O fruto mais elevado desse processo de aculturação e diálogo entre a cultura latina e a grega foi o florescimento, dentro do pensamento romano, da ideia de humanitas: um novo modo de entender a vida, a relação consigo mesmo e com os outros, que fundia o rigor do mos maiorum com a sensibilidade, o refinamento, o gosto pelo belo e pela cultura que derivam da paideía ("educação") grega, por meio da valorização do otium, ou seja, de um tempo dedicado ao estudo e às relações interpessoais, entendidas de modo muito semelhante à philanthropía ("amor pelo outro") grega."

As guerras de conquista do século III e II a.C. haviam levado Roma a encontrar a Grécia e, como escreveu Horácio em um verso de grande eficácia, Graecia capta ferum victorem cepit: a Grécia, que havia sido conquistada, conquistou o feroz vencedor. Justamente graças ao encontro com o pensamento e com a arte grega, o civis romanus pôde ampliar os horizontes acanhados da civitas e superar a visão utilitarista da mentalidade romana, abrindo-se a um alento mais amplo, cosmopolita e universal.

Foi o chamado "círculo" dos Cipiões o leito fecundo dentro do qual pôde florescer esse novo ideal existencial. Ao redor da família dos filo-helênicos Cipiões giravam intelectuais como Panécio, Lucílio, Ênio, Terêncio. E é justamente de Terêncio a voz que primeiro faz ressoar em Roma o ideal da humanitas.

Públio Terêncio Afro (195 a.C. cerca-159 a.C.), um dos primeiros grandes protagonistas da literatura latina, foi provavelmente um escravo depois liberto de origem africana, como podemos intuir a partir do cognome Afer. Autor de comédias, no verso 77 de seu Heautontimorúmenos (O Punidor de Si Mesmo), ele nos entrega a frase que é considerada fundadora do conceito de humanitas:

Homo sum, humani nihil a me alienum puto (sou um ser humano: não considero estranho nada do que diz respeito aos seres humanos).

O livro didático adotado em minha terceira série do liceu, ao apresentar esse trecho terenciano dentro de um percurso textual intitulado "A ideia de humanitas de Terêncio a nós", assim comenta:

"É o verso mais célebre de Terêncio, no qual se reflete o ideal da humanitas tal como se havia precisado no círculo cipiônico (…); resume a nova visão do homem, na qual o sentimento de benevolentia para com os outros (…) lança as bases para uma humanidade nova e uma nova civilização."

O adjetivo humanus, que encontramos em Terêncio, torna-se a base para uma reflexão filosófica que culmina em Cícero e em Sêneca, e leva à elaboração do termo abstrato humanitas. Volto mais uma vez ao meu livro didático do liceu, à página em que apresenta as obras filosóficas de Cícero:

"Junto com outras obras ciceronianas, o De officiis contribui para a difusão daquele ideal de humanitas que a cultura clássica nos legou, e do qual o escritor latino é talvez o representante mais maduro. Trata-se de uma concepção do ser humano como ser dotado de razão, à qual submeter os instintos naturais; uma pessoa que aprimora as próprias qualidades inatas com o estudo da literatura e da filosofia e que ama a cultura em todas as suas expressões, que inspira o próprio comportamento na tolerância, no respeito, no autocontrole, equilibrada e de boas maneiras, dedicada ao empenho político, que persegue o bem do Estado."

A humanitas em Tertuliano e Agostinho

Quando o latim se tornou a língua utilizada pela Igreja para a evangelização, teve de se adequar ao nível linguístico das pessoas comuns entre as quais o cristianismo ia se difundindo, assumindo uma fisionomia própria em relação ao modelo ciceroniano. Novos conceitos exigiam novas palavras ou a ressignificação de palavras já em uso. O termo humanitas, que havia consubstanciado em si séculos de cultura, foi retomado e relançado por Tertuliano e Agostinho em novas direções que, contudo, continuavam a valorizar a herança precedente.

Em Tertuliano, o termo humanitas é utilizado em contraposição e relação com divinitas: humanitas é a natureza humana, amassada da fragilidade da carne, assumida por Cristo na Encarnação. Agostinho atribui à humanitas um caráter universal, aberto a uma dimensão transcendente: todos os seres humanos, enquanto criaturas de Deus, estão ligados entre si por um vínculo de solidariedade e amor, e por isso também o inimigo, enquanto ser humano e criatura de Deus, deve ser concebido concretamente como proximus.

Entre Terêncio e Agostinho (dois norte-africanos, é bom ressaltar), o conceito de humanitas percorre uma ampla parábola, que depois será retomada e relançada adiante pela reflexão da era humanista e renascentista, chegando a exercer uma influência duradoura na história da cultura ocidental e universal.

A humanitas no humanismo

A redescoberta e a valorização das humanae litterae e dos studia humanitatis pelos Humanistas se colocam em continuidade com a sensibilidade de Agostinho. O santo de Hipona percebia que, para poder colocar em prática uma séria exegese bíblica, é necessário adquirir uma sólida preparação linguística e literária, e considerava a cultura clássica e as artes liberais como instrumentos essenciais a serviço da fé.

Na era renascentista, o estudo dos clássicos gregos e latinos não foi banalizado em simples imitação, mas se tornou instrumento indispensável para desvelar uma plena compreensão das potencialidades humanas: segundo os intelectuais do Renascimento, o homo faber, artífice do próprio destino, colocado em posição intermediária entre céu e terra, entre divinitas e feritas, pode alcançar sua plena realização apenas por meio da cultura.

Torna-se decisiva, portanto, a perspectiva ética e pedagógica que, ao promover a formação integral do homem, visando ao desenvolvimento harmonioso de corpo, mente e espírito, faz das disciplinas literárias o instrumento ideal para cultivar o espírito crítico e a capacidade de julgamento.

A humanitas em Magnifica Humanitas

Mas o que restou da humanitas do latim clássico, medieval e renascentista na palavra italiana umanità?

Em italiano, a palavra umanità manteve apenas dois dos significados fundamentais próprios da humanitas: humanidade como qualidade própria dos seres humanos, capazes de compaixão e compreensão para com os outros (Terêncio…) e humanidade como gênero humano, formado por mulheres e homens (Agostinho…). A dimensão ético-pedagógica, bem presente em Cícero e amplamente desenvolvida no Renascimento, passou, ao contrário, para o termo umanesimo (humanismo) e para o respectivo adjetivo umanistico.

Como a palavra humanitas é atravessada por séculos de história do pensamento que abrem seu sentido a profundidades extraordinárias, o título Magnifica Humanitas tinha me feito pensar que a escolha do latim havia sido ditada pela necessidade de utilizar um termo cuja abrangência semântica superasse os limites das acepções assumidas pela palavra italiana umanità, e deixasse transparecer, como num holograma, toda a riqueza e a coimplicação dos significados que nela se estratificaram ao longo dos séculos.

Mas não apenas, nem tanto, o incipit da encíclica ("A magnífica humanidade criada por Deus…"), que evidentemente assume o termo humanidade no significado de gênero humano, quanto todo o desenvolvimento argumentativo da encíclica não presta contas de nenhum aprofundamento estrutural sobre a importância das humanae litterae e dos studia humanitatis como instrumentos imprescindíveis para custodiar a pessoa humana no tempo da inteligência artificial.

Não tem problema, dir-me-ão, afinal a Itália talvez tenha permanecido o único país do mundo em que ainda se propõe o estudo do grego e do latim a adolescentes de quatorze anos; com o latim e o grego não se ganha a vida, para que servem o latim e o grego?

Pois é, para que serve um título em latim para um livro que não está em latim? Chegada ao fim desta longa disquisição, não encontrei a resposta. Talvez, simplesmente, no Vaticano não apenas já não haja mais ninguém que conheça o latim e saiba traduzi-lo, como também já não haja mais ninguém que tenha estudado, ao menos um pouco, a sua história literária.

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