07 Julho 2026
"Magnifica humanitas". O título escolhido pelo Papa Leão para sua primeira encíclica dedicada à inteligência artificial reflete o mesmo espírito do grande, aliás, grandíssimo discurso de ontem em Lampedusa, o mais belo desse jovem pontificado, destinado, a meu ver, a figurar entre os melhores discursos dos dois mil anos de magistério papal.
O artigo é de Vito Mancuso, ex-professor da Universidade San Raffaele, de Milão, e da Universidade de Pádua, publicado por La Stampa, 05-07-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis o artigo.
A humanidade é magnífica "sempre", e é magnífica em sua "totalidade". Não apenas a humanidade que constrói a inteligência artificial, mas também aquela que foge da miséria. Não apenas aquela preocupada em comer menos para não engordar, mas também aquela que se preocupa em comer simplesmente para não morrer. Magnifica humanitas, sempre e em todas as circunstâncias: Norte ou Sul, branca ou negra, cristã ou muçulmana, de outra religião ou de nenhuma.
A humanidade é magnífica mesmo quando é miserável, suja, ferida; mesmo quando é contra teus interesses imediatos e seria conveniente mandá-la embora; mesmo quando, de fato, parece tudo menos magnífica, por ser malcheirosa, hostil, agressiva. São discursos irracionais?
Sim, mas esse é precisamente o propósito da irracionalidade poética da religião (quando a religião é autenticamente religião, e não mesquinha superstição): transformar a racionalidade pesada da realidade em nome da utopia do amor.
Todos nós constatamos todos os dias que a humanidade é, muitas vezes, tudo menos que magnífica: é egoísta, gananciosa, vaidosa, por vezes até monstruosa, e muitos outros adjetivos negativos poderiam ser evocados.
No entanto, não é só isso que carregamos dentro de nós; pois também vive em nós uma dimensão diferente que se chama altruísmo, empatia, solidariedade, generosidade, e muitos outros substantivos positivos poderiam ser listados. E quando essa dimensão positiva emerge e se afirma, acontece aquilo que o Papa Leão chamou ontem de "o milagre da compaixão". É a partir disso, continuou o Papa, que se pode gerar uma "revolução interior, que faz com que aflore em nós a percepção de Deus e alarga os pensamentos, o coração e a vida". A palavra "alargar" guarda uma ressonância significativa com a expressão "ao largo", sinônimo de "alto-mar": o alargamento das consciências, muitas vezes tão comprimidas pelo isolamento e pelo medo, pode ser alcançada ao aventurar-se em mar aberto e socorrer nossos semelhantes cujas vidas correm perigo.
A consciência comprimida repele e não decide, a consciência alargada acolhe e decide. É por isso que o governo Trump (que repele) e a União Europeia (que não decide) têm sido alvo das críticas incisivas do Papa: "Há aqueles que escolhem não ser próximos e aqueles que decidem não decidir." No entanto, prosseguia Leão, pesa sobre eles uma enorme responsabilidade: "As mortes neste mar são vítimas tanto de decisões tomadas quanto de decisões não tomadas." O que está em jogo ao decidir salvar ou não aquelas vidas em perigo é imenso, e nos diz respeito pessoalmente: chama-se humanidade. Ou seja: o que queremos ser? Por quais valores queremos viver? Que ideais cultivar? Não permanecer insensíveis à necessidade de ajuda significa continuar vivendo segundo aqueles valores universais e profundamente mediterrâneos que colocam o acolhimento e a hospitalidade entre os critérios irrenunciáveis da verdadeira humanidade.
Lembro-me da famosa frase do dramaturgo latino Terêncio: "Homo sum, nihil humani a me alienum puto", "Sou um ser humano; nada do que é humano me é estranho." O nome completo de Terêncio era Públio Terêncio Afro; ele era conhecido como Afro porque tinha vindo da África para Roma, como já ocorria nos tempos da República Romana e continuou ocorrendo ao longo dos séculos seguintes do Império. Ser um homem não é simplesmente um dado biológico, é também, e sobretudo, um evento cultural: tornamo-nos homens quando permitimos que emerja em nós a empatia solitária para com todos os semelhantes. Se, ao contrário, nos fechamos e repelimos os outros, nossa humanidade se restringe, e nos tornamos menos homens.
O humanismo e o cristianismo se abraçam e se fundem na defesa da condição humana, que vem antes de todas as outras identidades: antes da pátria, antes da tradição e antes da conveniência econômica. As palavras de Leão não poderiam ter sido mais explícitas: "Antes de qualquer consideração intelectual ou convicção ideológica, o encontro com a pessoa que está diante de nós despojada de tudo exige proximidade". Para o Papa, preservar a humanidade vem antes mesmo da pertença religiosa; prova disso é sua rejeição categórica da proposta de discriminar o acolhimento dos migrantes com base na religião, priorizando os cristãos "porque se integram melhor" (como há muitos anos propôs o Cardeal Giacomo Biffi, natural de Milão e Bispo de Bolonha, e como alguns voltam a propor hoje). Para Leão, na verdade, "é hora de reconhecer e afirmar que a pertença religiosa jamais deve se tornar motivo de discriminação, como se a fé tivesse fronteiras, em vez de ser um chamado universal à salvação". A universalidade, portanto: esse é o valor que mais profundamente se harmoniza com a humanidade.
Em nítido contraste com os pastores protestantes que cercam o presidente Trump e abençoam cada sua ação, e com os católicos que ostentam rosários e sonham com uma nova Batalha de Lepanto, e opondo-se a qualquer subordinação da religião à ideologia política que considera o sangue e o solo (Boden und Blut, diziam os nazistas) mais importantes do que a humanidade, o Papa Leão ofereceu ontem ao mundo uma preciosa lição de espiritualidade e de política. Espiritualidade, porque nos fez compreender que nossa verdadeira essência consiste no amor. Política, ou, mais precisamente, geopolítica, porque convocou a Europa a retomar à sua missão histórica: a de "enfrentar a crise de modo orgânico, inserindo o primeiro socorro num plano estratégico de longo prazo, capaz de acolher, proteger, promover e integrar os migrantes, trabalhando simultaneamente pelo desenvolvimento para que ninguém seja forçado a emigrar".
De fato, se os africanos deixam seus países, se deve em grande parte a políticas econômicas predatórias. Por isso, mais que "remigração", é mais urgente e inteligente falar de novos e mais justos modelos econômicos.
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